Encontro, finitude e alteridade: “Nada é suficiente” e “Comunhão” inauguram dobradinha inédita no Teatro do Sesc Ipiranga

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Há espetáculos que chegam aos palcos como entretenimento e há aqueles que chegam como necessidade, como respostas estéticas a perguntas que o tempo presente insiste em formular sem que a cultura de massa tenha meios de respondê-las. É nesta segunda categoria, a mais rara e a mais preciosa, que se inscreve o projeto que estreia na próxima sexta-feira, 17 de abril, no Teatro do Sesc Ipiranga, na Rua Bom Pastor, 822, no bairro paulistano que deu nome à unidade: a encenação simultânea, em temporada intercalada, de duas peças do dramaturgo canadense Daniel MacIvor — Nada é suficiente e Comunhão —, protagonizadas pelas atrizes Lúcia Bronstein, Luisa Micheletti e Magali Biff, sob a direção a quatro mãos de Pedro Brício e Susana Ribeiro.

A concepção estrutural do projeto já é, em si mesma, uma declaração artística de densidade considerável. Ao invés de apresentar dois espetáculos como obras autônomas e independentes, a produção opta por entretecê-los numa mesma temporada, de modo que cada um ressoe no outro, que o espectador que assistiu a Comunhão no sábado carregue para Nada é suficiente no domingo uma camada de leitura que o isolamento de qualquer uma das peças jamais produziria. Trata-se de uma aposta na inteligência do público e numa concepção de teatro que transcende a função narrativa para alcançar algo da ordem da experiência filosófica: a ideia de que somos sempre uma pessoa diferente com cada pessoa com quem nos relacionamos, de que a identidade não é um núcleo fixo e estável, mas uma constelação de papéis e de afetos que se reconfigura a cada encontro.

Daniel MacIvor, nascido em Sydney, Nova Escócia, em 23 de julho de 1962, é um dos nomes mais admirados e ao mesmo tempo mais singulares da dramaturgia contemporânea de língua inglesa. Ator, diretor e escritor, construiu ao longo de quatro décadas uma obra que recusa igualmente o naturalismo previsível e a experimentação hermética, ocupando o território raro entre o acessível e o profundo, entre a fala do cotidiano e a metafísica que vibra sob ela, quase sempre invisível para quem não treinou o ouvido para ouvi-la. No Brasil, sua dramaturgia encontrou acolhida entusiástica e duradoura: In on It foi encenada no Rio de Janeiro em 2009 por Enrique Diaz e retomada quinze anos depois com o mesmo elenco, feito rarísssimo no teatro brasileiro; Cine Monstro e À primeira vista também conquistaram crítica e público, confirmando que há entre MacIvor e o gosto teatral brasileiro uma afinidade que não é conjuntural, mas estrutural.

Comunhão, inédita no Brasil, narra a trajetória de três mulheres em processo de transformação: Carolina, uma psicoterapeuta em crise profunda com a natureza protocolar das relações que estabelece com seus pacientes; Leda, ex-alcoólatra que recebe o diagnóstico de uma doença grave; e Anita, ex-traficante convertida a uma fé fervorosa e grávida. Em três atos que saltam no tempo, as personagens se encontram duas a duas — Carolina e Leda, Leda e Anita, Anita e Carolina —, num movimento dramatúrgico de precisão geométrica que MacIvor descreve com a seguinte observação: “cada personagem surge duas vezes na peça, de forma transformada, como se cada atriz interpretasse duas personagens diferentes”. O resultado é um teatro de camadas múltiplas, em que fé, vício, maternidade, terapia e perdão se articulam não como temas, mas como condições de encontro — e o encontro, sempre, como possibilidade de transformação.

Nada é suficiente, por sua vez, narra vinte anos de amizade e amor entre duas mulheres, M e L, interpretadas por Lúcia Bronstein e Luisa Micheletti, numa peça que utiliza o humor, o silêncio e a música, há uma banda de rock na cena, para explorar a resistência das protagonistas em rotular o que sentem uma pela outra. O texto é uma meditação refinada sobre a ambiguidade constitutiva dos vínculos afetivos mais intensos, sobre o medo da vulnerabilidade que frequentemente impede as relações de atingir sua plenitude, e sobre o modo como as pessoas narram suas próprias vidas para si mesmas e para os outros, sempre com cortes, com lacunas, com omissões que dizem tanto quanto as palavras pronunciadas.

A direção compartilhada entre Pedro Brício e Susana Ribeiro é um dos elementos mais interessantes desta produção. Brício, um dos dramaturgos mais prolíficos e premiados do teatro brasileiro contemporâneo, detentor dos prêmios Shell, APCA, Questão de Crítica e Contigo, com textos traduzidos para o inglês, espanhol, francês e alemão, trouxe para o projeto sua experiência na construção de dramaturgias que articulam o popular e o erudito, o musical e o drama, o humor e a tragédia. Susana Ribeiro, formada na Casa de Artes de Laranjeiras, com 35 anos de carreira que incluem novelas e séries de grande alcance como Senna e O Mecanismo na Netflix, além do prêmio Shell de melhor direção por Conselho de Classe, define sua abordagem diretorial como a de uma “bordadeira”: alguém que costura os detalhes e as camadas do não dito, para que o elenco se sinta potente e a cena ganhe a força que apenas o “estar dentro” do palco sabe revelar.

A estética que unifica os dois espetáculos é deliberadamente minimalista. O cenário assinado por André Cortez serve como base versátil para ambas as montagens; os figurinos de Simone Mina evitam o realismo, apostando em detalhes que marcam as mudanças de personagem sem recorrer à caracterização óbvia; e o desenho de luz de Aline Santini assume o papel narrativo central, traduzindo visualmente a ideia que atravessa todo o projeto: a de que a “iluminação” estética é o correlato da “iluminação” humana que ocorre quando dois seres se permitem afetar genuinamente um pelo outro. Em Comunhão, a luz atravessa as frestas de uma porta; em Nada é suficiente, cria um momento de epifania dentro de uma caixa luminosa,  duas imagens distintas que dizem, no fundo, a mesma coisa sobre a transcendência que se esconde no cotidiano mais prosaico.

Vale registrar ainda um aspecto que ultrapassa o comentário técnico e alcança a dimensão do posicionamento cultural: ambos os espetáculos passam no Teste de Bechdel, critério criado nos anos 1980 pela cartunista Alison Bechdel para medir a representatividade feminina na ficção, que exige, em síntese, que pelo menos duas personagens femininas com nome próprio dialoguem sobre algo que não sejam os homens. Num panorama teatral em que o protagonismo feminino ainda é reivindicação e não realidade consolidada, a coincidência não é banal: é programa estético e ético.

A temporada vai de 17 de abril a 31 de maio. Às sextas-feiras, os dois espetáculos são apresentados em sequência: Nada é suficiente às 20h e Comunhão às 21h15, com intervalo de 15 a 20 minutos, totalizando cerca de três horas de experiência teatral contínua. Aos sábados, apenas Comunhão às 20h; aos domingos, apenas Nada é suficiente às 18h. Os ingressos custam R$ 60,00 a inteira, R$ 30,00 a meia entrada e R$ 18,00 para credencial plena Sesc. A classificação etária é 16 anos.

Para o leitor que recusa o teatro de efeitos fáceis e busca a cena como espaço de pensamento, de afeto e de inquietação produtiva, estas duas peças constituem, juntas, um convite que raramente se apresenta com tanta elegância e coerência artística. O SP Notícias, jornal caracterizado pela elegância de sua apresentação e pelo compromisso inabalável com um jornalismo cultural que trata o leitor como interlocutor inteligente, convida você a explorar toda a programação cultural de São Paulo em nossas páginas, onde cada matéria é redigida com o mesmo cuidado que os grandes artistas dedicam às suas obras.

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Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
SP Notícias — Intellectus ex veritate

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