
A Universidade de São Paulo definiu, com antecedência rara no calendário dos vestibulares brasileiros, a lista de leituras obrigatórias da Fuvest para os exames de 2030 a 2033, sinalizando uma política de repertório que pretende combinar estabilidade pedagógica e expansão de cânone. Em comparação com o ciclo 2026-2029, a nova seleção reforça a diversidade de origens autorais e reintroduz gêneros pouco presentes nos últimos anos, como teatro, além de incorporar uma graphic novel e obras de autoria indígena.
O anúncio e seu sentido
A Fuvest informou que a lista para 2030, 2031, 2032 e 2033 foi aprovada pelo Conselho de Graduação da USP e divulgada antecipadamente para permitir que escolas, docentes e estudantes se programem com mais previsibilidade. O comunicado também enfatiza a ideia de transição planejada entre ciclos de leitura e a preservação de critérios de qualidade e diversidade no conjunto de obras. Esse tipo de anúncio, quando feito com anos de antecedência, não é apenas um serviço organizacional: é uma forma de intervenção no tempo da escola, pois desloca parte do planejamento pedagógico do improviso para a construção de itinerários mais longos e consistentes.
As obras de 2030 a 2033
A lista de 2030 e 2031 reúne contos, teatro, poesia, romance e, de modo inédito, uma graphic novel, articulando tradições canônicas com repertórios contemporâneos e formas narrativas que dialogam com a cultura visual. Já a lista de 2032 e 2033 mantém parte do núcleo anterior e introduz novos romances, incluindo um título apresentado como entrada inédita de literatura asiática por meio de autor timorense.
2030 e 2031 Laços de família (contos), Clarice Lispector.
2030 e 2031 Originárias: uma antologia feminina de literatura indígena (contos), Trudruá Dorrico e Maurício Negro.
2030 e 2031 A moratória (teatro), Jorge Andrade.
2030 e 2031 Uma faca só lâmina (poesia), João Cabral de Melo Neto.
2030 e 2031 Beco do Rosário (graphic novel), Ana Luiza Koehler.
2030 e 2031 Esaú e Jacó (romance), Machado de Assis.
2030 e 2031 Memorial do convento (romance), José Saramago.
2030 e 2031 A ilha fantástica (romance), Germano Almeida.
2030 e 2031 Quarto de despejo (romance), Carolina Maria de Jesus.
2032 e 2033 Laços de família (contos), Clarice Lispector.
2032 e 2033 Orfeu da Conceição (teatro), Vinicius de Moraes.
2032 e 2033 Uma faca só lâmina (poesia), João Cabral de Melo Neto.
2032 e 2033 Beco do Rosário (graphic novel), Ana Luiza Koehler.
2032 e 2033 Úrsula (romance), Maria Firmina dos Reis.
2032 e 2033 Esaú e Jacó (romance), Machado de Assis.
2032 e 2033 O plantador de abóboras (romance), Luís Cardoso.
2032 e 2033 Casa de família (romance), Paula Fábrio.
2032 e 2033 Fantasmas (romance), Daniel Munduruku.
O próprio texto institucional destaca como novidades estruturais a presença inédita de autores indígenas, a inclusão de uma graphic novel, o retorno do teatro e a entrada de literatura asiática, elementos que reposicionam o vestibular como mediador explícito de disputas contemporâneas de repertório. Além disso, a curadoria é apresentada como resultado do trabalho da Seção Acadêmica da fundação em conjunto com professores da banca de Literatura, com fala pública do diretor-executivo Gustavo Monaco sobre o conjunto de mudanças.
O que muda em relação a 2026-2029
Para medir o alcance do novo ciclo, é preciso lembrar o gesto anterior: entre 2026 e 2028, a Fuvest definiu uma lista composta somente por mulheres autoras de língua portuguesa, reunindo escritoras brasileiras e estrangeiras, como Clarice Lispector, Conceição Evaristo, Djaimilia Pereira de Almeida, Julia Lopes de Almeida, Lygia Fagundes Telles, Narcisa Amália, Nísia Floresta, Paulina Chiziane, Rachel de Queiroz e Sophia de Mello Breyner Andresen. A justificativa explícita, registrada no texto institucional, foi valorizar o papel das mulheres na literatura e enfrentar uma história de invisibilidade de autoras no cânone.
A presidente do Conselho Curador da Fuvest e vice-reitora da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda, associa a escolha à correção de décadas de apagamento, observando que muitas autoras foram invisibilizadas pelo fato de serem mulheres. O pró-reitor de Graduação da USP, Aluísio Cotrim Segurado, define a inflexão como “corajosa” e “necessária”, ressaltando que ela não se afasta da qualidade tradicional do repertório da lista. Já Gustavo Monaco afirma que o predomínio de autoras não nega a importância da literatura feita por homens e defende a lista como modo de valorizar o que ainda não se conhece e de posicionar a literatura como ferramenta de reflexão e transformação social.
No ano de 2029, o próprio texto da Fuvest registra a reintrodução de autores homens e de obras fora do eixo estrito da lista feminina anterior, com a entrada de Machado de Assis, Érico Veríssimo e Luís Bernardo Honwana. Também se menciona que 2029 seria um ano em que a lista conteria quatro obras escritas por autoras e autores negros e que Incidente em Antares foi selecionado como representante de literatura fantástica, entendida ali como uma novidade na prova. À luz desse percurso, a lista 2030-2033 funciona menos como ruptura e mais como consolidação: ela preserva a preocupação com diversidade, mas amplia o escopo ao incorporar outros regimes de linguagem, outras matrizes culturais e novas materialidades do texto.
O vestibular como curadoria cultural
Quando um vestibular define leituras obrigatórias, ele não apenas avalia estudantes: ele determina, por alguns anos, quais obras tendem a ganhar centralidade em sala de aula, nos cursinhos, nas editoras e até em debates públicos. Nesse sentido, a expansão de gêneros é tão relevante quanto a alternância de nomes, porque mexe no tipo de competência leitora que se espera de um candidato. O retorno do teatro e a entrada da graphic novel, por exemplo, convidam a escola a discutir performance, visualidade, oralidade, rubricas, montagem e adaptação, competências que não se esgotam na análise do enredo.
Também há, no plano simbólico, um deslocamento importante: a inclusão de obras indígenas, anunciada como “pela primeira vez”, sugere o reconhecimento de que a literatura brasileira não se limita a uma tradição escrita urbana e letrada, mas abriga cosmovisões, regimes de memória e políticas de linguagem que desafiam o leitor a rever categorias como autoria, narrador, tradição e arquivo. Ao mesmo tempo, a referência à literatura asiática via um autor timorense, apresentada como novidade inédita, sinaliza uma tentativa de desprovincianizar o repertório lusófono, ligando a língua portuguesa a sua geografia múltipla e às histórias coloniais que a atravessam.
Se a lista de 2026-2028 assumiu o caráter de correção histórica em favor de autoras, a de 2030-2033 parece operar numa chave de ecologia do repertório: não basta alternar nomes, é preciso ampliar formas, origens e perspectivas, para que a leitura escolar deixe de ser apenas uma trajetória de “grandes obras” e passe a ser um campo de comparação entre linguagens e experiências sociais.