

A cidade de São Paulo voltou a traduzir em quilômetros de lentidão a complexidade de sua vida urbana e bateu, nesta quarta‑feira, o recorde de trânsito de 2026. De acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), às 18h30 a capital registrou 1.149 quilômetros de congestionamento simultâneo, o maior índice do ano até agora e um dos mais altos da série recente, superando com folga as marcas já elevadas observadas nas últimas semanas.
Até então, o pior cenário de 2026 havia sido registrado na manhã de 10 de fevereiro, quando a cidade alcançou 1.054 quilômetros de vias congestionadas por volta das 7h30, em um pico matutino atribuído à combinação de excesso de veículos e chuva intensa. O novo recorde, agora no horário de pico da tarde e início da noite, amplia esse patamar em quase 100 quilômetros, reforçando a percepção de que a metrópole entrou em um período de saturação crônica de sua malha viária.
Segundo a CET, o índice de 1.149 quilômetros foi impulsionado por uma forte chuva que atingiu a capital ao longo da tarde, concentrada sobretudo nas zonas Sul e Oeste e na região central, provocando alagamentos pontuais, redução de visibilidade e aumento natural da cautela ao volante. Em nota, a companhia informou que, diferentemente de alguns episódios anteriores, não houve um grande acidente ou bloqueio único que explicasse a magnitude da lentidão; tratou‑se da soma de trânsito carregado, alta demanda típica do meio de semana, pista molhada e reflexos de ocorrências de menor porte espalhadas pela cidade.
Os números dão dimensão da natureza extraordinária do engarrafamento. Em dias comuns, o indicador de lentidão da CET gira, no pico da tarde, em torno de 600 a 700 quilômetros de filas somadas nas principais vias monitoradas. No recorde desta quarta‑feira, a cidade praticamente dobrou essa marca, aproximando‑se do patamar de grandes colapsos viários recentes, embora ainda abaixo do recorde de 2025, quando uma combinação de chuva forte e paralisação de ônibus levou o índice a 1.486 quilômetros às 19h. Bem distante, mas sempre lembrado como referência extrema, permanece o recorde histórico de São Paulo: 1.902 quilômetros de congestionamento, registrados em 5 de setembro de 2019, às 18h30.
Do ponto de vista do motorista, o que esses quilômetros significam é um fim de tarde em marcha lenta em praticamente todos os eixos estruturais da cidade. Corredores como Marginal Tietê, Marginal Pinheiros, Radial Leste, Bandeirantes, 23 de Maio e Rebouças, que já costumam figurar entre os pontos críticos, aparecem nas medições como faixas contínuas de vermelho. Em corredores de ônibus, a lentidão contamina o transporte coletivo, alongando o tempo de percurso dos passageiros e pressionando tabelas de horário. No entorno de centros comerciais e polos de serviços, o trânsito travado repercute em atrasos de entregas, deslocamentos profissionais e compromissos cotidianos, da consulta médica ao curso de idiomas.
A meteorologia ajuda a explicar parte do cenário. Dados do Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) indicam que fevereiro já vinha acumulando, até meados do mês, cerca de 100 milímetros de chuva, quase metade do esperado para todo o período, com episódios de pancadas concentradas no fim da tarde, horário em que o fluxo viário naturalmente se intensifica. Nessas condições, a recomendação de reduzir a velocidade, o aumento da distância de segurança entre veículos e a maior cautela em conversões e travessias tendem a derrubar a capacidade de escoamento das vias, transformando o que seria uma tarde apenas carregada em um pico recorde de congestionamento.
Especialistas em mobilidade urbana lembram que situações como a desta quarta‑feira não são fruto apenas de fatores conjunturais, como a chuva, mas também resultado de escolhas estruturais. São Paulo tem uma frota superior a 8,6 milhões de veículos, entre automóveis, motos, caminhões e ônibus, em uma malha viária que cresce muito mais lentamente do que a demanda. A expansão da rede de metrô e trens metropolitanos, embora venha avançando em diversos eixos, ainda não se traduz em uma alternativa plenamente competitiva para grande parte dos deslocamentos interbairros, especialmente em áreas periféricas, o que mantém o carro particular no centro da equação.
Ao mesmo tempo, a estrutura de medição da CET, que utiliza uma amostra das principais vias monitoradas com apoio de dados de aplicativos de navegação como o Waze, permite capturar com maior precisão o retrato do trânsito em tempo real, mas também torna mais visíveis picos que, há alguns anos, passariam parcialmente despercebidos nas estatísticas oficiais. Desde 2019, o índice geral considera não apenas os eixos clássicos, mas uma rede ampliada de corredores, o que faz com que recordes recentes sejam, em parte, expressão de uma base mais abrangente de medição – embora, na prática, os motoristas sintam na pele que não se trata apenas de refinamento estatístico.
Para quem acompanha o histórico da mobilidade paulistana, o novo recorde de 2026 reforça uma tendência já observada em 2025: a de que picos superiores a mil quilômetros de lentidão deixaram de ser eventos raríssimos e passaram a figurar no calendário anual, especialmente em dias de chuva, greves ou vésperas de feriados prolongados. Em junho do ano passado, por exemplo, a cidade registrou 777 quilômetros de congestionamento apenas na manhã de uma segunda‑feira chuvosa, o maior índice matutino do ano, e, em dezembro, a paralisação de ônibus combinada a temporais elevou a lentidão à casa dos 1,4 mil quilômetros.
Diante da recorrência desses picos, o debate sobre alternativas ganha vigor. A Prefeitura de São Paulo e o governo estadual vêm apostando em uma combinação de obras de infraestrutura, expansão de corredores de ônibus, ampliação da malha metroferroviária e medidas de gestão de demanda, como rodízio e restrições a caminhões em horários de pico. A CET estuda, desde 2023, monitorar o trânsito por regiões com maior granularidade, de modo a construir planos de ação específicos para zonas que concentram problemas crônicos, em vez de tratar o índice global de lentidão como único termômetro.
Nada disso, contudo, produz efeito imediato em um fim de tarde como o desta quarta‑feira. Para o paulistano que se viu preso na fila de carros na Marginal Pinheiros ou na Radial Leste, o recorde de 1.149 quilômetros não é um número abstrato, mas a soma de minutos e horas roubadas do convívio familiar, do descanso e até do trabalho. Em uma metrópole que há décadas convive com a ideia de que o trânsito é parte indissociável de sua identidade, cada novo recorde funciona como lembrete incômodo de que a conta da opção pelo automóvel, pela expansão horizontal e pela mobilidade baseada em deslocamentos longos segue chegando, dia após dia, na forma de luzes vermelhas alinhadas até onde a vista alcança.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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