
“Façamos o elogio dos homens ilustres, que são nossos antepassados, em sua linhagem. O Senhor deu-lhes uma glória abundante, desde o princípio do mundo, por um efeito de sua magnificência.
Eles foram soberanos em seus estados, foram homens de grande virtude, dotados de prudência. As predições que anunciaram adquiriram-lhes a dignidade de profetas: eles governaram os povos do seu tempo e, com a firmeza de sua sabedoria, deram instruções muito santas ao povo.
Com sua habilidade cultivaram a arte das melodias, publicaram os cânticos das escrituras.
Homens ricos de virtude, que tinham gosto pela beleza, e viviam em paz em suas casas.
Todos eles adquiriram fama junto de seus contemporâneos, e foram a glória de seu tempo.
Aqueles que deles nasceram deixaram um nome que publica seus louvores.”
Eclesiástico 44:1-8
Sim caro leitor, foi isso mesmo que lestes!
Padroeiro do Brasil.
Uma semana após celebrarmos a solenidade da padroeira do Brasil, Nossa Senhora da Conceição Aparecida, celebramos hoje a festa do Padroeiro do Brasil.
São Pedro de Alcântara, padre e religioso da ordem dos Frades menores (Franciscanos), da qual foi o reformador, direitor espiritual da grande Santa madre Teresa de Jesus (Santa Teresa D’Ávila), e grande conselheiro do imperador Carlos V e do rei João III de Portugal.
A coroa portuguesa sempre teve grande devoção a São Pedro de Alcântara, os nossos dois imperadores portam o seu nome, o que chamamos de santo onomástico( santos da qual se tem o mesmo nome), Dom Pedro I( Chamado Pedro de Alcântara, mostrando a devoção a esse grande santo, pediu ao Santo Padre, O Papa Leão XII, Que proclamasse São Pedro de Alcântara Padroeiro do Brasil, e concedido. Em 1826, O Santo Padre atendeu aos pedidos da casa imperial e proclamou nosso santo padroeiro, Pedro de Alcântara: “Sua Majestade Pedro I sob o título de Imperador e Defensor perpétuo do Brasil, agora tem a missão de governar e dirigir esse povo quase inumerável…. já por trazer, como imperador, o próprio nome do santo, ele decidiu escolhê-lo como padroeiro principal de todo o império.” Palavras do Santo Romano Pontífice.
Com a queda do Brasil império, e a vinda da república, tudo o que lembrava o império e a monarquia foi esquecido e escondido, como o nome do Nosso Santo lembra o nome dos imperadores, infelizmente a devoção a São Pedro de Alcântara se esvaiu e ele caiu no esquecimento do seu povo.
Na nova edição do missal romano do Brasil, a terceira edição típica, que entrou em vigor no dia 03 de dezembro de 2023, foi acrescentada a missa da memória embora facultativa de São Pedro de Alcântara, para ser celebrada no dia 19 de outubro, alguns sacerdotes já tomam os textos para retomar a devoção ao nosso excelso patrono e tirá-lo do esquecimento.
Quem foi, portanto, esse Santo glorioso que temos a graça de estarmos sobre o seu patrocínio?
Um dos aspectos da vida de São Pedro de Alcântara foi a sua austera penitência.
Sabe-se que ele dormia pouco e comia pouco, era tão magro, diria mais, magérrimo, que sua dirigida, Santa Teresa D’Ávila o descreveu assim: “parecia feito de raízes de árvores.” Livro da vida, capítulo 27.
Devido a sua magreza pela penitência e o uso do hábito marrom dos franciscanos.
Após a sua morte, São Pedro de Alcântara apareceu em uma visão a Santa Teresa D’Ávila, que o viu revestido de tamanha glória e o interrogou sobre de onde havia obtido tamanha ventura, e ele respondeu: “Vi-o muitas vezes com imensa glória. Da primeira vez em que me apareceu, ele me disse que fora feliz a penitência que lhe granjeara tamanha recompensa, e muitas outras coisas.”
A chave de ouro que abriu as comportas celestes a São Pedro de Alcântara fora a penitência. Também conhecida como mortificação, essa virtude tão importante mas infelizmente tão afastada da prática católica atual…
Vivemos sempre em confortos e tranquilidade, já os santos tinham a Deus como sua única riqueza e o seu único bem, e se afastavam de tudo para terem unicamente a Deus, e não confiando em si próprios, renunciavam a si mesmos, as suas vontades e seus desejos, inclusive os lícitos, pois a penitência repara os pecados passados, evita os futuros e conserva a alma na vigilância e na graça de Deus.
Eis o grande exemplo de Nosso patrono, não fiquemos longe nem sejamos tão diferentes de sua pessoa, embora suas penitências foram muito austeras: “por quarenta anos dormiu apenas uma hora e meia por dia. Contou que no início a sua maior penitência foi vencer o sono e que, para isso, ficava sempre de joelhos ou de pé; quando dormia, era sentado, com a cabeça encostada a um pedaço de madeira que tinha pregado na parede. Ainda que quisesse, não podia deitar-se, porque a sua cela, como se sabe, não tinha nem um metro e meio. Em todos esses anos, nunca se cobriu com um capuz, por mais fortes que fossem o sol ou a chuva, nunca cobriu os pés e só vestia o corpo com um hábito de saial sem nada mais sobre a carne. Tratava-se de um hábito bem apertado, por cima do qual ele usava um pequeno manto do mesmo pano.
Ele me contou que tirava o manto quando fazia muito frio e deixava a porta e o postigo da cela abertos, a fim de que, pondo depois o manto e fechando a porta, o corpo fosse contentado e ficasse sossegado com algum abrigo. Ele costumava comer somente de três em três dias, afirmando ainda que isso não era motivo de espanto, por ser muito possível a quem se acostumasse. Um companheiro seu me contou que ele às vezes passava oito dias sem comer. É provável que isso ocorresse quando ele estava em oração, porque tinha grandes arroubos e ímpetos de amor de Deus, como testemunhei certa feita.” Livro da vida (idem).
Não podemos imitar ou chegar a tanto, porém, quem de nós não pode ofertar a Deus as lágrimas, as dores, as intempéries, chuvas, frio, calor, tudo que nos incomoda como prova de nosso amor a ele? Abraçando assim a nossa cruz?
Que de nós não pode suportar pacientemente os devotos do próximo? E os seus próprios defeitos? Que não pode suportar com paciência as demorar de Deus e se conformar com sua santíssima vontade mesmo que a nosso contra gosto?
As abstinências de sexta-feira como nos diz o código de direito canônico:
Cân. 1250. Os dias e tempos penitenciais, em toda a Igreja, são todas as sextas- feiras do ano e o tempo da quaresma.
Cân. 1251. Observe-se a abstinência de carne ou de outro alimento, segundo as prescrições da Conferência dos Bispos, em todas as sextas-feiras do ano, a não ser que coincidam com algum dia enumerado entre as solenidades; observem-se a abstinência e o jejum na quarta-feira de Cinzas e na sexta-feira da paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Todas as sextas-feiras portanto, devemos nos abster da carne, um único dia semanal, não podemos fazê-lo?
Sim, todas essas pequeninas penitências são possíveis de se realizar, como ensina Santa Teresinha, uma pequena via, pequeno caminho para a santificação.
Porém, muitas vezes a vida dos santos, que devem nos alçar ao desejo de alcançar a glória que eles já alcançam, pode nos desestimular, ao vermos tamanhos feitos, podemos nos deixar enganar que esse magnífico santo era triste e apático, ao contrário, a alegria é um sinal da santidade de Deus, em Deus não há sombra nem tristeza, em Deus há alegria, a verdadeira alegria. Como bem recordava São João Bosco ” Um cristão é alegre.” E um dia São Francisco de Assis, contou a frei leão o segredo da perfeita alegria:
“Num dia de muito gelo e frio, São Francisco caminhava de Perúgia a Santa Maria dos Homens junto a Frei Leão. No meio do caminho, Francisco começa a exclamar: “Anota o que eu digo, frade! Ainda que os frades menores por toda a terra deem grande exemplo de santidade não está aí a perfeita alegria. Ainda que o frade menor soubesse todas as línguas e todas as ciências, profecias e coisas futuras, não está nisso a perfeita alegria. Ainda que o frade menor soubesse pregar tão bem que convertesse todos os infiéis à fé de Cristo, escreve que não está aí a perfeita alegria.”
Frei Leão, perturbado, finalmente questiona o santo em êxtase: o que é, Pai Francisco, a perfeita felicidade?
“Quando chegarmos a Santa Maria dos Anjos, ensopados de chuva, congelados de frio e cheios de fome, e formos rejeitados pelo porteiro como farsantes, e expulsos a pancadas, se sustentarmos sem murmuração essas injúrias, teremos a perfeita felicidade.
Escreve, Frei Leão, é nisto que está a verdadeira alegria: de bom grado, por amor de Cristo, suportar as penas e injúrias, os opróbrios e transtornos.”
São Pedro de Alcântara, como um fiel filho de São Francisco, seguiu profundamente essa verdadeira, encontrar a alegria na tristeza e abraçar a cruz de Cristo em nossas cruzes, pois é essa nossa glória( São Paulo aos Gálatas (6:14).
Foi também um dos maiores místicos do século XV-XVI.
Douto em diversas ciências, mas sobretudo sábio nas coisas divinas.
“Com toda essa santidade, era muito afável, se bem que de poucas palavras, a não ser quando falavam com ele. Sua conversa era muito agradável, por ser grande a sua compreensão”
São Pedro de Alcântara foi reformador de um ramo da ordem franciscana que ficou conhecida como Franciscanos Recoletos.
A reforma ali operada, porém, era resultado da reforma que havia em seu próprio ser, São Pedro de Alcântara podia dizer como o apóstolo São Paulo: “Já não sou eu quem vivo, é Cristo que vive em mim.” (Gálatas 2:20)
Alegremos com o São Pedro de Alcântara, afim de um dia alcançarmos a alegria do Senhor como servos bons e fiéis que ele já exulta eternamente, e confiemos em seus rogos para alcançar as graças de que precisamos diante de Deus, como bem atesta a sua santa amiga e filha espiritual: “O Senhor me disse uma vez que concederia em nome desse Santo tudo o que Lhe pedissem. Muitas coisas que lhe encomendei que pedisse ao Senhor vi ser realizadas. Bendito seja para sempre, amém.” Livro da vida, capítulo 27,16-20 ( lá se encontrará essa e outras citações colocadas nesse texto.)
“Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus.”
São Mateus 5:16
Sancte Petre alcantarenses, Ora Pro Nobis!