

O comércio eletrônico brasileiro amanheceu fevereiro sob o signo de uma correção de rota que atinge diretamente o coração do varejo digital: a estrutura de tarifas cobrada dos pequenos e médios vendedores que se apoiam em grandes marketplaces para existir. Enquanto Mercado Livre e Shopee anunciam reajustes significativos em comissões, fretes e serviços logísticos, a Amazon escolhe a via oposta e zera, por um mês, tarifas de seu programa de fulfillment para uma parte relevante do catálogo, numa estratégia clara de captura de vendedores em um ambiente de custos crescentes.
No caso do Mercado Livre, maior plataforma de e‑commerce da América Latina, o movimento foi formalizado em comunicado divulgado em janeiro e entra em vigor a partir de março de 2026, incidindo sobretudo sobre custos de envio e de armazenagem no modelo Fulfillment. A empresa abandonou a taxa fixa para itens de menor valor e adotou, para produtos abaixo de R$ 79, um modelo variável que leva em conta preço, peso, volume e tipo de entrega, ao mesmo tempo em que atualiza tabelas de frete para itens acima desse patamar e para modalidades como o Mercado Envios Flex. No Full, onde o marketplace concentra estoque, separação e despacho, o reajuste é matematicamente nítido: aumento de 7,6% na tarifa diária de armazenagem, 5% a mais na retirada de estoque e incremento que varia de 5% a 10% nos custos de coleta, conforme distância e volume.
O relatório distribuído a investidores explica, sem rodeios, que a readequação de preços busca sustentar a política de frete grátis, pressionada pelo crescimento de volumes na segunda metade de 2025 e pelo encarecimento da operação logística em um país continental. Em termos práticos, isso significa uma compressão imediata de margens para os vendedores que operam com tickets médios baixos e pouca escala, obrigando-os a revisitar planilhas de precificação, repensar o uso do estoque em Full e calibrar a oferta de frete subsidiado. Especialistas em e‑commerce já alertam que, mantidos os atuais níveis de competição por preço, o impulso natural será repassar ao consumidor final parte dessa alta, ainda que de forma gradual e seletiva, sob pena de inviabilizar operações inteiras.
A Shopee, que chegou ao Brasil sob a bandeira de preços extremamente baixos e comissões simbólicas, entra em 2026 inaugurando um capítulo distinto de sua trajetória: a fase em que testa, de modo mais explícito, o seu poder de precificação diante de uma base de vendedores já cativa. A plataforma elevou, a partir de 6 de janeiro, a taxa fixa por item vendido para vendedores pessoa física, que passa de R$ 5 para R$ 7, mantendo valor reduzido de R$ 4 apenas para aqueles com mais de 450 pedidos em 90 dias e para quem atua com CNPJ. Em paralelo, a estrutura de comissão flutuante e de taxas adicionais faz com que, em muitos cenários, o custo efetivo salte para cerca de 14% sobre o valor do produto, somado à taxa fixa, com possibilidade de alta de até 20 pontos percentuais em determinados segmentos de baixo ticket, segundo estimativas de analistas.
O recado é cristalino: a fase de subsídios agressivos para ganhar participação de mercado cede espaço a uma monetização mais cautelosa, mas inevitável, em um ambiente em que o capital requer retorno e a guerra de preços mostra sinais de exaustão. Para o pequeno vendedor, porém, a aritmética é dura. Produtos de valor reduzido, que outrora encontravam na Shopee um refúgio em razão das taxas irrisórias, passam a enfrentar um piso fixo de R$ 7 por unidade, cifra capaz de engolir porções relevantes da margem em nichos como bijuterias, armarinhos, acessórios de baixo custo e itens de importação leve. Não por acaso, multiplicam-se nas redes sociais relatos de lojistas redesenhando catálogos, eliminando produtos menos rentáveis e migrando parte do mix para plataformas concorrentes.
É justamente nesse contexto de aumento quase simultâneo de custos nos dois gigantes asiático‑latino-americanos que a Amazon Brasil decide acionar uma alavanca de diferenciação. Durante todo o mês de fevereiro, a empresa isentará totalmente as tarifas de seu programa logístico Fulfillment by Amazon (FBA) para produtos com preço acima de R$ 100, mantendo, para itens abaixo desse valor, uma cobrança linear de R$ 5 por unidade, com coleta e armazenagem gratuitas. A iniciativa vale para todos os vendedores que já integram o FBA e, conforme comunicado oficial, pode ser estendida até julho para aqueles que destinarem 3,5% de seu faturamento mensal a investimentos em Amazon Ads, condição que vincula diretamente o benefício logístico à compra de mídia dentro do ecossistema da plataforma.
Executivos da companhia no Brasil foram explícitos ao vincular a decisão a uma estratégia de ampliação da base de empreendedores e de fortalecimento do uso de sua infraestrutura logística, com a promessa de permitir que os sellers se concentrem em produto e vendas enquanto a empresa assume o grosso da operação. Há, ainda, um componente estrutural relevante: a Amazon ampliou o acesso ao FBA para microempreendedores individuais em nove estados, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Ceará, Distrito Federal e Pernambuco, abrindo uma porta que até recentemente estava mais associada a operações de maior porte. Nesse arranjo, fevereiro converte-se em laboratório: o mês em que muitos vendedores testam, de forma financeiramente suavizada, a migração parcial ou complementar de seus estoques para os centros de distribuição da empresa.
O contraste entre as decisões de Mercado Livre, Shopee e Amazon expõe, de maneira pedagógica, três estágios distintos da maturação competitiva no e‑commerce brasileiro. De um lado, plataformas que conquistaram grande massa crítica de vendedores e compradores movem-se para recompor margens e reduzir subsídios logísticos, apostando na inércia dos sellers e no custo de mudança para sustentar aumentos de tarifas. De outro, uma concorrente que, embora igualmente consolidada, enxerga na reacomodação de custos alheios a oportunidade de usar o preço do serviço logístico como isca para capturar participação incremental, sobretudo entre aqueles que se sentem estrangulados pela nova conta dos marketplaces rivais.mercadoeconsumo+6
Para o ecossistema de vendedores, o cenário atual impõe decisões estratégicas que vão além da simples troca de plataforma. Em um ambiente em que, simultaneamente, sobem tarifas de frete, aumentam custos de armazenagem e se adensam exigências de investimento em publicidade dentro dos próprios marketplaces, ganha relevância a capacidade de diversificar canais, construir marca própria e desenvolver presença em lojas virtuais independentes, reduzindo a dependência absoluta de qualquer intermediário. Ao mesmo tempo, a compressão de margens força uma profissionalização da gestão: planilhas de precificação, controle de giro de estoque, segmentação por canal e leitura fina dos relatórios de custos passam de luxo a condição de sobrevivência.
Se, do ponto de vista do consumidor, a reconfiguração das tarifas tende a se traduzir, em algum grau, em preços mais altos ou em fretes menos generosos no horizonte próximo, também se abre espaço para um rearranjo competitivo em que promoções pontuais, campanhas de isenção temporária e programas logísticos mais acessíveis se tornam armas de disputa por atenção e fidelidade. Fevereiro, com a Amazon experimentando isenções, ao mesmo tempo em que Mercado Livre e Shopee ajustam sua régua de monetização, é menos um ponto fora da curva e mais um prenúncio de um 2026 em que a guerra do e‑commerce se travará não apenas na vitrine dos preços, mas sobretudo, nos bastidores das tarifas que sustentam, ou asfixiam, quem vende.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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