O maior relâmpago do mundo, segundo a OMM, no Brasil, em 2018

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Há poucos dias, recebi uma sugestão de matéria do nosso colega jornalista Beto, presidente da Associação Brasileira de Segurança Pública e Privada, no que diz respeito ao maior relâmpago já registrado na História, o qual teria ocorrido no Brasil. Após as devidas pesquisas, seguindo o padrão HostingPress, passo a redigir.

Na madrugada de 31 de outubro de 2018, um único clarão cortou o céu do Sul do Brasil e, sem que os habitantes soubessem, inscreveu o país na história dos extremos atmosféricos. Aquele relâmpago, invisível a olho nu na sua verdadeira dimensão, percorreu nada menos que 709 quilômetros em linha quase horizontal, estabelecendo o recorde mundial de maior extensão já registrada para um único raio, segundo a Organização Meteorológica Mundial, órgão ligado às Nações Unidas e responsável pela homologação de eventos climáticos extremos. Ao atravessar por completo uma vasta área dos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, esse chamado megaflash transformou uma tempestade comum em marco científico global, elevando o Brasil, já conhecido por ser um dos campeões mundiais em incidência de descargas elétricas, ao patamar de protagonista de um feito singular na crônica planetária do clima.

A imagem oficial desse relâmpago não foi produzida por fotógrafos românticos na janela, nem por amadores encantados com o espetáculo dos céus, mas por sensores em órbita geoestacionária, capazes de captar o brilho efêmero da descarga com precisão milimétrica. Foi analisando dados do Geostationary Lightning Mapper, instrumento a bordo de satélites meteorológicos, que um comitê de especialistas da Organização Meteorológica Mundial pôde identificar a trajetória contínua do raio brasileiro, certificando, em junho de 2020, a extensão de 709 quilômetros, com margem de erro de apenas alguns poucos quilômetros. O que o olhar humano percebia como um lampejo breve e indistinto, a tecnologia revelou como um traço luminoso gigantesco, comparável à distância entre São Paulo e Rio de Janeiro multiplicada por dois, ou ainda à viagem terrestre entre Boston e Washington, na costa leste norte‑americana.

Essa metamorfose do relâmpago em objeto de mensuração sofisticada ilustra bem a maneira como a ciência contemporânea converte a fúria dos elementos em dados, gráficos e recordes. Durante séculos, raios foram metáforas de deuses irados, prenúncios de desgraça, armas mitológicas arremessadas do alto do Olimpo. Hoje, embora continuem a inspirar temor e fascínio, são também indicadores de processos físicos complexos, relacionados à estrutura das nuvens de tempestade, ao aquecimento da atmosfera e à dinâmica energética de sistemas convectivos de grande escala. No caso do megaflash brasileiro, não se tratava de um único ponto de impacto vertical, mas de uma descarga que serpenteou horizontalmente por centenas de quilômetros, conectando diferentes regiões de uma extensa formação de tempestade, como se a própria nuvem desenhasse sobre o mapa um traço de luz à escala de vários estados.

Os especialistas chamam esse tipo de evento de megaflash, designação reservada a descargas que ultrapassam 100 quilômetros em extensão. A grandeza do relâmpago brasileiro não reside apenas no valor numérico, mas na demonstração de que a atmosfera é capaz de sustentar, de forma contínua, um canal ionizado de dimensões continentais. Trata‑se de um fenômeno raro, mas não isolado: poucos meses depois, em março de 2019, a mesma Organização Meteorológica Mundial reconheceria, sobre o norte da Argentina, um relâmpago de 16,73 segundos de duração, outro recorde, desta vez temporal, igualmente vinculado às gigantescas tempestades que se formam sobre a planície sul‑americana.

O fato de esses dois extremos terem ocorrido em países vizinhos não é mero acaso cartográfico, mas consequência direta da posição da América do Sul no tabuleiro climático global. A região compreendida entre o Sul do Brasil, o norte da Argentina, o Paraguai e o Uruguai é considerada um dos maiores hotspots de relâmpagos do planeta, devido à combinação de calor intenso, grande disponibilidade de umidade e circulação atmosférica favorável à formação de tempestades organizadas de enorme extensão horizontal. São sistemas convectivos de mesoescala que se estendem por centenas de quilômetros, sustentando no seu interior, durante horas, um verdadeiro laboratório natural de eletrificação de nuvens. É nesse cenário que relâmpagos extraordinariamente longos encontram o meio físico necessário para se desenvolverem e se manterem conectados ao longo de vastas distâncias.

Por trás do anúncio de um recorde, há também um capítulo de avanço tecnológico. Até poucas décadas atrás, os registros de raios dependiam de redes de sensores em superfície, com alcance limitado e menor resolução espacial e temporal. A introdução de mapeadores de relâmpagos em satélites geoestacionários, como o equipamento utilizado para identificar o megaflash brasileiro, permitiu, pela primeira vez, enxergar de forma integral eventos que ultrapassam fronteiras nacionais e cobrem áreas do tamanho de países inteiros. Ao certificar o recorde, a Organização Meteorológica Mundial não celebrou apenas a grandiosidade do fenômeno, mas sinalizou o grau de refinamento da observação moderna, que já não se limita àquilo que é visível a partir do solo, mas abarca o desenho completo da tempestade visto do espaço.

A narrativa do maior relâmpago da história é, em alguma medida, uma narrativa sobre como o Brasil se inscreve na era da vigilância climática de alta precisão. Embora o país não tenha provocado, orientado ou sequer testemunhado conscientemente a façanha, o fato de o recorde estar associado ao território nacional projeta a imagem de uma nação intrinsecamente ligada aos extremos da atmosfera. Nesse sentido, o megaflash torna‑se pretexto para reafirmar um dado já bem documentado por pesquisadores: o Brasil figura há anos entre os países com maior incidência anual de raios, o que traz consigo desafios concretos em termos de segurança, infraestrutura, planejamento urbano e proteção de redes elétricas e de telecomunicações.

Não se deve, porém, confundir o caráter espetacular do recorde com qualquer espécie de triunfo sobre a natureza. Ao contrário, o episódio é um lembrete eloquente da vulnerabilidade humana diante de fenômenos cuja escala escapa à experiência cotidiana. Um raio com centenas de quilômetros de extensão não é mais letal, em termos diretos, do que uma descarga típica que atinge o solo em poucos microsegundos, mas indica um ambiente atmosférico saturado de energia, em que tempestades intensas podem associar‑se a ventos destrutivos, granizo e enxurradas. A Organização Meteorológica Mundial, ao divulgar os dados do megaflash brasileiro, fez questão de destacar que o monitoramento de extremos climáticos não é um exercício de curiosidade estatística, mas um instrumento para aprimorar normas de segurança, dimensionar estruturas e compreender melhor a variabilidade do clima em um mundo em aquecimento.

Há, também, uma dimensão simbólica difícil de ignorar. Num período em que o debate público sobre mudanças climáticas é atravessado por paixões políticas e interesses econômicos, notícias sobre recordes atmosféricos servem de lembrete de que a natureza continua a agir de forma soberana, indiferente a fronteiras ideológicas ou geográficas. A constatação de que o maior relâmpago já medido se deu sobre o território brasileiro não implica relação causal direta com o aquecimento global, mas se insere em um cenário mais amplo de intensificação de eventos extremos, no qual cada registro, cada série histórica e cada dado validado compõem o mosaico com que climatologistas tentam decifrar tendências de longo prazo.

Talvez resida aí a força narrativa desse episódio: um lampejo que durou frações de segundo, ocorrido em 2018, segue repercutindo anos depois nas páginas de relatórios científicos, nas notas de agências da ONU e nas manchetes de jornais, convertido em símbolo de um país em que o céu, literalmente, não conhece moderação. O maior relâmpago da história, registrado sobre o Brasil, ilumina não apenas as nuvens que o geraram, mas a própria relação humana com o imponderável meteorológico: um misto de temor reverente, curiosidade intelectual e necessidade pragmática de compreender para, tanto quanto possível, proteger‑se. Entre a fulguração instantânea e a paciência dos cientistas que o medem, o raio de 709 quilômetros torna‑se metáfora de um tempo em que até os fenômenos mais fugazes são capturados, quantificados e, de algum modo, eternizados em números, mapas e memórias coletivas.

Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
HostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

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