Mangueira revela samba-enredo para 2026: uma homenagem a Mestre Sacacá, o guardião da Amazônia negra

PUBLICIDADE

mangueira-revela-samba-enredo-para-2026:-uma-homenagem-a-mestre-sacaca,-o-guardiao-da-amazonia-negra

A Estação Primeira de Mangueira, uma das mais emblemáticas escolas de samba do carnaval carioca, anunciou seu samba-enredo para o desfile de 2026, gerando grande expectativa entre os amantes da folia e da cultura brasileira. A verde e rosa, conhecida por sua capacidade de transformar temas complexos em narrativas cativantes e profundas, mergulha agora nas riquezas culturais e espirituais do Amapá. O enredo escolhido, intitulado “Mestre Sacacá do encanto tucuju – O guardião da Amazônia negra”, promete levar à Marquês de Sapucaí uma celebração vibrante da ancestralidade, da resistência e da sabedoria dos povos amazônicos, com foco nas comunidades afro-brasileiras e indígenas da região.

Este lançamento marca mais um capítulo na história da escola que, ao longo de sua trajetória quase centenária, tem se destacado por abordar questões sociais, históricas e culturais de relevância inquestionável. A escolha de Mestre Sacacá como figura central não é apenas uma reverência a um personagem histórico-lendário do Amapá, mas também um convite a refletir sobre a importância dos saberes populares, da preservação ambiental e do reconhecimento da identidade negra na Amazônia, uma região muitas vezes retratada de forma unilateral. A seguir, exploraremos em detalhes a riqueza por trás do tema e a poesia contida no samba que embalará a Mangueira no próximo carnaval.

A Estação Primeira de Mangueira e sua Trajetória de Inovação

Fundada em 1928, a Estação Primeira de Mangueira transcende a definição de uma simples escola de samba. Ela representa um patrimônio cultural vivo, berço de grandes talentos e um palco para a manifestação da brasilidade em suas múltiplas facetas. Com 20 títulos do carnaval do Rio de Janeiro, a Mangueira consolidou sua reputação não apenas pela qualidade de seus desfiles, mas também pela audácia em seus enredos. Temas como a vida de Maria Bethânia, a história de Cartola e a crítica social presente em desfiles sobre Jesus da Gente ou os Heróis da Liberdade, demonstraram a capacidade da escola de inovar, emocionar e provocar reflexão.

A cada ano, a comunidade da Mangueira e o público em geral aguardam ansiosamente o anúncio do enredo, sabendo que ele trará consigo uma narrativa bem construída e um profundo significado. A escolha de Mestre Sacacá para 2026 reforça essa tradição de excelência e engajamento, sinalizando o compromisso da escola em dar visibilidade a histórias e personagens que, embora fundamentais para a cultura brasileira, nem sempre recebem o devido reconhecimento nos grandes palcos nacionais.

O Enredo de 2026: “Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”

O enredo para o carnaval de 2026 é uma ode à cultura amazônica, vista sob a ótica da presença negra e indígena. Ele se propõe a desvendar os mistérios e a força de uma região rica em biodiversidade e, acima de tudo, em diversidade humana e espiritual. O título ressalta três elementos cruciais: a figura central de Mestre Sacacá, a ancestralidade tucuju e o conceito fundamental de Amazônia negra.

Quem é Mestre Sacacá?

Mestre Sacacá é uma figura lendária e reverenciada no Amapá, associada à sabedoria ancestral, à cura e à proteção. Sua existência mistura história e mito, sendo considerado por muitos um poderoso curandeiro, pajé ou líder espiritual, cujos conhecimentos sobre as ervas da floresta e as práticas de cura eram inigualáveis. No contexto do enredo da Mangueira, Sacacá emerge como um símbolo da resistência cultural e espiritual dos povos da região, um guardião que detém os segredos da natureza e a força dos antepassados. Seu nome, ligado ao encanto tucuju, evoca as raízes indígenas do Amapá, onde o povo Tucuju (ou Tukuju) possui uma rica história e profunda conexão com a terra.

A Amazônia Negra: Uma Perspectiva Essencial

O conceito de Amazônia negra é central para o enredo e merece um aprofundamento. Tradicionalmente, a Amazônia é retratada pela sua grandiosidade natural, mas a presença e a contribuição das populações negras são frequentemente invisibilizadas. A Amazônia negra se refere aos territórios, às comunidades e às manifestações culturais dos afro-brasileiros que ali se estabeleceram, muitas vezes em quilombos ou comunidades ribeirinhas, carregando consigo uma herança de resistência e adaptação. Essa perspectiva desafia a visão eurocêntrica da história e destaca a formação de uma identidade amazônica profundamente marcada pela cultura africana, presente em rituais, culinária, música e na própria organização social dessas comunidades. É uma celebração da força e da resiliência de um povo que, apesar das adversidades, preservou suas tradições e enriqueceu o mosaico cultural brasileiro.

A Poesia e a Força do Samba-Enredo

O samba-enredo, resultado da colaboração de Pedro Terra, Tomaz Miranda, Joãozinho Gomes, Paulo César Feital, Herval Neto e Igor Leal, com a interpretação de Dowglas Diniz, é uma obra poética que traduz em versos a complexidade e a beleza do enredo. Cada estrofe é um convite a uma viagem pelo universo de Mestre Sacacá e da Amazônia negra.

As Raízes e a Identidade Cultural

Os versos iniciais como “FINQUEI MINHA RAIZ / NO EXTREMO NORTE ONDE COMEÇA O MEU PAÍS” imediatamente situam o público na região do Amapá, fronteira do Brasil, e já apontam para a profunda conexão com a terra. A menção a “AS FOLHAS SECAS ME GUIARAM AO TURÉ” e “PINTADA EM VERDE-E-ROSA, JENIPAPO E URUCUM” evoca rituais indígenas e a fusão das cores da Mangueira com as tinturas naturais usadas pelos povos originários. A escola se personifica como uma “ÁRVORE-MULHER, MANGUEIRA QUASE CENTENÁRIA / UMA NAÇÃO INCORPORADA”, fortalecendo a imagem de uma entidade viva e protetora. A clara identificação como “HERDEIRA QUILOMBOLA, DESCENDENTE PALIKUR” reafirma a dupla ancestralidade afro-indígena e homenageia diretamente o povo Palikur, grupo indígena presente na região, enfatizando o sincretismo cultural da Amazônia. A imagem de “REGATEANDO O AMAZONAS NO TRANSE DO CAXIXI” transporta para um cenário de espiritualidade e dança, onde o caxixi, instrumento sagrado, promove o transe e a conexão com o divino.

A Invocação de Mestre Sacacá e a Cura da Floresta

O ponto alto da invocação a Sacacá surge com “ÇAI ERÊ, BABALAÔ, MESTRE SACACA / TE INVOCO DO MEIO DO MUNDO PRA DENTRO DA MATA”. Aqui, a letra mescla elementos do candomblé (Babalaô, sacerdote), da espiritualidade cabocla (Çai Erê, que pode se referir a entidades infantis ou do imaginário popular) e a localização geográfica do Amapá no ‘meio do mundo’ (linha do Equador em Macapá). A exaltação de “SALVE O CURANDEIRO, DOUTOR DA FLORESTA / PRETO VELHO, SARAVÁ” e a descrição de suas práticas – “MACERA FOLHA, CASCA E ERVA / ENGARRAFA A CURA, VEM ALUMIAR / DEFUMA FOLHA, CASCA E ERVA… SARAVÁ” – pintam um quadro vívido do poder de cura e da sabedoria ancestral de Mestre Sacacá, associando-o também à figura do Preto Velho, entidade de sabedoria e humildade nas religiões de matriz africana.

A Resistência e a Celebração da Cultura Negra Amazônida

A força da cultura negra amazônida é celebrada em versos como “NEGRO NA MARCAÇÃO DO MARABAIXO / FIRMA O CORPO NO COMPASSO”. O marabaixo é uma das mais importantes manifestações culturais do Amapá, uma dança e música de origem africana, com forte teor religioso e social, que representa a identidade e a resistência negra na região. A escola dialoga com a memória da escravidão ao mencionar “COM LADRÕES E LADAINHAS QUE ECOAM DOS PORÕES”, contrastando com a sacralização de sua fé e cultura ao “ERGO E CONSAGRO O MEU MANTO / ÀS BENÇÃOS DO ESPÍRITO SANTO E SÃO JOSÉ DE MACAPÁ”, evidenciando o sincretismo religioso. A dança, o ritmo e a espiritualidade se entrelaçam em “SOU GIRA, BATUQUE E DANÇADEIRA (AREIA) / A MÃO DE COURO DO AMASSADOR / ENCANTARIA DE BENZEDEIRA QUE A AMAZÔNIA NEGRA ETERNIZOU”, destacando a gira (ritual), o batuque (percussão), o amassador (curandeiro que manipula ervas) e a benzedeira como pilares da cultura e da cura popular, elementos que resistem e prosperam na Amazônia Negra.

O Encontro de Mundos na Verde e Rosa

O samba-enredo culmina em um belo encontro de culturas e gerações: “YÁ, BENEDITA DE OLIVEIRA, MÃE DO MORRO DE MANGUEIRA / ABENÇOE O JEITO TUCUJU”. Homenageia Yá Benedita de Oliveira, uma das grandes matriarcas e referências espirituais da Mangueira, conectando a força do morro carioca à sabedoria ancestral tucuju. O poder do samba e da natureza se unem em “A MAGIA DO MEU TAMBOR TE ENCANTOU NO JEQUITIBÁ”, onde o jequitibá, árvore sagrada, simboliza a força e a longevidade. Os versos finais, “CHAMEI O POVO DAQUI, JUNTEI O POVO DE LÁ / NA ESTAÇÃO PRIMEIRA DO AMAPÁ”, selam a proposta do enredo: a união dos povos, a Mangueira como ponte entre o Rio de Janeiro e o Amapá, entre a tradição e a modernidade, celebrando a riqueza da Amazônia negra em uma grande festa de cores, sons e significados.

A combinação da narrativa visual que a escola certamente construirá com a profundidade da letra, prometem um espetáculo inesquecível, que não apenas celebra o carnaval, mas também educa e inspira sobre a diversidade e a importância da cultura brasileira em suas mais diversas manifestações.

Este enredo da Estação Primeira de Mangueira para 2026, com Mestre Sacacá como seu arauto, é um convite para o Brasil e o mundo olharem para a Amazônia negra com o respeito e a admiração que ela merece. É a Mangueira reafirmando seu papel de vanguarda cultural, utilizando o palco do carnaval para amplificar vozes e narrativas que precisam ser ouvidas. Não perca os próximos capítulos desta jornada fascinante e continue acompanhando o SP Notícias para todas as atualizações sobre o carnaval 2026 e outros destaques culturais. Mantenha-se informado e mergulhe conosco nas riquezas da nossa cultura!

Fonte: https://oglobo.globo.com

Mais recentes

PUBLICIDADE