#Malditos16 – Quando o silêncio dói mais que a dor

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Há peças de teatro que entram pela porta principal do entretenimento e saem com aplausos civilizados. Há outras que arrombam as paredes da percepção, instalam-se na consciência do espectador e se recusam, de maneira obstinada e perturbadora, a partir quando o pano cai. #Malditos16, do dramaturgo espanhol Nando López, com direção de Ricardo Waddington e tradução de Flávio Marinho, pertence inequivocamente ao último grupo. O espetáculo, que estreia em 15 de abril de 2026 no Teatro FAAP, em São Paulo, não é, em sentido estrito, uma peça sobre suicídio. É, antes, uma obra sobre o peso insuportável do silêncio, sobre a falência dos afetos que deveriam proteger, sobre a solidão visceral de quem se vê preso numa pele que não escolheu, num mundo que insiste em não ouvi-lo.

O cenário assinado por André Cortez propõe uma economia visual carregada de pregnância simbólica: um ambiente de instituição psiquiátrica tradicional, com paredes azulejadas marcadas pelo tempo, sujas de uma memória coletiva que ninguém parece querer reivindicar. Uma porta. Uma janela. Nada mais. A austeridade do espaço cênico não é pobreza de imaginação; é precisamente uma escolha dramatúrgica de altíssima inteligência. O manicômio clássico, que por décadas acumulou sobre si a dupla pecha de lugar de exclusão e de apagamento identitário, é aqui reinvestido de significado humano pela presença de quatro jovens que, entre aquelas paredes úmidas, encontraram, paradoxalmente, os primeiros interlocutores reais de suas existências.

A janela merece atenção redobrada do espectador atento. Naquele cenário de clausura e contenção, ela não é apenas uma abertura arquitetônica: é a própria metáfora da conexão possível com o mundo exterior, o rumor do que existe além da dor imediata, a luz que se mantém acesa mesmo quando tudo dentro daquele quarto convida ao escuro. O adolescente em sofrimento emocional severo não perdeu, necessariamente, o desejo de viver; perdeu a capacidade de alcançar as razões para fazê-lo. A janela, nesse contexto alegórico, é o repositório dessas razões, o canal que mantém, mesmo que tenuamente, o fio de conexão entre o eu encerrado e o mundo que continua. É o “talvez” quando tudo parece ser “não”. É a possibilidade de que, amanhã, a luz entre de um jeito diferente.

A porta, por sua vez, trancada na maior parte da ação dramática, opera em registro distinto, porém complementar. Ela não é obstáculo: é promessa. A presença de uma porta, ainda que lacrada por fora, pressupõe que existe um fora. Pressupõe saída. Pressupõe que o estado presente não é permanente, que a clausura tem duração determinada, que há, no horizonte, a possibilidade de atravessar esse limiar e emergir transformado, não curado de forma simplória, mas capaz de habitar a própria história de maneira que antes parecia impossível. Num espetáculo sobre adolescentes que tentaram o suicídio, a porta trancada que permanece porta é, ela mesma, um ato de fé dramatúrgica na vida.

A história de #Malditos16 segue quatro jovens que se conheceram entre os 15 e 16 anos nessa instituição psiquiátrica, depois de tentativas de suicídio, e que, anos mais tarde, já na casa dos vinte, são convocados pela psiquiatra Violeta para participar de um projeto de apoio a novos adolescentes em sofrimento semelhante. O reencontro é, ao mesmo tempo, redenção e abertura de feridas. Emerge nele tudo que o distanciamento temporal havia suturado de maneira precária: a memória da família que não soube ouvir, da escola que confundiu sintoma com indisciplina, das relações afetivas que demandavam mais do que seus protagonistas eram capazes de oferecer, da identidade que não encontrava espelho no mundo exterior que a rodeava. A dramaturgia de López, construída a partir de oficinas realizadas em hospitais psiquiátricos com jovens em sofrimento real, recusa o melodrama fácil e o didatismo clínico com igual vigor. O que ela propõe é algo muito mais exigente: a escuta.

O suicídio juvenil, que a Organização Mundial da Saúde aponta como uma das principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos, raramente emerge do nada. Configura-se, na esmagadora maioria dos casos, como o último ato de uma peça mais longa e menos visível: a peça do isolamento progressivo, da dor que não encontrou interlocutor, da identidade fragmentada que buscou, em todos os lugares possíveis, um espaço de pertencimento e não o encontrou. Os jovens retratados em #Malditos16 não chegaram àquela instituição por fraqueza de caráter nem por capricho existencial; chegaram porque o mundo ao redor havia falhado, sistematicamente, em criar as condições mínimas para que se sentissem parte dele.

Quem faz acontecer

 

Nando López, dramaturgo espanhol nascido em Jaén em 1977, é hoje uma das vozes mais expressivas do teatro juvenil e adulto europeu. Seu trabalho, sempre atravessado por inquietações sociais e psicológicas, ganhou projeção internacional a partir de peças que tratam de identidade, diversidade afetiva e saúde mental com uma honestidade que incomoda. #Malditos16 nasceu de um processo singular: ao conduzir oficinas de escrita criativa com jovens internados em unidades psiquiátricas espanholas, López acumulou relatos, silêncios e imagens que depois transfigurou em dramaturgia. O resultado é um texto que não finge conhecer respostas; limita-se, com precisão admirável, a fazer as perguntas que mais doem.

Flávio Marinho, responsável pela tradução, é um dos mais prolíficos e respeitados dramaturgos brasileiros em atividade, com mais de cinquenta peças encenadas no Brasil e no exterior. Carioca, formado em jornalismo pela PUC-Rio, Marinho transitou por décadas entre a televisão, o cinema e o teatro, sendo autor de sucessos como “Cher Antoine”, “A Gaivota” e dezenas de outras obras que somam prêmios Molière, Sharp e Shell. Sua tradução de #Malditos16, concluída no início de 2026 e cuidadosamente trabalhada para preservar a oralidade juvenil sem abrir mão da densidade poética do original, é ela mesma um ato de respeito ao texto e ao público.

Ricardo Waddington, diretor da montagem, é figura singular na cena cultural brasileira. Natural do Rio de Janeiro, iniciou sua trajetória no teatro antes de se consagrar como um dos maiores diretores de teledramaturgia do país, com décadas de trabalho na TV Globo e na Globoplay, assinando produções como “Avenida Brasil”, “Geração Brasil”, “A Lei do Amor” e inúmeras outras. Seu retorno ao teatro com #Malditos16 é carregado de significado pessoal: “O silêncio pode ser tão perigoso quanto a dor que ele tenta esconder”, afirma o diretor, sintetizando em uma frase o que a peça leva 75 minutos para desdobrar com a densidade que o tema exige.

Helena Ranaldi, que interpreta a psiquiatra Violeta, é atriz de formação sólida e trajetória extensa no teatro e na televisão brasileira, tendo integrado o elenco de produções memoráveis ao longo de quatro décadas. Sua presença em cena convoca autoridade sem autoritarismo, humanidade sem condescendência: a Violeta que ela constrói é a voz adulta que o espetáculo reivindica como possível.

Pedro Waddington, filho do diretor e da atriz Helena Ranaldi, traz ao palco uma vulnerabilidade precisa e controlada, resultado de formação técnica e de uma visão dramatúrgica que compreende o risco necessário do teatro verdadeiro. Ao lado de Sara Vidal, intérprete de intensidade crescente; de Benjamín, jovem ator de presença cênica marcante; de Julia Maez, que equilibra fragilidade e resistência com rara consciência; e de Matheus Sousa, que conclui o quinteto com uma atuação de contenção expressiva, o elenco forma um organismo coletivo afinado, capaz de sustentar o peso emocional do texto sem sucumbir ao sentimentalismo.

A cenografia de André Cortez, os figurinos de Anne Cerruti, a iluminação de Cesar Pivetti e a trilha de Rafael Thomazini completam uma montagem que recusa qualquer ornamento supérfluo, apostando na limpeza cênica como condição para que o humano, em toda a sua complexidade, ocupe o centro.

#Malditos16 não é um espetáculo fácil. É um espetáculo necessário. E necessário é, neste momento, palavra mais urgente que qualquer outro adjetivo.

Ficha Técnica

 

Título: #Malditos16
Texto: Nando López
Tradução: Flávio Marinho
Direção e concepção: Ricardo Waddington
Elenco: Helena Ranaldi, Pedro Waddington, Sara Vidal, Benjamín, Julia Maez e Matheus Sousa
Cenografia: André Cortez
Figurinos: Anne Cerruti
Iluminação: Cesar Pivetti
Trilha sonora: Rafael Thomazini
Produção executiva: Isabel Gomez
Fotografias: Ronaldo Gutierrez
Temporada: 15 de abril a 4 de junho de 2026
Dias e horários: Quartas e quintas-feiras, às 20h
Local: Teatro FAAP – Rua Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo – SP
Duração: 75 minutos
Classificação etária: 16 anos
Ingressos: R$ 100,00 (inteira) | R$ 50,00 (meia-entrada)
Compra de ingressos: pelo site do Teatro FAAP em teatrofaap.showare.com.br ou presencialmente na bilheteria do teatro

 

Nota de saúde mental: Este espetáculo aborda temas relacionados à saúde mental e suicídio. Caso você ou alguém próximo esteja em sofrimento emocional, procure apoio. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece escuta gratuita 24 horas por dia pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br.

 

Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe

SP Notícias – Intellectus ex Veritate

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