

A Marquês de Sapucaí, epicentro simbólico da identidade carioca, transformou-se na noite deste domingo, 15 de fevereiro de 2026, em palco de uma das mais controversas homenagens do carnaval recente: o desfile da Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial, dedicou seu enredo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, traçando desde os albores de sua infância no sertão pernambucano até o exercício do terceiro mandato no Planalto. O samba-enredo, intitulado “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, ecoou pela avenida com versos que exaltavam a trajetória do operário metalúrgico, a luta sindical e as conquistas sociais atribuídas ao petismo, culminando em uma apoteose que mesclava elementos da biografia presidencial com alegorias de redenção nacional.
A escola, campeã da Série Ouro em 2025, investiu pesado na produção: carros alegóricos reproduziam o Garanhuns natalício de Lula, a fábrica da Villares onde ele se sindicalizou, o ABC paulista das greves e o Palácio do Planalto sob o signo da esperança petista, com a estrela vermelha bordada em fantasias reluzentes. Dira Paes encarnou Dona Lindu, a matriarca nordestina, enquanto Paulo Vieira interpretou o próprio presidente em momentos cômicos e irônicos, e a comissão de frente simulou o êxodo rural com dançarinos em trajes de retirantes. O presidente, presente no camarote de honra ao lado de aliados, assistiu ao espetáculo que durou cerca de duas horas, marcado por atrasos iniciais e uma plateia dividida entre aplausos efusivos de apoiadores e vaias esparsas de opositores infiltrados nas arquibancadas.
A presença de Lula na avenida não passou despercebida: ele chegou por volta das 22 horas, sob forte esquema de segurança, e optou por camarotes discretos, evitando o centro das atenções, enquanto Janja, a primeira-dama, declinou de última hora a participação ativa no desfile, alegando motivos de agenda e respeito à honraria, conforme nota oficial divulgada pela assessoria presidencial. O evento, transmitido ao vivo pela Globo, registrou picos de audiência acima de 30 pontos no Ibope carioca, impulsionado não apenas pela pompa carnavalesca, mas pela carga política inerente ao enredo, que incluiu críticas veladas ao ex-presidente Jair Bolsonaro e referências ao embate eleitoral de 2022.
A polarização se instalou imediatamente. Para os defensores da homenagem, o desfile representava a consagração legítima de uma figura icônica da história brasileira, um operário ascendido à Presidência que simboliza a mobilidade social e a resistência popular, digna de ser narrada no maior palco cultural do país. Carnavalescos e compositores argumentaram que o carnaval sempre foi espaço de efeméride política, citando enredos clássicos sobre Getúlio Vargas, Tancredo Neves ou até Zumbi dos Palmares, e defenderam que o enredo da Niterói celebrava não o homem partido, mas o mito coletivo do Brasil operário. Lula, em declaração breve à imprensa ao deixar a Sapucaí, agradeceu a emoção da escola e reforçou que o carnaval é festa do povo, capaz de abraçar narrativas de superação em tempos de divisão.
Do outro lado, a oposição viu no desfile uma ousadia propagandística em ano pré-eleitoral, com financiamento público via Lei Rouanet e subsídios da Liesa questionados judicialmente. O Tribunal Superior Eleitoral rejeitou pedidos de liminar para barrar o evento, mas o ministro relator alertou para o risco de ilícito eleitoral, ao passo que Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato à Presidência, anunciou ação imediata contra a escola por suposto uso indevido de recursos e ataques pessoais à família. Críticos apontaram o abuso de símbolos partidários, como o L gestual proibido pela própria direção da agremiação para evitar penalidades, e acusaram o enredo de transformar a Passarela em comício antecipado, com alegorias que satirizavam o bolsonarismo e exaltavam o PT em detrimento da imparcialidade carnavalesca.
A imprensa internacional deu eco à controvérsia: a BBC destacou como o tributo a Lula reflete as fissuras políticas brasileiras, enquanto veículos como o El País e a AFP noticiaram o deboche do Judiciário e a obsessão com o antagonismo bolsonarista, transformando o carnaval em termômetro de um país ainda dividido após as urnas de 2022. No Brasil, colunistas de direita rotularam o espetáculo como culto idolátrico financiado pelo contribuinte, enquanto progressistas o enalteceram como ato de resistência cultural contra o revisionismo histórico. Redes sociais fervilharam com memes, desde montagens de Lula em carro alegórico até charges de Sapucaí como comitê eleitoral, ampliando o alcance da polêmica para além da avenida.
O episódio expõe as tensões inerentes ao carnaval como fenômeno híbrido, simultaneamente festa popular e vitrine política, onde o samba-enredo serve de espelho às convulsões nacionais. Historicamente, a Sapucaí já testemunhou enredos que desafiaram o poder, como o da Mangueira em 1969 contra a ditadura ou o da Imperatriz em 1989 exaltando Tancredo, mas a atual conjuntura, com eleições municipais em 2026 e presidenciais no horizonte, confere ao tributo da Niterói uma carga suplementar de simbolismo. Juristas consultados divergem: uns invocam a liberdade artística protegida pela Constituição; outros, o princípio da impessoalidade na aplicação de verbas públicas em período vedado.
Enquanto a apuração das notas ocorre nos próximos dias, com jurados avaliando desde o samba até a coesão temática, a homenagem permanece como divisor de águas no imaginário carnavalesco. Para alguns, ela reafirma o carnaval como espaço de afirmação identitária e memória coletiva; para outros, sinaliza o risco de partidarização de uma tradição que, em sua essência, transcende clivagens ideológicas. A Niterói, com sua estreia audaciosa, arriscou o tudo por um enredo que transcende o samba e invade o debate público, deixando a Sapucaí não apenas com purpurina e samba no pé, mas com as cicatrizes abertas de uma nação em eterna encruzilhada política.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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