

A formatura da primeira turma da Guarda Civil Metropolitana no curso de Letramento Racial, desenvolvido em parceria com a Universidade Zumbi dos Palmares, marca um momento simbólico na trajetória da segurança urbana em São Paulo. Não se trata apenas de mais um certificado pendurado na parede da Academia da GCM, mas de um passo concreto na direção de uma cultura institucional que reconhece o racismo estrutural como problema público e se dispõe a enfrentá‑lo por meio da formação permanente de seus agentes.
O programa nasceu de um convênio firmado entre a Secretaria Municipal de Segurança Urbana e a Universidade Zumbi dos Palmares, instituição de ensino superior referência na promoção da igualdade racial e na formação de quadros negros no país. Em maio de 2023, a prefeitura anunciou o início do Treinamento de Letramento Racial voltado à GCM, com abertura oficial no campus da universidade e aulas presenciais e on‑line pela plataforma Zumbi Digital. A previsão era capacitar, inicialmente, 300 guardas civis, em um curso de 20 horas distribuídas em oito módulos gravados, integrando a grade obrigatória de qualificação da corporação. A turma que agora conclui o percurso é a primeira a atravessar integralmente esse itinerário formativo, transformando a parceria em realidade concreta no cotidiano da guarda.
O conteúdo do curso foi desenhado para ir além de uma sensibilização superficial. De acordo com a Secretaria Municipal de Segurança Urbana, a formação aborda fundamentos constitucionais, legislação antirracista, viés racial em abordagens policiais, comunicação não violenta e promoção da equidade racial no serviço público. A coordenação ficou a cargo da professora Mara Dubugras, pesquisadora da área de relações raciais, e do advogado Ricardo Brito, idealizador do Procon Racial, iniciativa voltada à proteção de consumidores vítimas de discriminação. A proposta pedagógica, alinhada a outros programas de letramento racial desenvolvidos no setor público, busca combinar base teórica sólida com situações práticas, estudos de caso e exercícios de reflexão sobre o cotidiano da atuação policial em uma cidade atravessada por desigualdades raciais.
Na abertura da formação, o comandante da GCM, Jairo Chabaribery Filho, destacou que a iniciativa se insere na política de formação continuada da guarda e dialoga com o compromisso da gestão municipal de qualificar a segurança urbana sob parâmetros de direitos humanos e cidadania. Ao enfatizar que “investir em conhecimento é o caminho para construir uma cidade mais justa e segura para todos”, o comandante sinalizou que o curso não deveria ser visto como ação pontual, mas como parte de um esforço de modernização institucional.
Do lado da universidade, a mensagem seguiu a mesma direção. Para Mara Dubugras, o letramento racial precisa deixar de ser “ação pontual” e tornar‑se compromisso estruturante, obrigatório em instituições públicas e privadas. A Universidade Zumbi dos Palmares vem construindo, nos últimos anos, um portfólio robusto de ações nessa área, que inclui cursos de pós‑graduação em Letramento Racial, consultorias a órgãos como o Conselho Nacional de Justiça e parcerias voltadas à inclusão de negros e indígenas na magistratura. Esse acúmulo de expertise foi colocado a serviço da GCM, com a ambição declarada de transformar não apenas o discurso, mas também as práticas cotidianas de agentes que lidam, na linha de frente, com populações majoritariamente negras das periferias paulistanas.
O conceito de letramento racial, embora relativamente recente no vocabulário das políticas públicas, já se consolidou como ferramenta central para enfrentar o racismo em instituições. Em linhas gerais, trata‑se de um processo de aprendizagem contínua que permite reconhecer, nomear e analisar criticamente as diferentes formas de racismo – individual, institucional e estrutural – e de pensar estratégias concretas para desmontar práticas discriminatórias. No setor público brasileiro, cursos de letramento racial têm sido adotados por Ministérios Públicos, tribunais, escolas de governo e órgãos de segurança como instrumento de revisão de protocolos, redefinição de rotinas e reeducação de olhares.
No caso específico da GCM, o recorte é particularmente sensível. Pesquisas acadêmicas e relatórios de entidades de direitos humanos vêm registrando, há décadas, a exposição de jovens negros como alvo de abordagens policiais, revistas e detenções, tanto em São Paulo quanto em outras capitais brasileiras. Ao incorporar uma formação que explicita o viés racial e discute, de forma direta, como estereótipos e preconceitos interferem na tomada de decisão em situações de rua, a guarda sinaliza disposição de confrontar uma ferida histórica. A aposta é que, ao compreender melhor conceitos como racialização, privilégio, discriminação e violência simbólica, o agente esteja melhor equipado para agir com empatia, responsabilidade e rigor técnico, reduzindo o risco de condutas que reforcem injustiças.
A conclusão da primeira turma ganha relevo também pelo momento institucional da própria Universidade Zumbi dos Palmares. Em 2024, a instituição celebrou 20 anos de atuação e firmou acordos com o CNJ e a Fundação Getulio Vargas para desenvolver políticas de inclusão racial no sistema de justiça, reforçando seu papel como polo de produção de conhecimento e formulação de políticas antirracistas. A parceria com a GCM, nesse contexto, é mais uma peça de um mosaico que articula academia, poder público e sociedade civil em torno da agenda de igualdade racial.
A formatura da turma não encerra o ciclo. O convênio firmado entre a prefeitura e a universidade prevê novas ações, como treinamentos específicos em identificação e combate ao assédio moral e sexual para gestores da GCM e a criação de um Núcleo de Estudos Estratégicos de Segurança Urbana dentro da própria Zumbi dos Palmares. Em novembro, a universidade programou um treinamento voltado a 52 gestores da guarda, com encerramento na Academia da GCM e assinatura de um protocolo de compromisso para implementação das novas diretrizes, coordenado por professores da instituição.
Para os guardas que recebem agora seus certificados, o curso de letramento racial representa tanto um ponto de chegada quanto um ponto de partida. Nas falas recolhidas ao longo da formação, muitos relataram que, ao revisitarem a história do povo negro no Brasil, os dados sobre desigualdade e os conceitos de racismo institucional, começaram a enxergar sob nova luz situações corriqueiras de trabalho, da abordagem em praças e terminais ao atendimento em escolas e equipamentos públicos. A provocação central do curso foi justamente essa: deslocar o olhar, desnaturalizar padrões de suspeita, rever a forma de exercer a autoridade.
Em uma cidade que leva o nome de São Paulo, mas se reconhece cada vez mais como herdeira de Zumbi e Dandara dos Palmares, a cena de uma primeira turma de guardas civis metropolitanos concluindo um curso de letramento racial em uma universidade voltada à valorização da população negra tem um valor que ultrapassa o simbólico. Ela aponta para a possibilidade de uma segurança urbana que se reconhece como parte do problema e, por isso mesmo, se dispõe a ser parte da solução. Se esse movimento ganhar escala, com novas turmas, avaliações constantes e mudanças concretas na rua, a parceria entre GCM e Universidade Zumbi dos Palmares poderá ser lembrada, no futuro, como um daqueles pequenos marcos que ajudam a deslocar, lentamente, o eixo de uma cidade em direção a relações mais justas entre quem protege e quem é protegido.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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