Quando se fala em carros esportivos, dois nomes imediatamente vêm à mente: Ford Mustang e Chevrolet Corvette. Símbolos de liberdade, juventude e potência, os dois modelos marcaram gerações e ajudaram a construir a identidade automotiva dos Estados Unidos. Mas afinal, como começou essa rivalidade?
Para entender o fenômeno, é preciso voltar às décadas de 1950 e 1960, quando o mercado americano ainda buscava um carro esportivo que pudesse rivalizar com os europeus. O historiador e colecionador de automóveis clássicos, Mauricio Marx, explica como essa rivalidade começou.
O início da rivalidade entre Ford Mustang e Chevrolet Corvette
A rivalidade entre o Ford Mustang e o Chevrolet Corvette não nasceu apenas das pistas e do desejo das montadoras superarem uma à outra. Ela é decorrente de um contexto histórico em que os Estados Unidos buscavam consolidar sua própria identidade no mercado de carros esportivos.
De acordo com o historiador Mauricio Marx, a rivalidade começou, de fato, com a necessidade da Ford de ter um carro esportivo para competir no mercado com a Chevrolet.
“O primeiro Corvette chegou ao mercado em 1953, enquanto o Mustang só seria lançado em meados de 1964. Antes disso, em 1955, a Ford apresentou seu primeiro esportivo, o Thunderbird, um conversível de dois lugares equipado com motor V8. Apesar da proposta esportiva, o modelo era mais pesado que o Corvette, que levava vantagem com sua carroceria em fibra de vidro. Alguns Thunderbirds até chegaram a disputar corridas, mas o excesso de peso comprometeu o desempenho”, lembra o historiador.
Diante disso, com o fim da produção do Thunderbird em 1957, o Corvette permaneceu sozinho nas competições de carros esportivos até 1964. O historiador afirma que, além da necessidade da Ford de voltar a ter um esportivo em seu portfólio, os confrontos entre Thunderbird e Corvette nas pistas ajudaram a acentuar os primeiros sinais da rivalidade que, mais tarde, se consolidaria entre Corvette e Mustang.
A invasão do Ford Mustang
Foi a partir desse cenário que o Mustang surgiu, em 1964, como um dos lançamentos mais impactantes da história da indústria automobilística, pelo que afirma Marx. De acordo com o especialista, os americanos estavam “sedentos pela esportividade na época”.
Nesse sentido, a invasão do Mustang no espaço foi grande. “A Ford protagonizou uma das maiores campanhas de marketing da história. O lançamento do Mustang foi acompanhado por mais de 15 milhões de pessoas e, simultaneamente, exibido em comerciais transmitidos por todas as emissoras de TV americanas”, destaca o historiador.
“O impacto foi imediato: no primeiro dia, mais de 22 mil unidades foram vendidas, número equivalente à produção anual completa do Corvette naquele mesmo ano. Para coroar o feito, o Mustang ainda alcançou outro recorde em 1964, com cerca de 418 mil carros produzidos, tornando-se um fenômeno de vendas sem precedentes”, conta Marx.
O historiador ainda relembra que, além das vendas, o Mustang ganhou muita força ao aparecer em filmes de grande bilheteria. O carro rapidamente se tornou o “queridinho dos americanos”, consolidando a rivalidade.
Simbologia do Ford Mustang e Chevrolet Corvette
O historiador afirma que, embora disputassem o mesmo espaço simbólico, Mustang e Corvette representavam ideias diferentes para os consumidores.
- Corvette: era associado ao sonho de ter um esportivo conversível de dois lugares. Representava status, exclusividade e esportividade pura;
- Mustang: foi desenhado para ser acessível e versátil, podendo ser comprado em versões básicas com motor 6 cilindros ou em versões V8 luxuosas e cheias de opcionais. Isso consolidou o conceito dos pony cars, tornando-se um carro “para todos”.
Rivalidade também no Brasil
Embora nascido nos Estados Unidos, o embate Mustang x Corvette também ecoou no Brasil, especialmente nas pistas. Entre os anos 1930 e 1960, pilotos que não podiam comprar novos carros europeus adaptavam motores Corvette e Thunderbird em Ferraris, Maseratis e Alfa Romeos antigas, criando os famosos carros artesanais conhecidos como “carreteras”.
“No Brasil, a rivalidade também se dava pelos motores. Era comum vermos nomes como ‘Ferrari-Corvette’ ou ‘Maserati-Thunderbird’, resultado da adaptação feita pelos pilotos. Além disso, Ford e Chevrolet já brigavam entre si no automobilismo brasileiro”, conta o historiador.
Mesmo com propostas diferentes, os dois modelos marcaram época e seguem no imaginário coletivo como ícones que ajudaram a definir o automobilismo e a cultura popular.