Florestas plantadas entram na conta do capital

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O setor de florestas plantadas deixou de ser um segmento periférico da celulose para se tornar ativo estratégico da bioeconomia brasileira, influenciando exportações, estrutura de capital e percepção de risco regulatório. A combinação entre escala territorial, produtividade tropical e inserção externa transformou a base florestal plantada em ativo estratégico e cada vez mais avaliado sob a ótica de risco, retorno e custo de capital.

 

 

Florestas plantadas são formações estabelecidas por plantio deliberado e manejo técnico, com ciclos produtivos definidos. No Brasil, predominam eucalipto e pinus voltados à produção de celulose, papel, painéis, biomassa e carvão vegetal. A vantagem comparativa decorre do crescimento acelerado em clima tropical, que encurta a rotação, reduz o capital imobilizado por tonelada produzida e melhora a taxa interna de retorno dos projetos.

O movimento recente de expansão confirma essa racionalidade econômica. Em 2024, foram adicionados 217,8 mil hectares ao parque florestal, segundo dados do IBGE, com forte concentração no Mato Grosso do Sul, estado que vem direcionando plantios para áreas já antropizadas, especialmente pastagens de baixa produtividade. Essa geografia não é trivial: reduz pressão reputacional, melhora narrativa de adicionalidade e mitiga risco regulatório.

O ambiente macro, contudo, impõe disciplina financeira. Com juros elevados no Brasil, projetos intensivos em ativo biológico tornam-se mais sensíveis a alongamento de payback e volatilidade operacional. O custo do dinheiro pressiona CAPEX, exige previsibilidade de produtividade e aumenta o peso de qualquer variável que eleve risco físico ou jurídico. Em um cenário assim, eficiência técnica precisa se traduzir em robustez financeira.

Sob a ótica climática, a floresta plantada não é apenas ciclo biológico de captura de carbono. A madeira oriunda desses plantios pode funcionar como repositório de carbono por décadas quando empregada em produtos de longa vida útil, como estruturas construtivas, mobiliário durável ou painéis engenheirados.

Além de armazenar carbono, esses materiais substituem insumos intensivos em emissões, ampliando o efeito líquido de descarbonização. O valor climático, portanto, depende menos do plantio isolado e mais do destino industrial da biomassa.

Esse ganho, entretanto, convive com tensões ambientais que o mercado já começa a precificar. Plantios homogêneos e extensivos podem simplificar paisagens, reduzir biodiversidade local e ampliar vulnerabilidade a pragas e incêndios.

A monocultura, quando implantada sem mosaicos ou corredores ecológicos, aumenta o risco ambiental e pode gerar passivos reputacionais. Em bacias hidrográficas sensíveis, a elevada evapotranspiração de espécies de rápido crescimento também pode alterar regimes locais de vazão, sobretudo quando Áreas de Preservação Permanente (APPs) e reservas legais não são preservadas de forma rigorosa.

A consequência é direta: maior incerteza ambiental tende a elevar spreads de financiamento, reforçar exigências de garantias e pressionar o WACC dos projetos. Risco hídrico, nesse contexto, deixa de ser apenas variável ambiental e passa a compor matriz de crédito. Governança territorial, certificação e monitoramento hidrológico tornam-se instrumentos de redução de custo de capital, não apenas de compliance.

A pressão externa reforça essa equação. A regulamentação europeia antidesmatamento amplia exigências de rastreabilidade e diligência para produtos florestais, condicionando acesso a mercados de maior valor agregado à comprovação de origem regular e ausência de conversão ilegal. O impacto é financeiro: quem atende às exigências preserva contrato e prêmio de preço; quem falha incorpora risco comercial.

Modelos como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta oferecem alternativa relevante. Ao combinar árvores, grãos e pastagens na mesma área, seja em consórcio, seja em rotação, o produtor diversifica receitas, melhora o uso do solo e reduz a exposição a ciclos isolados de preço. Sistemas agroflorestais seguem lógica semelhante, associando espécies arbóreas a culturas agrícolas com maior diversidade biológica e menor homogeneidade de paisagem, o que reduz vulnerabilidades ambientais.

A questão central é menos ideológica e mais financeira. Florestas plantadas podem ampliar exportações, armazenar carbono e sustentar cadeias industriais de baixo carbono. Mas o prêmio de mercado não será concedido à expansão indiscriminada, e sim ao crescimento com governança, previsibilidade e integridade ambiental. Num ambiente de crédito seletivo e cadeias globais exigentes, a árvore continua crescendo pelo sol e pela chuva. O valor, porém, cresce — ou encolhe — pela forma de manejo e pelo custo do capital.

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