Felipe Menegat lança sua releitura de “Fly Me to the Moon” e une o universo lírico ao pop em síntese sonora singular

PUBLICIDADE

felipe-menegat-lanca-sua-releitura-de-“fly-me-to-the-moon”-e-une-o-universo-lirico-ao-pop-em-sintese-sonora-singular

Há canções que parecem ter nascido fora do tempo, não porque sejam atemporais no sentido banal da palavra, mas porque carregam em si uma arquitectura emocional tão bem calibrada que cada geração encontra nelas uma nova inflexão possível, um fio condutor diferente para o mesmo labirinto de sentimentos. “Fly Me to the Moon” é, indiscutivelmente, uma dessas composições. Escrita em 1954 pelo pianista e letrista norte-americano Bart Howard com o título original de “In Other Words”, a canção percorreu uma trajetória singular antes de se converter em um dos ícones absolutos da música popular do século XX. Foi Kaye Ballard quem a gravou pela primeira vez, ainda em tempo compasso de valsa, mas foi Frank Sinatra quem a imortalizou, em 1964, ao lado da orquestra de Count Basie, no álbum It Might as Well Be Swing, transformando-a num símbolo da sofisticação jazzística americana e, de forma quase mítica, associando-a ao espírito dos programas espaciais da NASA, cujas missões Apollo ecoavam na consciência coletiva de uma época obcecada com as fronteiras do possível. Agora, mais de seis décadas depois, é o tenor brasileiro Felipe Menegat quem se debruça sobre essa obra e a reconfigura com voz, técnica e sensibilidade próprias, em um lançamento que merece ser examinado com a atenção que a complexidade artística do projeto verdadeiramente exige.

Felipe Menegat não é um nome recém-chegado ao cenário musical brasileiro. Descendente de imigrantes italianos, o jovem tenor apaixonou-se pela música clássica sacra ainda aos nove anos de idade, e ali iniciou uma formação rigorosa que o conduziu pelos labirintos da técnica lírica com uma seriedade raramente encontrada em artistas de sua geração. Sua trajetória guarda paralelos notáveis com a de Andrea Bocelli, o tenor toscano cujo percurso entre o universo erudito e o da música de apelo popular se converteu em modelo de referência para toda uma vertente de cantores que recusam a dicotomia entre o sublime e o acessível. De fato, foi comparado ao italiano em mais de uma ocasião pela crítica especializada, não por imitação servil, mas pela convergência de uma qualidade essencial: a capacidade de emocionar sem abrir mão do rigor, de comunicar sem trivializar, de tocar a alma do ouvinte comum com os mesmos recursos que encantam o mais exigente frequentador de salas de ópera. Ao longo dos anos, Menegat construiu um repertório generoso em obras da grande tradição operística e sacra, de “Ave Maria” na versão do Intermezzo da Cavalleria Rusticana de Mascagni a “Mamma, Son Tanto Felice”, passando por “Panis Angelicus” de César Franck, e cada uma dessas escolhas revela um intérprete que compreende a voz não como mero veículo de som, mas como instrumento de sentido. Sua voz ecoou por salas europeias e brasileiras, sem olvidar dos templos católicos da Santa Ifigênia e São Bento do Morumbi, em São Paulo, e tantos outros.

É nesse contexto que o lançamento de “Fly Me to the Moon” adquire o peso de uma declaração estética. Ao abraçar um standard jazzístico eternizado por Sinatra, Menegat não está simplesmente realizando um experimento de crossover, expressão desgastada pelo uso indiscriminado da indústria fonográfica para descrever qualquer hibridismo de gêneros. O que ele propõe é algo mais profundo e, por isso mesmo, mais arriscado: a demonstração de que a técnica lírica não é uma armadura que distancia o cantor do ouvinte, mas justamente o oposto. O canto lírico exige, entre seus fundamentos, o que os pedagogos vocais chamam de appoggio, o apoio diafragmático que sustenta a coluna de ar e confere à emissão densidade, controle e uma presença física inconfundível. Essa mesma sustentação, quando aplicada ao repertório popular, empresta a cada frase melódica uma intenção que o canto amplificado por microfone raramente consegue replicar sem ela: a sensação de que cada nota está sendo sustentada não pelo equipamento, mas pela própria corporalidade do intérprete, pela carne e pelo fôlego de um ser humano que escolheu, naquele instante, dizer algo por meio do som.

O diálogo entre os universos erudito e popular que Menegat propõe em sua releitura não é, portanto, um contraste de linguagens, mas uma síntese. A tradição clássica contribui com o que ela tem de mais precioso: a densidade expressiva, o vibrato calibrado, a extensão vocal que percorre com naturalidade a tessitura demandada pela melodia de Bart Howard. O universo pop, por sua vez, oferece o que a grande sala de concertos às vezes não pode dar: imediatismo, intimidade, a sensação de que o cantor está a um braço de distância, que a canção foi escrita para aquele ouvinte específico, naquele momento específico. O resultado, segundo o release oficial do lançamento, é uma interpretação que “transcende estilos: refinada sem ser distante, acessível sem perder profundidade”, descrição que, longe de ser mera retórica publicitária, aponta para uma conquista artística genuína e difícil de alcançar. Porque a superficialidade é sempre o caminho mais fácil em ambos os territórios: do lado erudito, o risco é o esnobismo frio, a técnica que congela o sentimento; do lado popular, o risco é a vulgaridade emocional, o sentimentalismo que dissolve qualquer rigor. Menegat navega entre esses escolhos com a segurança de quem tem raízes fundas em ambas as tradições.

A escolha de “Fly Me to the Moon” também não é casual do ponto de vista simbólico. A canção de Bart Howard é, em sua essência, um poema de desejo e entrega — um convite ao abandono das fronteiras do cotidiano em direção a algo maior, mais luminoso, mais pleno de possibilidades. Em sua letra original, o amante pede à amada que o leve à Lua, que o deixe dançar entre as estrelas e tocar o que Júpiter e Marte guardam em seus anéis — imagens que oscilam entre a fantasia cósmica e a mais íntima das confissões românticas. Essa tensão entre o imensurável e o particular, entre o astronômico e o humano, é precisamente o espaço que um tenor lírico habita com naturalidade: sua voz foi treinada para preencher auditórios inteiros sem amplificação, mas seu instrumento supremo é o silêncio que envolve cada nota, a vulnerabilidade que se insinua nas pausas. Quando Menegat assume essa canção, ele não apenas a interpreta — ele a habita, e ao habitá-la, revela algo de si que transcende a técnica e alcança o que toda arte, em seu melhor momento, aspira a alcançar: a verdade de uma presença.

Este lançamento chega em um momento em que o mercado fonográfico brasileiro assiste a um renovado interesse pelo repertório clássico e pela voz lírica em contextos não convencionais, fenômeno que reflete tanto a saturação de certos formatos populares quanto a sede de uma parcela crescente do público por experiências sonoras mais densas e elaboradas. Artistas como Menegat cumprem, nesse cenário, uma função cultural que vai além do entretenimento: são pontes entre mundos, tradutores de uma herança musical que corre o risco de permanecer confinada a circuitos especializados se não encontrar vozes capazes de carregá-la ao encontro do cotidiano. Seu compromisso com uma estética que une excelência técnica e comunicação artística, reiterado a cada lançamento, é um gesto de resistência civilizatória em tempos de pressa e superficialidade.

O leitor que aprecia o que há de mais refinado no jornalismo cultural e nas artes encontrará no SP Notícias um espaço editorial raro: um jornal com estilo próprio, caracterizado pela elegância da apresentação e pelo compromisso intransigente com a qualidade do conteúdo. Aqui, cada matéria é pensada para quem recusa o mediano, para quem busca na leitura não apenas informação, mas reflexão. Acompanhe o SP Notícias e deixe que as palavras façam o que as grandes canções também fazem: levem você mais alto.

Vale a pena visitar: http://tratore.ffm.to/menegatflymetothemoon

**

Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
SP Notícias — Intellectus ex veritate

Mais recentes

PUBLICIDADE