
A figura de Nana Gouvea, outrora um dos rostos mais emblemáticos do carnaval carioca, ressurge na memória popular ao compartilhar detalhes sobre sua experiência como rainha de bateria. Afastada das avenidas desde 2009 e hoje residindo nos Estados Unidos, Gouvea, que brilhou à frente dos ritmistas da Caprichosos de Pilares, recorda com nostalgia um período que descreve como uma “época de ouro” para as rainhas de bateria. Sua declaração central, que ecoa como um contraponto ao cenário atual, é enfática: ela recebia ajuda de custo para desfilar, uma prática que contrasta dramaticamente com o que se observa hoje, onde muitas rainhas arcam com altos custos para ocupar o mesmo posto.
Essa revelação não apenas ilumina as diferenças entre as eras do carnaval, mas também levanta discussões pertinentes sobre a profissionalização, a comercialização e a essência da representatividade nas escolas de samba. Nana Gouvea destaca que sua participação no carnaval não era apenas uma paixão, mas uma base de trabalho e sustento, um veículo para a divulgação de sua imagem e um respaldo profissional significativo. Sua fala ressalta a complexidade da posição de rainha, que transcende o mero glamour para se tornar um papel de dedicação e, em seu tempo, de reconhecimento financeiro por essa dedicação.
O legado de uma era de ouro no carnaval carioca
Para Nana Gouvea, o período em que desfilou representava um momento sublime para as rainhas de bateria. Ela evoca uma imagem de mulheres cuidadosamente selecionadas, não apenas pela beleza ou pelo carisma, mas pela profunda conexão com a comunidade ou por seu status de celebridade que realmente “vestia a camisa” da escola. A dedicação era a palavra-chave: respeito aos ensaios, presença constante e um papel ativo na divulgação da agremiação eram atributos valorizados. Gouvea menciona nomes como Luisa Brunet, Viviane Araújo e Fábia Borges, referências que, segundo ela, compartilhavam o mesmo espírito de comprometimento. Essa era, segundo sua perspectiva, caracterizava-se por um modelo onde a rainha era, de fato, uma representante digna da escola, engajada e venerada, e não meramente uma figura decorativa ou um investimento financeiro.
A paixão de Gouvea pelo carnaval era tão intensa que, após desfilar por sua própria escola, ela se trocava rapidamente para retornar à avenida e assistir às performances das outras rainhas, demonstrando um genuíno apreço pela arte e pela cultura que o carnaval representava. Esse tipo de envolvimento pessoal e a valorização da performance artística e do compromisso eram pilares que, ela sugere, foram gradualmente erodidos pelo tempo e pelas mudanças no cenário do carnaval.
A revelação da ajuda de custo e o modelo antigo
A mais surpreendente revelação de Nana Gouvea diz respeito à ajuda de custo que recebia da escola de samba. Ela detalha que, em conversas com o então presidente da Caprichosos de Pilares, Alberto Leandro, deixou claro que sua permanência dependia de um suporte financeiro. À época, Gouvea era mãe solo e precisava trabalhar para sustentar sua família. A dedicação integral exigida pelo posto de rainha – comparecer a inúmeros eventos, ensaios e compromissos de divulgação – tornava inviável a conciliação com outros trabalhos, como os de modelo que frequentemente a obrigavam a viajar. Sem essa ajuda, ela não teria conseguido cumprir a agenda rigorosa do carnaval.
A visão do presidente Alberto Leandro, na época, demonstrava uma compreensão estratégica dos benefícios de uma rainha de bateria presente e dedicada. A presença constante de uma figura carismática e engajada era um trunfo inestimável para a escola, atraindo mais público para a quadra, gerando visibilidade na mídia e, consequentemente, facilitando a captação de patrocínios. Essa reciprocidade, onde a escola investia na rainha e a rainha, por sua vez, contribuía para o fortalecimento financeiro e de imagem da agremiação, era um pilar fundamental do modelo que Nana Gouvea experienciou. Era uma relação de benefício mútuo, fundamentada no reconhecimento do trabalho e da dedicação.
A transição: do talento ao patrocínio
A transição do modelo de remuneração para o de patrocínio, ou mesmo de pagamento para desfilar, é um dos pontos mais críticos levantados por Nana Gouvea. Ela se considera afortunada por ter “escapado” dessa nova fase, onde as rainhas de bateria, muitas vezes, precisam desembolsar quantias significativas para ostentar o título. Essa mudança, segundo ela, altera drasticamente a dinâmica do posto, transformando o que era um reconhecimento por talento e dedicação em um privilégio financeiro. As “rainhas patrocinadoras”, termo que ela utiliza, representam uma nova realidade onde o capital precede a capacidade artística ou a conexão com a comunidade. Esta evolução levanta questões sobre a acessibilidade do cargo e se ele se tornou exclusivo para quem pode pagar, em detrimento de mulheres que, como Nana, dependiam do carnaval para seu sustento e que viam a posição como um trabalho a ser remunerado.
Impacto nas escolas de samba e na cultura do carnaval
Essa virada de paradigma tem profundas implicações para as escolas de samba e para a própria cultura do carnaval. Quando o critério financeiro se sobrepõe ao mérito, à história na comunidade ou ao carisma genuíno, há o risco de descaracterização do posto de rainha de bateria. A autenticidade e a representatividade podem ser comprometidas, e a percepção pública do papel pode se deslocar de um ícone cultural para uma vitrine de marketing. O carnaval, um evento de raízes populares e identitárias, corre o risco de perder parte de sua alma ao se tornar excessivamente mercantilizado, onde a dedicação e o amor pela agremiação são ofuscados pela capacidade de investimento financeiro. A necessidade de patrocínios, embora compreensível em um cenário de grandes custos para a realização dos desfiles, reconfigura o acesso a posições de destaque.
Nana Gouvea hoje: reflexões sobre valores e o futuro do posto
Vivendo nos Estados Unidos, Nana Gouvea mantém uma perspectiva clara sobre o valor do seu trabalho e a ética profissional. Sua frase “eu acho que tenho que ser paga pelo meu trabalho, não tenho que pagar para trabalhar” encapsula uma crítica contundente ao modelo atual. Ela argumenta que essa nova dinâmica não se alinha com seus princípios, reafirmando que jamais teria condições, nem interesse, em pagar para desfilar. Essa postura reflete não apenas uma questão financeira pessoal, mas uma objeção filosófica à mercantilização de um papel que, em sua essência, deveria ser de honra e reconhecimento.
As reflexões de Nana Gouvea servem como um importante testemunho da evolução do carnaval e de suas personagens mais emblemáticas. Elas nos convidam a ponderar sobre as transformações sociais e econômicas que impactam uma das maiores manifestações culturais do Brasil, e sobre como o equilíbrio entre tradição, paixão e as exigências do mercado podem moldar o futuro do posto de rainha de bateria e do próprio espetáculo do carnaval. Embora as coisas mudem, como ela mesma reconhece, a essência do que faz uma rainha ser uma rainha verdadeira permanece um debate vital.
O depoimento de Nana Gouvea é um convite à reflexão sobre a trajetória do carnaval e seus ícones. Para continuar acompanhando análises aprofundadas, entrevistas exclusivas e as últimas novidades do universo cultural e das celebridades, não deixe de explorar mais artigos e reportagens em nosso portal. O SP Notícias é a sua fonte para informação de qualidade e conteúdo engajador!
Fonte: https://oglobo.globo.com