Escolas de Samba de SP dão espetáculo na primeira noite de desfile

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A primeira noite de desfiles do Grupo Especial de São Paulo em 2026 confirmou o vigor criativo do carnaval paulistano e consolidou o Sambódromo do Anhembi como palco de uma disputa acirrada pela preferência do público e dos jurados. Em uma maratona que atravessou a madrugada, sete agremiações levaram à avenida enredos diversos, que oscilaram entre a crítica social, a celebração da ancestralidade e a fantasia mais exuberante, compondo um mosaico sofisticado de narrativas visuais e musicais. Dentro do tempo regulamentar de 65 minutos, Mocidade Unida da Mooca, Colorado do Brás, Dragões da Real, Acadêmicos do Tatuapé, Rosas de Ouro, Vai-Vai e Barroca Zona Sul costuraram um espetáculo marcado por soluções cênicas inventivas, momentos de alta emoção e alguns sustos operacionais, sem comprometer a coesão geral da festa.

Entre os grandes destaques da noite, Dragões da Real e Acadêmicos do Tatuapé despontaram como candidatas naturais às primeiras posições, tanto pela excelência plástica quanto pela consistência do conjunto. A Dragões, terceira a pisar o Anhembi, apresentou um enredo de forte apelo popular, com enredo baseado em imaginário fantástico, que combinou alegorias monumentais, uso inteligente de recursos de iluminação e uma bateria coesa, capaz de sustentar o canto das arquibancadas em uníssono. A escola demonstrou maturidade ao administrar o tempo, sem correrias e com evolução fluida, o que chamou a atenção de comentaristas especializados. Na sequência, o Tatuapé reforçou a condição de potência do carnaval paulistano ao aliar fantasias de acabamento primoroso a um samba de melodia envolvente, que encontrou eco imediato no público. A harmonia da escola, com alas cantando do início ao fim, e a movimentação precisa das alas coreografadas contribuíram para a impressão de um desfile sólido, tecnicamente competitivo.

A atual campeã, Rosas de Ouro, chegou à avenida cercada de expectativa e não decepcionou, embora tenha enfrentado o peso simbólico de defender o título sob olhares minuciosos. Com um enredo que mesclou tradição e contemporaneidade, a escola optou por uma narrativa de forte apelo emocional, apoiada em alegorias de leitura clara e fantasias que equilibravam luxo e funcionalidade. O carro abre-alas surgiu como síntese visual do discurso proposto, com esculturas de grande porte e um trabalho refinado de adereços, sem excesso de informação. A bateria garantiu um dos momentos mais vibrantes da noite ao promover uma paradinha calculada, na qual o silêncio momentâneo foi preenchido pelo canto espontâneo das arquibancadas, antes de retomar com precisão cirúrgica o andamento do samba. Apesar da complexidade de sua proposta cênica, a Rosas administrou bem o cronômetro, cruzando a linha final dentro do limite e evitando lacunas entre as alas, o que reforça sua presença na disputa pelo topo da tabela.

O Vai-Vai, decano e símbolo da história do carnaval paulistano, proporcionou um dos desfiles mais comentados da noite, reafirmando a força de sua identidade alvinegra. Com um enredo de linguagem contemporânea, permeado por referências à cultura pop e à representatividade negra, a escola de Vila Maria apostou na emoção como fio condutor. O samba-enredo, de refrão poderoso, encontrou na comunidade um coro compacto, capaz de envolver até os setores mais distantes do Anhembi. Destaque para a atuação da bateria, que protagonizou uma paradinha carregada de simbologia, quando ritmistas se ajoelharam e ergueram o punho em gesto de afirmação, arrancando aplausos prolongados. O custo da ousadia foi uma ligeira aceleração na parte final do desfile, necessária para evitar o estouro de tempo, mas a escola conseguiu manter a unidade visual e musical até o encerramento.

Na largada do espetáculo, a Mocidade Unida da Mooca assumiu a responsabilidade de abrir a noite, tarefa sempre desafiadora pela necessidade de aquecer a avenida e calibrar o público. A escola se valeu de um enredo de leitura direta e de uma plástica correta, com fantasias que privilegiavam conforto para permitir boa evolução das alas. Embora não tenha atingido o mesmo patamar de impacto das escolas mais badaladas, a Mocidade cumpriu com dignidade o papel de anfitriã inicial, demonstrando crescimento em setores como comissão de frente e casal de mestre-sala e porta-bandeira, que executaram coreografias seguras, com boa integração às alegorias de apoio.

A Colorado do Brás, segunda a desfilar, apresentou um trabalho consistente, com enredo de temática social e forte referencial histórico. Suas alegorias apostaram em contrastes cromáticos para destacar a mensagem central, enquanto o samba, de andamento mais cadenciado, permitiu que o canto se mantivesse firme, sem que o fôlego da comunidade fosse testado ao limite. A escola, que nos últimos anos se firmou como presença constante no Grupo Especial, demonstrou mais uma vez que domina a gramática do desfile competitivo, ainda que sem produzir o mesmo efeito arrebatador de Dragões e Vai-Vai nesta primeira noite.

Coube à Barroca Zona Sul encerrar os trabalhos no raiar da manhã, levando ao Anhembi uma homenagem a Oxum, orixá das águas doces, associada à fertilidade, ao amor e à beleza. Em um desfile permeado por dourados, azuis e brancos, a escola inundou a pista com referências ao candomblé e à cultura afro-brasileira, em um tratamento respeitoso e esteticamente cuidadoso. As alegorias evocaram rios, cachoeiras e espelhos, numa cenografia que valorizava a fluidez das formas. Apesar do cansaço natural da plateia ao final da maratona, a Barroca conseguiu recuperar a atenção com alas coreografadas que exploravam movimentos ondulantes, espelhando a simbologia das águas. A escola encerrou seu percurso dentro do tempo, sem falhas perceptíveis de acoplamento entre carros, o que lhe garante boa perspectiva em quesitos como enredo, fantasia e conjunto.

A noite, porém, não foi isenta de sobressaltos. Reportagens registraram episódios de desmaios de componentes por exaustão e calor, além de pequenos atrasos de concentração na entrada de algumas agremiações, pressionando o cronograma. Em determinado momento, uma discussão entre integrantes de setores diferentes quase evoluiu para briga, prontamente controlada pela harmonia e pela equipe de apoio. Ainda assim, o conjunto da apresentação foi marcado por profissionalismo, com a Liga-SP confirmando que todas as escolas encerraram seus desfiles dentro dos 65 minutos regulamentares, evitando punições automáticas que poderiam comprometer o resultado final.

Ao final do primeiro dia, a sensação predominante entre comentaristas e foliões era a de que São Paulo vive um ciclo virtuoso de amadurecimento carnavalesco. A diversidade de propostas estéticas e narrativas, somada à competência técnica das agremiações, elevou o nível da disputa e alimentou a expectativa para a segunda noite de desfiles, quando Império de Casa Verde, Águia de Ouro, Mocidade Alegre, Gaviões da Fiel, Estrela do Terceiro Milênio, Tom Maior e Camisa Verde e Branco retornariam ao Anhembi. Se a apuração confirmará as impressões da madrugada ainda é uma incógnita, mas o primeiro capítulo do carnaval paulistano de 2026 já se inscreve como um dos mais equilibrados e inspirados da última década.

Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
HostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

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