Elis Regina: entre o palco e o lar; a mulher por trás da voz

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Poucos nomes na história da música popular brasileira evocam tamanha reverência quanto o de Elis Regina. A lembrança de sua voz ainda paira como relâmpago em plena tarde cinzenta: fulgina, arrebatadora e inconfundível. Mas a matéria de hoje não se detém sobre a artista magnânima que dominou palcos e corações, e sim sobre a mulher que existia dentro da casa, entre panelas, risadas domésticas e uma rigidez maternal temperada pela ternura. É sobre a Sra. Elis Regina Carvalho Costa que fala, com emoção e doçura, a apresentadora Ione Cirilo, que acessei por meio do amigo jornalista e publicitário Roberto Martinez. Inegavelmente, Ione era próxima, confidente e testemunha das histórias mais íntimas de Elis.

Elis Regina, como tantas mulheres brasileiras de seu tempo, dividia-se entre o furacão da carreira e o sossego possível da vida privada. Exigente, possuía um zelo quase artesanal pelas coisas do lar. Uma dona de casa aplicada, inspirada e detalhista. “Elis adorava cozinhar”, conta, “gostava de ver a reação das pessoas diante do que preparava. Tinha prazer em servir, em reunir os amigos, em transformar o trivial em gesto de afeto”. À mesa da cantora, o tempero nunca era mero complemento, era um ato de expressão, uma continuação do mesmo impulso que a fazia cantar. Ione relata com brilho nos olhos os famosos churrascos de família, em que o pai de Elis (gaúcho tradicional) trazia as carnes, enquanto a diva se incumbia das guarnições.

A mulher além do mito

Falar de Elis sem os holofotes parece, à primeira vista, uma impossibilidade. No imaginário popular, ela é inseparável da intensidade: o olhar elétrico, o corpo em movimento, a entrega total à música. No entanto, nas palavras de Ione Cirilo, emergem nuances que humanizam o mito.

Em casa, Elis era mãe antes de tudo. Cuidava dos filhos com uma disciplina antiga, talvez herdada dos tempos em Porto Alegre, onde nasceu em 1945, num lar simples de valores firmes. A educação, para ela, era ato de amor e responsabilidade. Não admitia preguiça, descuido ou desrespeito. A voz que encantava plateias era a mesma que, às vezes, ecoava pela casa em tom severo. Mesmo assim, os filhos e amigos recordam a risada fácil, o humor sempre presente e a alegria espontânea que preenchia o ambiente quando ela se deixava descansar da pressão constante da fama.

“Era uma mulher absolutamente normal”, reforça Ione, enfatizando cada palavra. “Gostava de arrumar a casa, de escolher flores e, até mesmo, de bordar” . Era generosa e dedicada à família, como seu bem maior.

Ione Cirilo: uma amiga de bastidores

A história de amizade entre as duas nasceu de modo absolutamente prosaico, ainda que em meio à grandiosidade que cercava Elis. Ione Cirilo, morando em São Paulo, foi acompanhar seu então esposo, Raul – que era repórter do Jornal da Tarde – no início da turnê da cantora no Rio de Janeiro, mais precisamente no Teatro da Praia. Após uma performance que emocionou Vinicius de Moraes com a interpretação à flor da pele de Canto de Ossanha, Ione foi, juntamente com o marido e outros jornalistas, conversar com Elis.

O camarim, tomado por jornalistas, produtores e admiradores, fervilhava em murmúrios e flashes. Entre cumprimentos, pedidos de autógrafo e elogios, Elis, de súbito, chamou atenção para uma figura que lhe transmitia empatia imediata: Ione. Aproximou-se, trocou um olhar e pronunciou uma frase que, segundo a amiga, “mudaria o rumo daquela noite e, quem sabe, da vida”.

“Você pode me tirar daqui ?”, perguntou Elis, com o sorriso brincando nos lábios. Ione, sem entender de início, respondeu afirmativamente. “É que eu preciso ir ao toilette.” E assim, discretamente, entre risos cúmplices e a cumplicidade súbita que só o acaso pode explicar, iniciava-se uma amizade verdadeira.

Elis Regina, caracterizada como Charles Chaplin, no Teatro da Praia – RJ | Foto: Acervo Pessoal Ione Cirilo
A amizade que atravessou o tempo

Daquele encontro nasceria uma convivência marcada por respeito, confiança e divertimento. Ione passou a frequentar a casa de Elis, participou de jantares, aniversários e momentos de conversas intermináveis. Lembra-se, com carinho nos lábios e lágrimas nos olhos, dos diálogos e confidências trocados com a maior intérprete da Música Popular Brasileira que, na verdade, era sua melhor amiga.

Fora da rotina dos palcos, Elis revelava traços de uma mulher meticulosa, preocupada com detalhes que poucos artistas, entregues à fama, ainda observam. Gostava de cuidar das roupas, de escolher os tecidos e de acompanhar costureiras, interessando-se tanto pelo caimento quanto pelo significado simbólico da vestimenta. A roupa, para ela, também era instrumento de comunicação, um gesto estético tão natural quanto a voz.

Na relação com os filhos, mostrava um equilíbrio delicado entre autoridade e afeto. Era exigente, mas protetora. Tinha a convicção de que o talento, por si só, não bastava; era preciso disciplina, estudo e fé. Reunia a família sempre que podia, com mesa farta e a presença dos sons que mais amava: os risos das crianças e as vozes dos seus.

A humanidade de uma estrela incomum

Elis era capaz de alternar, no mesmo dia, a efervescência das gravações com a serenidade das horas em que lavava louça ou costurava. Ela gostava do cotidiano. Havia um prazer real em fazer as coisas com as próprias mãos, talvez porque a vida nos palcos fosse tão imprevisível e intensa que o lar se tornava seu território de equilíbrio.

Essa humanidade visível apenas de perto contrasta com a imagem pública que, muitas vezes, a tratava como uma figura inatingível. O microfone, não limitado ao uma extensão de seu corpo, era o instrumento de uma mulher à frente do seu tempo e, principalmente, acima de sua pessoa. E esse detalhe biográfico é muito importante quando se fala de Elis, porque, de forma rara, ela tinha a capacidade de separar os mundos e, ainda melhor, entregar-se de forma integral a cada um deles, cada um no seu momento.

À medida que a amizade se aprofundava, cresceram também as confidências. Ione testemunhou momentos de felicidade e outros de angústia. “Vi Elis rir descontroladamente de suas próprias histórias e, em outras tardes, contemplar o silêncio com olhar distante. Ela era intensidade pura, em tudo o que fazia. Não havia meio-termo. Amava e sofria com a mesma grandeza.”

O legado de uma presença viva

Décadas depois, ao relembrar aqueles tempos, Ione Cirilo se emociona. Hoje, já octogenária, conserva viva a nitidez das conversas, o calor dos abraços e o som inconfundível da gargalhada de Elis. Para ela, a cantora foi muito mais do que um ícone musical: foi uma amiga leal, de humor contagiante e alma generosa, que jamais deixou de ser humana.

Elis Regina, o Brasil inteiro ainda a reconhece como referência de arte e entrega. Mas entre os que tiveram o privilégio de conhecê-la fora da ribalta, sobrevive também outra lembrança: a da dona de casa que cozinhava muito bem, que preferia o perfume de casa habitada ao cheiro frio dos camarins, que corrigia com firmeza os filhos e que ria de si mesma com ternura.

A Elis de todos nós

Por tudo isso, vale uma reflexão sobre a dimensão humana dos ídolos. Por trás da voz poderosa, existia uma mulher que amava o cotidiano, que se frustrava, que buscava na ordem doméstica uma forma de lidar com o caos do sucesso. Sua casa era o contraponto da tempestade artística: um refúgio onde ela podia ser apenas Elis mãe, amiga, e anfitriã.

No fim, talvez seja essa a herança mais comovente: não apenas a intérprete insuperável, mas a mulher que viveu intensamente em cada gesto, em cada pequeno ato de cuidado. A gastronomia, o riso, a disciplina familiar e a autenticidade que encantavam os amigos compõem o retrato de uma artista completa e de uma pessoa comum, com seus seus altos e baixos, mas sempre com duas faces de uma mesma vida que continua a inspirar gerações.

Como testemunha e uma das guardiãs dessas memórias, Ione Cirilo reitera que Elis permanece presente nas lembranças domésticas que o público raramente conheceu. “Ela foi a maior de todas, mas também foi, uma amiga como poucas. Uma mulher que fazia da vida uma arte, dentro e fora dos palcos. ‘Uma mulher como outra qualquer do planeta’.”

 

** Mantivemos a originalidade das imagens, as quais foram digitalizadas mediante foto por aparelho celular, pela própria Ione Cirilo, de porta-retratos do seu acervo pessoal.”

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