Desde o início de 2025, quando afirmou em entrevistas que o Brasil chegaria a 2026 com uma “economia muito mais arrumada” do que a herdada no começo do governo, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, vem vendo suas próprias palavras retornarem ao noticiário como lente de aumento para a leitura do momento econômico do país. Na ocasião, em conversas com GloboNews, CNN Brasil e outros veículos, Haddad delineou um plano que combinava ajuste fiscal gradual, reformas estruturais, recomposição da credibilidade junto a investidores e preservação de programas sociais, insistindo na ideia de que seria possível “arrumar a casa” sem calotes, sem contabilidade criativa e sem privatizações a “preço de banana”. Passado pouco mais de um ano, com os números mais recentes do PIB, a persistência de juros em patamar historicamente elevado e a projeção de desaceleração da atividade em 2026, as mesmas entrevistas são revisitadas por analistas e comentaristas que procuram confrontar o discurso otimista do ministro com a realidade medida pelos indicadores.
Em janeiro de 2025, Haddad chegou a resumir sua missão na Fazenda em termos enfáticos: “Vamos entregar uma economia muito mais arrumada do que a que herdamos”. A promessa aparecia ancorada em pilares bem definidos: disciplina fiscal via novo arcabouço, reforma tributária sobre o consumo já aprovada, novas etapas voltadas à renda e à tributação de grandes grupos econômicos, revisão de benefícios fiscais considerados ineficientes e agenda de transformação ecológica para atrair investimentos. Em paralelo, o ministro projetava crescimento de 3,6% para 2024 e cerca de 2,5% para 2025, com trajetória de melhora gradual da dívida pública em relação ao PIB, sob a condição de que o Congresso aprovasse o conjunto de medidas enviadas pela equipe econômica.
Os dados consolidados de 2025 mostraram, porém, uma dinâmica mais contida: o PIB cresceu 2,3%, em desaceleração frente aos 3,4% registrados em 2024, marcando o menor avanço em cinco anos e empurrando o Brasil da 20ª para a 36ª posição em um ranking de 61 países em termos de desempenho econômico. Em relatórios e telejornais, o resultado foi descrito como “crescimento modesto” e “economia em marcha lenta”, ainda que positivo e sustentado por setores como agropecuária e serviços ligados à informação. A prévia do PIB calculada pelo Banco Central, por meio do IBC-Br, já apontava para essa desaceleração, reforçando a ideia de que o impulso inicial de recuperação pós‑pandemia havia se esgotado e que o peso dos juros altos passava a cobrar um preço mais salgado sobre investimento e consumo.
É justamente nesse ponto que as entrevistas “programáticas” de Haddad reaparecem. Ao mesmo tempo em que continua a defender a meta de entregar em 2026 um quadro fiscal mais organizado – com déficit zero em 2025 e superávit primário de 0,25% do PIB em 2026 – o ministro admite, em declarações mais recentes, que a taxa básica de juros está “altíssima” e exerce impacto relevante sobre o crescimento. Em conversa com o UOL e em eventos públicos, ele vem repetindo que o esforço fiscal é condição para permitir a queda sustentável da Selic e que, sem essa contrapartida, o país seguirá condenado a conviver com juros reais entre os mais altos do mundo. Assim, as mesmas falas que, em 2025, soavam como promessa de arrumação geral agora são usadas como régua para medir o quanto a equipe econômica conseguiu avançar na direção anunciada.
Do lado das projeções internacionais, relatórios da ONU reforçam o diagnóstico de um biênio de transição pouco exuberante: para 2026, a organização projeta crescimento de cerca de 2% para o Brasil, abaixo do ritmo de 2025, com aceleração mais perceptível apenas em 2027, já no início de um novo ciclo governamental. O documento atribui a desaceleração, em grande medida, aos efeitos defasados do aperto monetário, que levou a taxa de juros a máximas em décadas e continua a pesar sobre investimentos. Ao mesmo tempo, reconhece o esforço brasileiro em direção à consolidação fiscal e ao controle gradual da inflação, projetando que o IPCA converge para algo em torno de 4% em 2026, com espaço para um ciclo de cortes nos juros ao longo do ano. Ainda assim, a mensagem implícita é clara: a “economia mais arrumada” imaginada por Haddad conviverá com um crescimento modesto no curto prazo.cnnbrasil.
Analistas de mercado, em colunas e relatórios, têm explorado essa tensão entre narrativa e números em duas linhas principais. A primeira enfatiza que, apesar da desaceleração do PIB, o governo de fato conseguiu entregar algumas peças centrais da arrumação prometida – como a reforma tributária do consumo, o novo marco fiscal e um conjunto de reformas microeconômicas que melhoram o ambiente de negócios. Nessa leitura, a “economia mais arrumada” diz respeito menos a taxas espetaculares de crescimento e mais a um tabuleiro institucional e fiscal mais previsível, em que a dívida pública segue trajetória controlada e a inflação converge à meta, criando condições para avanços futuros.
A segunda linha, mais crítica, sustenta que o governo subestimou o custo econômico de manter juros tão elevados por tanto tempo, o que teria limitado a capacidade de o país converter o ganho de credibilidade em expansão mais vigorosa da atividade. Nessa perspectiva, o contraste entre falas otimistas, em que Haddad chegou a afirmar que os brasileiros poderiam “comer filé mignon” até o fim do mandato se o plano fosse bem‑sucedido, e a realidade de crescimento pífio reforça percepções de frustração, especialmente entre setores produtivos pressionados por crédito caro e demanda fraca. Em alguns editoriais, a expressão “economia arrumada” é lida como arrumação “de cima para baixo”, mais visível em apresentações para investidores do que no cotidiano da classe média endividada e dos pequenos empresários.
No horizonte próximo, o próprio Haddad insiste em que 2026 será um ano decisivo para consolidar a revisão de gastos, avançar na tributação de grandes fortunas e de multinacionais, regulamentar a renda e manter o processo de consolidação fiscal, ao mesmo tempo em que tenta preservar espaço para políticas sociais e investimentos em infraestrutura e transição ecológica. Entrevistas recentes em conferências empresariais e programas jornalísticos reforçam essa agenda de “segunda etapa”, em que o ministro se esforça para mostrar que o governo não abandonará a meta de equilíbrio fiscal, ainda que sob críticas internas e externas. A pergunta que se coloca, para muitos observadores, é se esse arranjo será suficiente para, além de arrumar contas e marcos regulatórios, produzir o dinamismo econômico capaz de ser percebido concretamente pela sociedade.
Para o leitor que busca acompanhar com lucidez a distância – ou a aproximação – entre o que foi prometido e o que está sendo entregue, é fundamental observar como as frases de efeito que marcam entrevistas de ministros sobrevivem ao confronto com a aritmética da economia real. A HostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo se propõe a seguir, com atenção e rigor crítico, esse fio narrativo, conectando declarações, decisões e dados em análises que permitam ao público formar juízo próprio sobre a consistência do projeto econômico em curso. Aprecie, compartilhe e retorne com frequência às nossas matérias, fazendo da leitura qualificada um exercício permanente de cidadania econômica e reflexão sobre o futuro do país.
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Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
HostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.