
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), decidiu promover uma nova rodada de rearranjos em seu tabuleiro administrativo ao escolher o coronel da reserva Marcus Vinícius Valério, atual subprefeito da Mooca, para comandar a subprefeitura da Sé, região que concentra o coração histórico, político e social da capital. A troca, confirmada por interlocutores do Paço e alinhada ao movimento recente de valorização de quadros oriundos da Polícia Militar em postos estratégicos da gestão, sucede a saída do também coronel Marcelo Vieira Salles, que deixou a Sé para assumir a presidência da SPTuris, empresa municipal responsável por turismo, eventos e pela gestão de equipamentos como o Anhembi.
A subprefeitura da Sé é considerada uma das funções mais sensíveis do organograma paulistano. Sua jurisdição abrange bairros como Sé, República, Santa Cecília, Bela Vista, Liberdade, Consolação, Cambuci e Bom Retiro, um mosaico territorial que reúne desde o centro financeiro e institucional da cidade até áreas de vulnerabilidade extrema, como a região conhecida como Cracolândia. Com orçamento anual que supera R$ 130 milhões, é a subprefeitura com maior dotação entre as 32 existentes, responsável por demandas que vão da zeladoria cotidiana à coordenação de ações complexas de segurança urbana, assistência social e requalificação do espaço público.
A escolha de Marcus Vinícius Valério para a Sé não é casual. Oficial da reserva da PM, ele ingressou na Academia do Barro Branco em 1985, formou-se em 1989 e foi promovido a coronel em 2015. É graduado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública pela própria Academia e em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito das Faculdades Integradas de Guarulhos, além de possuir mestrado e doutorado pelo Centro de Altos Estudos de Segurança da corporação. Ao longo de 37 anos de carreira, exerceu funções nas áreas operacional, de logística, orçamentária e estratégica da PM, chegando ao posto de subcomandante da Polícia Militar do Estado de São Paulo entre 2020 e 2022.
A transição para a máquina municipal começou em 2022, quando Marcus Vinícius assumiu a chefia de gabinete da Superintendência do Serviço Funerário de São Paulo, entre maio e agosto. Em seguida, foi nomeado subprefeito da Lapa em agosto de 2022, permanecendo no cargo até março de 2023, quando foi transferido para a subprefeitura da Mooca. Na região leste, passou a administrar um território que inclui, além da Mooca, os distritos de Água Rasa, Belém, Brás, Pari e Tatuapé, área de forte presença industrial e residencial, marcada por tradição operária, comércio popular e intensa circulação de trabalhadores.
Sua ida para a Sé agora representa um salto em termos de visibilidade e complexidade política. A substituição ocorre no momento em que Marcelo Vieira Salles, ex-comandante-geral da PM e quadro influente do PSD, deixa o comando da subprefeitura central para assumir a SPTuris, movimento interpretado por analistas como parte de uma estratégia de Ricardo Nunes de acomodar aliados sem mandato em cargos de peso e, ao mesmo tempo, reforçar a presença de perfis de segurança pública em áreas sensíveis. Salles, que já havia sido subprefeito da Sé em outra ocasião e ocupou vaga de vereador na Câmara Municipal, era um dos principais articuladores da política de enfrentamento à Cracolândia e da interlocução com forças policiais na região central.
A nomeação de coronéis da reserva para subprefeituras, aliás, não é novidade na atual gestão. Reportagem da revista IstoÉ mostrou que, desde 2023, ao menos seis oficiais da PM migraram para o comando de subprefeituras, numa aposta de Nunes de que a experiência em comando, gestão de crises e logística operacional pode ser transposta para a administração do território urbano. O vice-prefeito da cidade, coronel Ricardo Mello Araújo (PL), ex-comandante da Rota, é outro exemplo dessa simbiose entre alta cúpula da corporação e governo municipal.
Na Mooca, Marcus Vinícius construiu imagem de gestor presente, com estilo de “subprefeito de rua”, expressão usada pelo próprio Nunes, no passado, para justificar a preferência por quadros que circulam pelo território em vez de se restringirem ao gabinete. Em entrevistas, como a concedida ao projeto “Café com Sub”, o coronel destacava a importância de conciliar disciplina administrativa com capacidade de diálogo e mediação de conflitos em um território marcado por demandas de comerciantes, moradores antigos, movimentos de moradia e empreendimentos imobiliários.
É esse perfil que a gestão busca agora transplantar para a Sé. A região central é palco de uma agenda densa: revitalização de áreas históricas, combate à degradação de espaços públicos, reorganização do comércio ambulante, acolhimento de população em situação de rua, enfrentamento à concentração de usuários de drogas e articulação com grandes projetos de requalificação, como a concessão de parques e a tentativa de atrair novos moradores e empresas para o centro. A presença de um gestor com trajetória combinando segurança e gestão pública é vista, no entorno do prefeito, como trunfo para articular ações com as polícias Militar e Civil, a Guarda Civil Metropolitana e secretarias como Assistência Social, Saúde e Habitação.
Do ponto de vista político, a movimentação também dialoga com o horizonte eleitoral de 2026. Ricardo Nunes já sinalizou que pretende fazer campanha pelo vice, coronel Mello Araújo, para o Senado, em aliança com o ex-presidente Jair Bolsonaro, ao mesmo tempo em que busca consolidar sua própria base para eventuais projetos futuros, como uma candidatura ao governo do estado. Em entrevista recente, Nunes reiterou a aposta em perfis ligados à segurança como forma de responder a uma das principais preocupações do eleitor paulistano, reforçando a narrativa de que sua gestão é “de rua” e “mão na massa”.
Críticos, por outro lado, enxergam na militarização de subprefeituras um risco de redução da dimensão social e participativa da gestão local, com prioridade excessiva para a lógica da ordem e do controle em detrimento de abordagens mais integradas. Entidades de urbanismo e movimentos de direitos humanos têm alertado para a necessidade de que ações no centro histórico combinem segurança com políticas robustas de moradia, saúde mental e inclusão social, sob pena de reproduzir ciclos de remoções, dispersões e retorno de populações vulneráveis.
A confirmação oficial da nomeação de Marcus Vinícius para a Sé deve ocorrer por meio de decreto no Diário Oficial do Município, seguindo o rito já observado em mudanças anteriores. Com a transferência, a subprefeitura da Mooca ficará vaga e passará, nos próximos dias, por novo rearranjo, em um xadrez que envolve não apenas critérios técnicos, mas também acomodações partidárias e regionais.
Entre a pedra e o asfalto, portanto, a escolha do novo subprefeito da Sé sintetiza o momento da maior cidade do país: uma administração que insiste em apostar em perfis de comando vindos da segurança pública para gerir territórios complexos, um centro urbano que continua a ser laboratório de políticas de requalificação e conflito, e um cenário político em que cada nomeação carrega, por trás da caneta, a sombra das urnas que se avizinham.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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