Conceição Evaristo celebra a ‘escrevivência’ na avenida ao ser homenageada pelo Império Serrano

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A Marquês de Sapucaí, palco de sonhos e emoções do Carnaval carioca, transformou-se em um vibrante tributo à literatura e à resistência, na segunda noite de desfiles da Série Ouro do Rio de Janeiro. A escritora Conceição Evaristo, uma das vozes mais potentes e necessárias da literatura brasileira contemporânea, foi a grande homenageada da noite pela escola de samba Império Serrano, que levou para a avenida a riqueza de sua trajetória e a profundidade de sua obra. Emocionada, Conceição refletiu sobre o impacto de ver sua vida e seus escritos ganharem vida em forma de samba, um reconhecimento que transcende o âmbito literário e alcança o coração do povo.

A Força Coletiva da ‘Escrevivência’ no Coração do Carnaval

Para a autora, o momento vivido na Sapucaí simboliza a inegável força coletiva da literatura, especialmente através do conceito que ela mesma cunhou: a ‘escrevivência’. Este termo, que se tornou um pilar fundamental para a compreensão de sua obra e de boa parte da produção literária afro-brasileira, designa uma escrita que nasce da experiência vivida, da memória ancestral e da coletividade. Não se trata de uma mera autobiografia, mas de uma narrativa que, partindo do eu, se projeta no nós, ecoando as vivências e lutas de um povo.

Evaristo destacou a capacidade de a ‘escrevivência’ capturar as pessoas, não apenas como leitores individuais, mas como um sujeito coletivo que se apropria e se reconhece no texto. ‘Eu penso no texto que tenha tanto uma ressonância coletiva como o sujeito coletivo se apropriando desse texto’, afirmou. Essa apropriação coletiva, segundo a escritora, é a essência de sua proposta literária, que busca desindividualizar a experiência e universalizá-la no contexto das comunidades marginalizadas, especialmente as mulheres negras.

Conceição Evaristo: Voz da Resiliência e da Memória

Nascida em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1946, Conceição Evaristo é uma escritora e pesquisadora de renome internacional. Sua obra, que inclui romances, contos, poemas e ensaios, é um mergulho profundo nas realidades e complexidades da experiência negra no Brasil, com um foco especial na mulher negra. Temas como racismo, machismo, resistência, ancestralidade e afetividade são tecidos com maestria em suas narrativas, que desafiam estereótipos e celebram a potência da cultura afro-brasileira. Livros como ‘Ponciá Vicêncio’, ‘Becos da Memória’ e ‘Olhos d’água’ são leituras obrigatórias para quem busca compreender as nuances da sociedade brasileira e a riqueza de sua produção literária.

A escolha de Conceição Evaristo como enredo do Império Serrano não é apenas uma homenagem a uma grande escritora, mas também um ato político e cultural. Em um país onde a literatura produzida por autores negros ainda luta por visibilidade e reconhecimento nos cânones oficiais, levar a obra de Evaristo para a Marquês de Sapucaí é democratizar o acesso a essa potência narrativa e reafirmar a centralidade das vozes negras na construção da identidade nacional. É um convite à reflexão sobre a diversidade e a riqueza de nossa cultura literária, muitas vezes relegada às margens.

A Literatura como Direito: Um Ato de Justiça Social

Um dos pilares do pensamento de Conceição Evaristo é a ideia de que a literatura não deve ser um privilégio de poucos, mas um direito de todos. Ao ver sua obra ecoando em forma de samba, ela ressaltou o caráter profundamente democrático do Carnaval e a concretização desse ideal. ‘Quando a apropriação é coletiva, estamos experimentando uma fala que eu tenho dito sempre: a literatura como direito das pessoas. Todas as classes populares têm o direito à literatura’, pontuou a escritora.

Essa perspectiva desafia a visão elitista que por vezes cerca o universo literário, reafirmando que a arte da palavra tem o poder de informar, inspirar, consolar e empoderar, independentemente da origem social ou econômica do leitor. Ao ser traduzida para a linguagem vibrante e acessível do samba-enredo, a literatura de Conceição Evaristo rompe barreiras, alcançando um público diverso que talvez não tivesse contato com seus livros de outra forma. É a materialização de uma utopia cultural, onde a arte e a cultura são verdadeiramente populares e inclusivas.

Carnaval: Palco de Expressão e Democratização Cultural

O Carnaval, com sua capacidade única de mobilizar multidões e expressar identidades, é o cenário perfeito para a mensagem de Conceição Evaristo. Ao longo da história, as escolas de samba têm sido poderosos veículos de denúncia social, celebração da cultura afro-brasileira e ressignificação de narrativas. Levar a ‘escrevivência’ para a avenida é, portanto, inserir essa potência literária em um dos maiores espetáculos de cultura popular do mundo, garantindo que sua mensagem de resistência, memória e dignidade alcance o percurso mais democrático possível.

A homenagem à Conceição Evaristo pelo Império Serrano não é apenas um feito isolado; ela se insere em um movimento maior de reconhecimento e valorização das vozes plurais que compõem a rica tapeçaria cultural brasileira. Representa um avanço significativo na desconstrução de paradigmas e na construção de um futuro onde a diversidade de pensamento e expressão seja não apenas tolerada, mas celebrada e amplificada em todos os palcos, dos acadêmicos aos mais populares.

A celebração de Conceição Evaristo na Marquês de Sapucaí transcende o evento carnavalesco, tornando-se um marco cultural e social. É a afirmação da relevância da ‘escrevivência’ como ferramenta de compreensão do mundo e de transformação social. É a consagração de uma voz que há décadas ilumina caminhos e inspira gerações, reforçando que a literatura, em sua forma mais autêntica e coletiva, é um direito inalienável de todos. Não perca as próximas notícias sobre cultura, literatura e os desdobramentos do Carnaval. Continue navegando pelo SP Notícias para se manter sempre bem informado e aprofundar-se nos temas que moldam nossa sociedade.

Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br

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