Colégio Marista Glória: “escola com cara de escola”

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Quem se aproxima do Colégio Marista Glória pela Rua Justo Azambuja, no Cambuci, é primeiro arrebatado pela imponência serena de sua fachada neoclássica. O prédio histórico, inaugurado em 1955 graças à doação do terreno pelo médico e industrial Ismael Dias, é daqueles que parecem condensar, na própria arquitetura, a ideia de escola: volumes simétricos, janelas altas, escadarias largas, pátios generosos. Mas basta atravessar o portão para perceber que ali não se trata de um museu da educação nem de um relicário nostálgico; por trás das paredes, pulsa uma escola viva, ruidosa no melhor sentido, repleta de crianças correndo pelos corredores, ocupando as quadras, os campos e uma constelação de espaços pedagógicos cuidadosamente desenhados para uma formação integral.

É o que se poderia chamar, sem medo de anacronismo, de uma “escola com cara de escola”. O som que organiza o cotidiano não é apenas o das notificações de tablets ou dos alto-falantes, mas o do bom e velho sinal, que ecoa pelos andares lembrando tempos em que a Educação era, mais explicitamente, uma prioridade de Estado. Ao toque, a algazarra dos intervalos se recompõe em filas espontâneas; meninos e meninas, nitidamente felizes, recolhem-se às salas com uma disciplina serena, fruto menos do temor à autoridade e mais de uma cultura escolar consolidada em 120 anos de história.

Fundado em 1902 como externato destinado inicialmente aos filhos de operários italianos das redondezas, o então Colégio Nossa Senhora da Glória nasceu Marista e profundamente enraizado na realidade cosmopolita do bairro. A região, marcada pela presença de fábricas e pelo adensamento de imigrantes europeus, sobretudo italianos, demandava uma escola que oferecesse instrução primária de qualidade, mas também referências morais e religiosas sólidas, numa época em que a educação católica era vista como vetor de integração social.

Desde o início, os Irmãos Maristas assumiram esse desiderato com a marca que atravessa a congregação desde São Marcelino Champagnat: educar “bons cristãos e virtuosos cidadãos”, sob o espírito de família, simplicidade, amor ao trabalho, solidariedade, presença e espiritualidade. Ao longo das décadas, o colégio cresceu, deixou de ser apenas um externato masculino, ampliou etapas de ensino e incorporou novas linguagens pedagógicas. A vocação de acolhida, contudo, não se diluiu: o Glória, como é conhecido, passou a receber crianças de famílias de diversas origens, europeias, asiáticas, árabes, latino-americanas, espelhando, dentro de seus 20 mil metros quadrados de área, a diversidade de uma cidade que se tornava, ela própria, cada vez mais global.

Essa dimensão internacionalista, hoje, se traduz tanto na riqueza de repertórios culturais que circulam pelos pátios quanto em projetos que extrapolam a sala de aula. Programas bilíngues, iniciativas de intercâmbio, participação em redes internacionais de colégios maristas e eventos voltados à interculturalidade fazem parte de um projeto pedagógico que se assume contemporâneo sem abdicar da tradição. Não por acaso, em 2022 o colégio celebrou 120 anos com um documentário que revisita sua trajetória pela voz de alunos, ex-alunos e colaboradores, evidenciando como a presença marista extrapolou os muros e impregnou a vizinhança de valores educacionais.

No cotidiano, essa síntese entre passado e futuro se materializa em espaços que vão muito além das salas convencionais. A capela, de linhas clássicas, continua a ser um eixo de espiritualidade e encontros comunitários, enquanto a sala pastoral oferece ambiente acolhedor para rodas de conversa, grupos de reflexão e ações solidárias. A sala maker, por sua vez, é o símbolo mais evidente da incorporação da cultura STEAM: ali, impressoras 3D, kits de robótica, ferramentas de prototipagem e materiais diversos convidam estudantes a experimentar, errar e criar, cruzando matemática, ciências, arte e tecnologia em projetos concretos.

Sob o olhar atento da diretora Claudia Ayres Paschoalin, o colégio parece ter reforçado a convicção de que nenhuma infraestrutura, por mais imponente, substitui as relações humanas como núcleo da experiência educativa. Diretora geral do Marista Glória desde 2021, Claudia tem trajetória de mais de quatro décadas na educação básica, com graduação em Pedagogia, especializações em psicopedagogia, neuroaprendizagem e gestão escolar, e uma longa carreira dentro do próprio colégio nas funções de professora, coordenadora psicopedagógica e gestora. Em registros públicos e homenagens institucionais, é descrita como liderança humanizada, que valoriza o diálogo, a escuta ativa e a construção de vínculos significativos entre alunos, famílias e educadores.

Essa liderança se reflete em movimentos pouco triviais na educação básica brasileira. Professores com sólida titulação acadêmica e carreiras promissoras no ensino superior têm optado por migrar da universidade para o Marista Glória, atraídos por um projeto pedagógico que lhes oferece condições de desenvolver trabalho autoral, com profundidade conceitual e acompanhamento próximo dos estudantes. É um fluxo inverso ao mais comum, que costuma ver docentes saindo da escola rumo à academia, e sinaliza que o colégio tem conseguido oferecer, na prática, aquilo que tantas instituições proclamam em discurso: a compreensão da educação como missão, e não apenas como negócio.

Entre as iniciativas que exemplificam essa ambição está o GERD, o Grupo de Estudos, Reflexão e Difusão da Matemática. Concebido como espaço de aprofundamento em nível avançado, o grupo reúne alunos interessados em ir além da base curricular, promovendo encontros regulares para discutir problemas desafiadores, explorar temas de fronteira e preparar-se para olimpíadas científicas. Mais do que um clube de exatas, o GERD funciona como laboratório de pensamento crítico, em que jovens são instigados a argumentar, justificar raciocínios, dialogar com diferentes métodos de resolução e compartilhar descobertas com colegas, em um processo de difusão horizontal do conhecimento.

Essa vocação para ampliar o horizonte de estudos para além da sala tradicional se manifesta também em projetos interdisciplinares, feiras científicas, mostras culturais e ações de extensão que ocupam pátios, quadras e até o entorno do colégio. O resultado, aos olhos de quem observa, é a sensação de que o Marista Glória é um organismo em permanente movimento, em que o concreto é literalmente o suporte, paredes, pisos, quadras, estruturas, e o afeto é a matéria que circula pelos corredores. Alunos chamam professores pelo nome, funcionários são conhecidos e reconhecidos pelas famílias, e ex-alunos retornam com frequência para visitar antigos mestres ou matricular os próprios filhos, perpetuando a máxima marista de que “ex‑aluno, sim; ex-Marista, nunca”.

Essa frase, tão repetida nos colégios da congregação, ganha contornos específicos no Glória, onde a memória dos imigrantes italianos que buscaram ali uma educação que conciliasse rigor acadêmico e formação moral se combina com a imagem de uma escola que, no século XXI, abraça crianças de famílias árabes, asiáticas, latino-americanas e brasileiras de diferentes origens socioeconômicas. É como se o colégio, em sua estrutura de “gigante armado”, para usar a expressão de um observador atento, oferecesse não um abrigo neutro, mas um abraço ativo: firme nos princípios, flexível nas linguagens, aberto para o mundo.

Em tempos de inquietação com os rumos da educação no país, a cena de uma escola de tradição centenária em que o sinal ainda toca, os alunos ainda correm, as famílias ainda se reconhecem e um grupo de educadores, da diretora aos professores mais jovens, insiste em tratar o ato de ensinar como missão talvez explique por que o Colégio Marista Glória segue, mais de 120 anos depois, tão presente na paisagem afetiva de São Paulo quanto em sua paisagem urbana.

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