Carnaval, Veneza e Fé

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Há algo de profundamente humano no Carnaval. E há algo de profundamente cristão também ainda que muitos já não percebam.

O mundo veste cores, o som ocupa as ruas, os corpos dançam como se o tempo tivesse suspendido sua gravidade. Mas o que poucos recordam é que essa explosão de vida nasce, curiosamente, da liturgia. O Carnaval não surge à margem da Igreja mas nasce do seu calendário.

“Carne vale – Adeus à carne”

Antes do silêncio, o canto.Antes do jejum, a mesa farta.Antes das cinzas, o ouro.

O Cristianismo sempre compreendeu o coração humano: não somos feitos apenas de penitência, mas também de celebração. O Carnaval é a última respiração intensa antes da travessia do que chamamos de quaresma. É o suspiro alto antes do recolhimento. Não é oposição à fé, é um prelúdio.

E se existe um lugar onde essa tensão entre brilho e transcendência ganhou forma estética sublime, é na cidade de Veneza.

No inverno úmido da laguna, surgem figuras de seda, veludo e mistério. Máscaras brancas, douradas, alongadas. Olhos ocultos. Identidades suspensas. Desde a Idade Média, o Carnaval veneziano floresce às vésperas da Quaresma, como um teatro que antecede o deserto espiritual.

A máscara, ali, não é apenas ornamento.É símbolo. Ela iguala nobres e plebeus.Apaga títulos. Silencia nomes.

Mas também revela algo mais profundo: o ser humano sempre esconde o rosto. Escondemos fragilidades, culpas, desejos, medos. Criamos personagens para sobreviver socialmente. Em Veneza, isso se tornou arte. Na vida, tornou-se hábito.

Talvez por isso o calendário cristão seja tão pedagógico. Depois do brilho, vêm as cinzas. Depois do anonimato da máscara, a verdade do próprio nome pronunciado diante de Deus. A Quarta-feira de Cinzas rompe o teatro: “lembra-te de que ao pó voltarás”.

Nenhuma fantasia resiste a essa frase.O Carnaval, então, deixa de ser apenas festa e torna-se metáfora. Celebramos porque somos vivos.Mas recolhemo-nos porque somos finitos.

Veneza compreendeu isso com rara beleza: suas máscaras são exuberantes, mas seus canais silenciosos lembram constantemente a fragilidade do tempo. A cidade que flutua sobre a água sabe que tudo é transitório. E talvez esteja aí o segredo. O Carnaval não é a negação da espiritualidade. É a sua moldura humana.

Celebrar, para depois silenciar. Brilhar, para depois refletir. Vestir a máscara, para depois ter coragem de retirá-la.

Entre o ouro veneziano e as cinzas da Quaresma existe um caminho profundamente cristão: reconhecer que somos feitos de festa e de pó, e que ambos nos conduzem ao mistério da Páscoa.

No fim, a máscara cai e o que permanece não é o brilho, mas o rosto.

“Soto la maschera, resta l’anima” – (sob a máscara, permanece a alma)

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