Carnaval do Rio pulsa em ritmo latino com homenagens a Bad Bunny e Shakira nos blocos de rua

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O tradicional carnaval de rua do Rio de Janeiro, conhecido por sua exuberância e diversidade, ganhou neste ano um sotaque marcadamente latino, transformando as avenidas e orlas cariocas em um vibrante caldeirão cultural. Longe de ser apenas uma trilha sonora, a latinidade emergiu como um pilar de identidade e, em muitos momentos, de manifestação política. Foliões, embalados pela energia contagiante da festa, exibiram bandeiras de nações sul-americanas, dançaram ao ritmo do reggaeton e prestaram homenagens efusivas a ícones da música pop latina, como Bad Bunny e Shakira.

Esta edição do carnaval registrou um recorde no número de turistas, com uma presença massiva de visitantes latino-americanos. Cidadãos da Argentina, Chile e Colômbia, em particular, figuraram entre os estrangeiros mais numerosos, injetando na folia um espírito de união continental. A convergência de diferentes culturas e a partilha de um mesmo ‘sazón’ latino ressaltaram a capacidade do carnaval carioca de transcender fronteiras geográficas e linguísticas, consolidando-se como um espaço de celebração da riqueza cultural das Américas.

A Força da Identidade Latina e a Expressão Política nos Blocos

Mais do que um simples desfile de fantasias e serpentinas, os blocos de rua do Rio se tornaram plataformas para a exaltação da cultura latino-americana e para importantes debates geopolíticos. O Bloco Virtual, que completou 26 anos de existência, exemplificou essa tendência ao levar para o Posto 1 do Leme o enredo “América Invertida”, com o potente lema “Sul é o nosso Norte”. Essa frase, inspirada no mapa invertido do artista uruguaio Joaquín Torres García, simboliza a valorização da perspectiva e da identidade própria da América Latina, desafiando a hegemonia de visões eurocêntricas ou norte-americanas.

O cortejo do Bloco Virtual, que reuniu cerca de 4 mil pessoas, reverberou um discurso que defende a união e a autonomia da América Latina no cenário global contemporâneo. Este tema ganhou especial relevância após a apresentação de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl, um dos eventos televisivos mais assistidos do mundo. Na ocasião, o artista porto-riquenho encerrou sua performance com um contundente discurso político, exaltando uma América unida, citando países sul-americanos e criticando abertamente as políticas anti-imigração do ex-presidente Donald Trump.

Música como Ferramenta de Resistência e o Impacto de Bad Bunny

A atitude de Bad Bunny ressoou profundamente entre os foliões e intelectuais. Rafael Cazé, professor de jornalismo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e que homenageou o artista no bloco Laranjada, descreveu a apresentação como um ‘tapa na cara de todo aquele fascismo disfarçado de democracia que está acontecendo hoje nos Estados Unidos’. Para o professor, a música sempre foi uma ferramenta histórica fundamental de resistência, capaz de expor e questionar injustiças, como ocorreu no Brasil durante a ditadura militar.

Bad Bunny, com sua mistura de reggaeton e trap latino, transcende o entretenimento ao incorporar mensagens sociais e políticas em sua arte, defendendo causas como a igualdade LGBTQIA+, a valorização da cultura porto-riquenha e a denúncia de problemas sociais. Sua ascensão meteórica e sua postura engajada o tornaram um símbolo de poder e representatividade para a juventude latina, ecoando em fantasias e cânticos pelas ruas cariocas.

Fantasias Temáticas e a Antecipação para o Show de Shakira

As homenagens aos artistas latinos não se limitaram a menções abstratas; materializaram-se em criativas fantasias que celebravam a música e a iconografia desses ícones. No Flamengo, o casal de advogados Talita Nunes e Leonardo Rosito, ambos de 39 anos, desfilou no bloco Amigos da Onça com figurinos inspirados no álbum “Debí Tirar Más Fotos”, de Bad Bunny. Enquanto Talita, fã devota, recriou manualmente elementos da identidade visual do disco, Leonardo vestiu uma fantasia com uma câmera fotográfica pendurada no pescoço, em clara alusão ao trabalho do artista.

De forma similar, Rafael Vidal, de 27 anos, que se declarou fã do reggaeton após uma viagem pela América do Sul em 2019, exibiu uma placa com o nome do álbum na dispersão do MultiBloco, no Centro. Essas manifestações demonstram como a cultura pop latina, e a figura de Bad Bunny em particular, se tornaram elementos centrais na expressão individual e coletiva dos foliões.

Além da forte presença porto-riquenha, a influência colombiana também ganhou destaque, impulsionada pela grande expectativa em torno do show gratuito de Shakira, previsto para maio em Copacabana, como parte do projeto “Todo Mundo no Rio”. Fãs da cantora já circulavam pelos blocos com camisetas e bandeiras de seu país de origem, antecipando o que promete ser um dos maiores eventos musicais do ano na cidade e um novo reforço da conexão latino-americana com a capital fluminense.

A Confraternização de Sotaques e o Calor Humano da Folia

Pelas ruas do Centro ao Leme, entre um bloco e outro, a mistura de sotaques era palpável. Espanhol, português e um “portunhol” improvisado criavam uma sinfonia linguística, permeada por risadas compartilhadas. Argentinos, chilenos, colombianos e brasileiros dividiam cervejas, cantavam refrões de reggaeton e sambavam juntos, estabelecendo uma folia sem fronteiras onde as diferenças de idioma se dissolviam na energia coletiva e no calor humano.

A chilena Anelí Carvalho, de 26 anos, residente no Rio, resumiu com precisão o espírito que tomou conta da cidade: “A América é única e tem muitas culturas que se somam. Eu fico feliz em representar um pouco disso pulando e brincando o carnaval. É maravilhoso.” Essa fala encapsula a essência de um carnaval que, mais do que nunca, celebrou a diversidade cultural e a profunda conexão entre os povos do continente.

Desafios Climáticos e a Organização dos Blocos

O calor intenso, uma constante nos verões cariocas, impôs desafios adicionais à organização dos blocos. Para garantir o bem-estar dos foliões, o Bloco Virtual, por exemplo, antecipou seu cortejo e acionou um carro-pipa, que se tornou uma das maiores atrações ao refrescar a multidão com jatos d’água. Essas adaptações logísticas demonstram a preocupação dos organizadores em proporcionar um ambiente seguro e agradável, contribuindo para o clima de tranquilidade que marcou a festa, com a presença de famílias e crianças fantasiadas desfrutando da folia.

Neste carnaval, os blocos cariocas transcenderam a mera celebração festiva. Eles se configuraram como um espaço multifacetado onde a cultura pop latina se encontrou com o samba, onde a alegria contagiante da folia se misturou com discursos políticos e onde a confraternização entre diferentes nacionalidades forjou um forte senso de identidade regional. A latinidade não foi apenas uma trilha sonora, mas um posicionamento cultural e social que ressaltou a riqueza e a complexidade da América, unindo os povos em um ritmo único e vibrante.

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Fonte: https://oglobo.globo.com

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