

À luz trêmula de centenas de velas, o Teatro Gamaro transformou a noite de ontem, 20 de fevereiro de 2026, num raro exercício de suspensão do tempo no coração da Mooca. O mais recente espetáculo da série Candlelight, que vem ocupando de forma recorrente a casa da Rua Dr. Almeida Lima, consolidou a vocação do espaço como um dos palcos paulistanos mais adequados a essa proposta estética específica: música ao vivo, repertórios populares ou eruditos revisitados, e um ambiente imersivo cuidadosamente desenhado, em que a iluminação não é mero ornamento, mas parte constitutiva da narrativa sensorial.
Antes mesmo do primeiro acorde, chamava atenção a organização meticulosa da casa. A equipe do teatro, em perfeita sintonia com o padrão operacional exigido pelos concertos Candlelight, conduzia o público por fluxos bem definidos, evitando filas prolongadas e aglomerações desnecessárias, sem sacrificar a gentileza no trato. Havia um equilíbrio pouco comum entre eficiência logística e acolhimento quase doméstico, perceptível na clareza das sinalizações, na postura atenta dos orientadores de público e na pontualidade britânica com que se respeitaram horários de abertura de portas e início da apresentação, algo que a própria curadoria dos concertos considera parte essencial da experiência.
A atmosfera, entretanto, não se esgotava na cenografia luminosa. Nos foyer e espaços de convivência, a gastronomia local desempenhava papel de coadjuvante de luxo. Com forte inspiração italiana, em sintonia com a memória cultural da Mooca, foram oferecidos aos espectadores canoles delicados, trazendo à cena um dos ícones mais emblemáticos da patisseria da península, e espumantes de perfil aromático e gustativo alinhado à tradição dos vinhos doces e levemente frisantes, evocando o clássico Moscato, conhecido pelo perfume sutil e pelo paladar suave. Não se tratava de um simples serviço de bar, mas de uma extensão coerente da proposta: se o palco evocava um tempo outro, de intimidade e delicadeza, o que se comia e bebia reforçava, nos interstícios da apresentação, um imaginário mediterrâneo filtrado pela experiência ítalo‑paulistana.
Para compreender o alcance simbólico de uma noite como essa, convém voltar alguns passos e olhar para a própria ideia de Candlelight. Concebida como uma série global de concertos à luz de velas, a iniciativa busca oferecer uma experiência musical ao vivo em ambientes escolhidos tanto pela qualidade acústica quanto pelo valor arquitetônico e histórico, criando um diálogo entre repertório e lugar. Em São Paulo, a série ocupa igrejas, museus, teatros e centros culturais, sempre com a mesma gramática: plateias intimistas, iluminação cálida, duração enxuta e curadorias que transitam de Vivaldi a trilhas sonoras cinematográficas, de Mozart a tributos a bandas de rock e pop contemporâneo, aproximando públicos que talvez não frequentassem, espontaneamente, uma temporada sinfônica convencional. Ontem, por exemplo, a temática da performance circunscreveu-se ao ecossistema “The Beatles”, com uma visita extensa ao repertório da banda inglesa, merecendo destaque as clássicas “Yesterday” e “Hey Jude”, que arracaram aplausos efusivos do público.
Não é por acaso que o Teatro Gamaro se converteu em um dos endereços favoritos dessa programação. Propriedade do Grupo Gamaro, a casa foi erguida aproveitando a histórica construção da antiga fábrica da Alpargatas, na Mooca, em projeto assinado por Vicente Giffoni e Deise Araújo. O espaço combina infraestrutura moderna, condições técnicas adequadas e uma arquitetura que favorece a sensação de proximidade entre músicos e espectadores. Fica nítida percepção do caráter “histórico” e “clássico” do local, cuja acústica favorece a nitidez dos detalhes instrumentais, Além da estrutura icônica, é imprescindível destacar o fantástico time que faz tudo acontecer. Sob o comando de Humberto Aliperti, jornalista, chefe de cozinha e representante de organizações internacionais, o teatro é ímpar no panorama cultural paulistano. Em um cenário assim, a proposta Candlelight encontra seu habitat natural, fazendo do Gamaro não apenas um local de passagem, mas um verdadeiro laboratório para a reinvenção da escuta em tempos de dispersão digital, pemitindo a transformação de cada nota em elemento palpável na penumbra pontilhada de chamas.
O bairro que abriga essa experiência, por sua vez, empresta à noite um pano de fundo que não é meramente geográfico. A Mooca carrega em suas ruas a memória da imigração italiana e de outras correntes europeias e leste‑europeias que, a partir do fim do século XIX, transformaram antigas sesmarias em território industrial, operário e intensamente comunitário. Fábricas de tecidos, papel e sabão moldaram a paisagem, enquanto vilas operárias e sobrados se espalhavam em torno de linhas férreas e chaminés. A presença maciça de italianos deixou marcas profundas: na fala, na culinária, nas festas religiosas, no futebol de várzea, na devoção ao Clube Atlético Juventus e em uma certa maneira de viver o espaço urbano, em que a rua é extensão da casa e a vizinhança é mais do que simples dado cadastral.
É justamente nesse chão de memória que um concerto à luz de velas, acompanhado de canoles e espumante Moscato, adquire uma camada adicional de sentido. A gastronomia oferecida na noite de ontem não era apenas um detalhe agradável: funcionava como ponte entre a experiência estética proposta pelo espetáculo e a identidade cultural do entorno. Ao provar um doce típico da tradição siciliana ou um espumante de perfis aromáticos afins aos vinhos da Itália setentrional, o espectador era, ainda que de modo difuso, reconectado a uma história de migrações, trabalho e resistência que ajudou a erguer a cidade e, em especial, aquele pedaço de zona leste.
Ao longo do concerto, a organização do teatro se mantinha quase invisível e, justamente por isso, exemplar. A entrada escalonada, a sinalização clara de assentos, o respeito absoluto ao fechamento das portas no horário previsto e a ausência de ruídos operacionais permitiam que a música ocupasse, sem rivais, o centro da atenção. Em tempos de eventos ruidosos, de celulares em permanente vigilância e de dispersão generalizada, esse pacto tácito entre casa, artistas e público por uma hora de concentração compartilhada é quase tão raro quanto a própria visão de um mar de velas em plena metrópole.
Se a série Candlelight se tornou, nos últimos anos, um fenômeno global justamente por reencantar a experiência do concerto ao vivo com um componente cenográfico forte, no Teatro Gamaro ela encontra uma cumplicidade ainda maior. A arquitetura da sala, a escala adequada, a localização em um bairro de forte densidade simbólica e a aposta numa hospitalidade que integra música, iluminação e gastronomia fazem da noite de 20 de fevereiro de 2026 algo mais do que uma data na agenda cultural. Ao sair, o público levava consigo não só o eco das melodias performadas na penumbra, mas a sensação de ter habitado, por alguns instantes, uma cidade capaz de harmonizar tradição e contemporaneidade, memória operária e sofisticação estética, canole e quarteto de cordas, Moscato e Mooca.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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