Brasil tem 500 mil vagas abertas em bares e restaurantes

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O setor de bares e restaurantes no Brasil atravessa um momento paradoxal de exuberância econômica e escassez crônica de mão de obra qualificada. Com aproximadamente quinhentas mil vagas abertas em todo o território nacional, o segmento enfrenta dificuldades crescentes para preencher postos essenciais, o que pressiona salários, eleva custos operacionais e força empreendedores a adotarem estratégias inovadoras de retenção e capacitação. Essa realidade, confirmada por lideranças do ramo como Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, reflete não apenas uma recuperação vigorosa pós-pandemia, mas também os limites estruturais do mercado de trabalho em um país marcado por desigualdades educacionais e migrações regionais.

De acordo com dados recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o salário médio no setor de alimentação fora do lar atingiu R$ 2.328 no último trimestre de 2025, registrando elevação de 5,7% em relação ao período anterior. Essa alta salarial, a mais expressiva entre os segmentos analisados, decorre diretamente da pressão por atrair profissionais para funções como garçom, cozinheiro, sushiman e gestor de operações, áreas em que 88% das empresas relatam entraves severos para recrutamento. Solmucci enfatiza que o problema transcende o atendimento básico e se agrava em posições de maior qualificação, onde a demanda por habilidades técnicas e experiência se choca com a oferta limitada de candidatos preparados.

O fenômeno ganha contornos ainda mais nítidos ao considerar o contexto macroeconômico. O setor, que emprega cerca de 5,74 milhões de pessoas, o maior contingente da série histórica iniciada em 2016, representa um motor crucial da geração de renda em um país onde o desemprego estrutural persiste como sombra. Em 2024, os bares e restaurantes criaram 230 mil novas vagas, com crescimento de 4,2%, superando amplamente a média nacional de 0,8%. Para 2026, projeções da Associação Nacional de Restaurantes indicam saldo positivo em 22 estados, com perspectivas de expansão mesmo em cenários de inflação e endividamento empresarial. No entanto, a taxa de efetivação de contratações temporárias, como as estimadas em 27,9 mil vagas para o Carnaval deste ano, mal chega a 11%, inferior aos 16% de 2025, sinalizando rotatividade elevada e instabilidade.

Essa discrepância entre oferta de empregos e procura de trabalhadores obedece a múltiplos fatores. A informalidade histórica do ramo, aliada à baixa atratividade percebida por gerações mais jovens – que veem no setor longas jornadas e remunerações iniciais modestas –, contribui para o descompasso. Regiões como a Metropolitana de Campinas, com 12 mil vagas abertas em 2025 (20% a mais que no ano anterior), exemplificam o drama local: empreendedores relatam filas vazias em processos seletivos e recorrem a anúncios em redes sociais para captar talentos dispersos. Em São Paulo e Rio de Janeiro, polos de alta densidade de estabelecimentos, o saldo de contratações em junho de 2025 superou 2.800 postos, mas com retrações em estados como Santa Catarina.

Empresários respondem à crise com medidas pragmáticas. A elevação de pisos salariais iniciais, observada nos últimos cinco trimestres, torna o setor um dos que mais ajustam remunerações para competir com indústrias como varejo e logística. Iniciativas de capacitação, como cursos rápidos oferecidos pela Abrasel em parceria com instituições técnicas, visam suprir a lacuna de qualificação, focando em higiene, técnicas culinárias e atendimento ao cliente. Há, ainda, a adoção de modelos híbridos de trabalho, incluindo contratos intermitentes e parcerias com plataformas digitais de delivery, que absorvem parte da demanda sazonal sem comprometer a estrutura fixa. No entanto, Solmucci alerta para os riscos de um ambiente de pleno emprego: sem mão de obra sobrando, o setor opera no limite, vulnerável a ausências e à concorrência por profissionais versáteis.

O debate regulatório adiciona camadas de complexidade. A recente discussão sobre o fim da escala 6×1, comum no ramo, ameaça elevar custos operacionais em até 20%, segundo estimativas da Abrasel, o que poderia repercutir em reajustes de cardápios e retração de investimentos. Empresários defendem a desoneração da folha de pagamento e o fortalecimento do trabalho intermitente como antídotos para sustentar o crescimento sem sacrificar a rentabilidade. Enquanto isso, o Ministério do Trabalho registra aberturas mensais expressivas, como os 4.545 postos criados em junho de 2025 nos restaurantes, concentrados em 22 unidades federativas.

Do ponto de vista social, as quinhentas mil vagas representam uma oportunidade ímpar para inclusão produtiva, especialmente em periferias urbanas e regiões Norte e Nordeste, onde o setor impulsiona economias locais. Mulheres e jovens, que compõem boa parte da força de trabalho, beneficiam-se de ascensões rápidas em ambientes meritocráticos, embora persistam desafios como assédio e condições precárias em estabelecimentos menores. Políticas públicas de qualificação profissional, ampliadas pelo Pronatec e programas estaduais, poderiam mitigar o gargalo, alinhando formação ao perfil demandado pelo mercado.

Em um horizonte de curto prazo, o otimismo prevalece. O setor demonstra resiliência, com saldos positivos mesmo em trimestres desafiadores, como o de maio de 2025, quando 1.645 vagas foram geradas – 661% a mais que em 2024. Para 2026, expectativas de crescimento sustentado dependem de equilíbrio entre expansão e estabilidade laboral. No entanto, sem reformas que incentivem a permanência e a capacitação, o paradoxo das vagas ociosas pode se perpetuar, freando o potencial de um ramo que não só alimenta o corpo da nação, mas também sustenta sua vitalidade econômica em tempos de incerteza.

Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
HostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

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