Brasil reposiciona a pesquisa como eixo estratégico do desenvolvimento em 2026

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Em um cenário global marcado por guerras, transição energética acelerada e corrida tecnológica sem precedentes, o Brasil chega a 2026 com um movimento raro em sua história republicana recente: a ciência volta a ocupar o centro declarado do projeto nacional de desenvolvimento, com orçamento recorde, programas estruturantes e uma narrativa pública que recoloca a pesquisa, a inovação e a tecnologia como instrumentos de soberania e não como luxos acadêmicos periféricos. Essa inflexão, longe de ser apenas retórica, se traduz em números concretos e em iniciativas que começam a redesenhar o ecossistema de produção de conhecimento no país.

Entre 2023 e 2025, o orçamento federal executado em ciência e tecnologia atingiu uma média anual em torno de R$ 10 bilhões, somando aproximadamente R$ 30 bilhões em três anos, em contraste com o ciclo de fuga de capital que marcou a década anterior. Esse montante foi direcionado à recomposição de agências como CNPq e Capes, à recuperação da infraestrutura de pesquisa de universidades e institutos federais, ao fortalecimento da Finep como braço de crédito tecnológico e à criação de novos programas de fomento orientados por missões, especialmente nos campos de transição energética, inteligência artificial e saúde.

Em 2025, essa estratégia ganhou contornos ainda mais definidos com o lançamento do chamado “PAC da Ciência”, um bloco de investimentos inserido no Novo PAC, que destina mais de R$ 12 bilhões à expansão e modernização da infraestrutura científica, desde aceleradores de partículas e centros de pesquisa nuclear até laboratórios de biotecnologia, redes de observação climática, centros de computação de alto desempenho e plataformas de IA de interesse público. Trata-se de uma engenharia orçamentária que procura articular, sob o guarda‑chuva estatal, iniciativas dispersas, estabelecendo prioridades e metas de impacto socioeconômico mensurável.

Um dos projetos mais emblemáticos desse ciclo é o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), destinado a revolucionar a capacidade nacional em pesquisa nuclear aplicada à saúde, à indústria e ao meio ambiente. Mais do que um equipamento sofisticado, o RMB simboliza uma mudança de postura: ao investir em infraestrutura complexa e de longo prazo, o Brasil afirma a intenção de não permanecer dependente de insumos importados estratégicos, como radioisótopos médicos, nem de serviços tecnológicos de alto valor agregado. É um passo decisivo na direção daquela soberania tecnológica tantas vezes proclamada, mas raramente perseguida com coerência.

Nesse mesmo contexto, o país lançou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), com previsão de R$ 23 bilhões em investimentos ao longo de quatro anos, com foco na aplicação da IA em políticas públicas, sobretudo nas áreas de saúde, educação, segurança e gestão ambiental. A opção por enfatizar o uso público da IA, sem ignorar seu potencial na iniciativa privada, indica um entendimento de que a tecnologia não deve ser deixada exclusivamente à lógica do mercado, mas inserida em um projeto de Estado que respeite soberania de dados, transparência algorítmica e inclusão digital.

No plano institucional, a retomada do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CCT) como instância de alto nível para aconselhar a Presidência da República sinaliza a vontade de integrar a inteligência da comunidade científica aos processos decisórios estratégicos. Em reuniões recentes, o CCT discutiu temas que vão da regulação da inteligência artificial à bioeconomia amazônica, passando por semicondutores, fármacos, transição energética e resiliência urbana frente às mudanças climáticas. Trata‑se de recolocar a ciência não apenas como demandante de recursos, mas como parceira do Estado na formulação de políticas de longo alcance.

Em 2026, essa agenda encontra ressonância no Congresso Nacional, onde comissões temáticas discutem projetos de lei sobre IA, proteção de dados, marco regulatório de startups de base científica, financiamento de inovação e incentivos fiscais à pesquisa e desenvolvimento. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) atua em articulação com o Legislativo para evitar tanto o vácuo normativo, que favorece abusos corporativos e riscos à privacidade, quanto o excesso de regulação que possa sufocar a experimentação e o empreendedorismo.

No plano macroeconômico, os números dão respaldo à tese de que ciência e inovação não são ornamentos: o Produto Interno Bruto brasileiro cresceu 3,4% em 2025, com destaque para a indústria de transformação, que avançou 3,8%, e, dentro dela, os segmentos de alta tecnologia, que cresceram acima de 6%. Em paralelo, análises independentes sugerem que a consolidação de polos tecnológicos e o incremento de produtividade associados à digitalização e à automação foram fatores relevantes para a resiliência da economia diante de choques externos, como a escalada dos preços de energia causada pela guerra no Irã e por tensões no Estreito de Ormuz.globo+3

O ambiente, porém, está longe de ser homogêneo ou isento de desafios. A despeito dos investimentos federais, o esforço brasileiro em P&D ainda gravita em torno de 1,2% do PIB, abaixo dos patamares de países da OCDE e distante da meta de 2% historicamente mencionada por especialistas. Além disso, a execução dos recursos enfrenta entraves burocráticos, atrasos em liberações e dificuldades de absorção por parte de algumas instituições, sobretudo nas regiões menos estruturadas. Há também o desafio de reduzir a assimetria entre grandes centros de excelência, concentrados em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, e universidades e institutos das regiões Norte e Nordeste, que ainda lutam por infraestrutura básica de pesquisa.

Outro ponto sensível é a relação entre ciência e sociedade em um país que, nos últimos anos, experimentou campanhas de desinformação, negacionismo climático e ceticismo em relação a vacinas. Reposicionar a ciência como eixo de desenvolvimento implica, necessariamente, reconstruir laços de confiança entre academia, governo e população. Isso passa por políticas de popularização da ciência, comunicação institucional qualificada, educação básica robusta em ciências e matemática, além de mecanismos de participação social em agendas tecnológicas sensíveis, como a edição genética, a vigilância digital, o uso de dados biométricos e a automação no trabalho.

No horizonte próximo, tendências globais como o uso de IA na descoberta de medicamentos, a medicina personalizada, a agricultura de precisão e as energias renováveis reforçam o caráter estratégico das decisões tomadas agora. Países que conseguirem articular pesquisa básica robusta, ambiente regulatório inteligente e instrumentos eficazes de transferência de tecnologia estarão mais bem posicionados diante de um mundo em que cadeias de valor se reorganizam rapidamente. Nesse cenário, o Brasil de 2026 se encontra em encruzilhada: ou consolida a ciência como política de Estado duradoura, blindada de oscilações eleitorais, ou corre o risco de repetir ciclos de entusiasmo e abandono que marcam sua história.

Para além de números e planos, há também uma dimensão simbólica em jogo. Ao investir pesadamente em ciência e tecnologia, o país envia uma mensagem interna e externa: escolhe confiar em sua capacidade intelectual, em seus pesquisadores, em suas universidades, em seus institutos tecnológicos. Assume que seu futuro não pode ser apenas o de exportador de commodities primárias e importador de soluções prontas, mas o de produtor de conhecimento capaz de responder a seus próprios dilemas estruturais, da desigualdade social à crise climática, da saúde pública às cidades sob risco de desastres.

Nesse sentido, 2026 pode ser lembrado, no futuro, como um ano‑chave de virada institucional, se o país for capaz de manter, ampliar e qualificar esse esforço, mesmo diante de pressões fiscais, choques geopolíticos e transições políticas inevitáveis. A tarefa é árdua, mas o potencial é imenso: a combinação de biodiversidade única, base industrial diversificada, sistema universitário capilarizado e juventude conectada coloca o Brasil em posição privilegiada, desde que saiba transformar oportunidades difusas em projetos concretos, sustentáveis e inclusivos.

Em um mundo em que informação e análise qualificada se tornam bens escassos, acompanhar criticamente os desdobramentos dessa agenda científica e tecnológica é essencial para qualquer cidadão, profissional ou empreendedor que deseje compreender para onde o país caminha. Por isso, a HostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo se propõe a oferecer cobertura aprofundada, erudita e ao mesmo tempo acessível, dos movimentos que redefinem o lugar do Brasil na economia do conhecimento. Ao percorrer as páginas desta e de outras reportagens, o leitor é convidado não apenas a informar‑se, mas a participar, com lucidez e espírito crítico, do debate sobre o futuro que estamos construindo agora.

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Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
HostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

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