Blocos tradicionais voltam à avenida Chile e celebram o carnaval popular no Rio

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O coração pulsante do carnaval carioca ressurge com força e tradição na icônica avenida Chile, no Centro do Rio de Janeiro. Longe dos holofotes do Sambódromo e da efervescência massiva dos megablocos que dominam as redes sociais, cerca de 20 agremiações de blocos de embalo, majoritariamente originários da Zona Norte, retornam a este palco histórico para manter viva uma das mais autênticas e enraizadas expressões da folia popular. Ao longo de três dias, este circuito vibrante transforma a via em um caldeirão cultural, onde o samba-enredo, a batucada fervorosa e a alegria contagiante das alas, formadas por moradores de todas as gerações, se unem em uma celebração coletiva que transcende o simples festejar, reafirmando o carnaval como um pilar da identidade carioca.

A Tradição Pulsante dos Blocos de Embalo

Os blocos que ocupam a avenida Chile são conhecidos como ‘blocos de embalo’, uma categoria que se distingue significativamente das escolas de samba competitivas e dos megablocos patrocinados. Caracterizados pela espontaneidade, pela forte ligação comunitária e pela ausência de caráter competitivo, esses grupos são a essência do carnaval de rua mais genuíno. Eles representam a face popular da festa, onde o objetivo principal é a celebração descompromissada, a confraternização entre vizinhos e a transmissão de um legado cultural que muitas vezes remonta a décadas, ou até séculos, de história carnavalesca na cidade. Seus desfiles são uma ode à simplicidade e à força da união, contrastando com a grandiosidade espetacular do Sambódromo, mas igualmente ricos em significado e emoção.

A origem desses blocos remonta ao início do século XX, quando grupos de amigos e vizinhos se reuniam em seus bairros para desfilar com suas próprias músicas e fantasias, em um movimento que precede a profissionalização do carnaval. Eles são guardiões de ritmos e tradições, com baterias que carregam a alma do samba e alas que refletem a diversidade e a paixão de suas comunidades. Essa autenticidade é o que atrai um público fiel, estimado em cerca de 20 mil pessoas por dia, que busca no carnaval da avenida Chile uma experiência mais íntima, calorosa e profundamente enraizada na cultura local, longe das multidões anônimas e da comercialização excessiva.

Avenida Chile: Um Palco Histórico para a Cultura Popular

A escolha da avenida Chile como palco para esses desfiles não é meramente logística, mas profundamente simbólica. Localizada no coração do Centro do Rio, uma região que testemunhou o nascimento e a evolução de diversas manifestações culturais cariocas, a avenida oferece uma passarela natural para a cultura popular. A via, que conecta diferentes pontos históricos da cidade, torna-se um elo entre o passado e o presente do carnaval, permitindo que a festa se manifeste em um espaço urbano que, por sua própria natureza, pertence a todos. Essa ocupação é vista não apenas como um evento de folia, mas como um ato de apropriação e valorização do patrimônio cultural imaterial do Rio de Janeiro.

Segundo Mauro Souza, presidente da Liga dos Blocos de Embalo, Afoxés e Blocos Afros (Liberj), entidade responsável pela organização em parceria com a Riotur, a presença desses blocos na avenida Chile vai muito além do mero entretenimento. Trata-se de uma ação fundamental para garantir que expressões culturais autênticas e tradicionais continuem a ter seu espaço no cenário urbano. A avenida é reconhecida como um corredor natural para essas manifestações, proporcionando visibilidade e acessibilidade para blocos que, de outra forma, poderiam ter dificuldade em encontrar locais adequados para seus desfiles, em meio a um cenário de urbanização e comercialização que muitas vezes marginaliza as culturas populares.

Resistência Cultural e a Devolução do Espaço Urbano

O vice-presidente da Liberj, Robson Silva, descreve o desfile dos blocos de embalo na avenida Chile como um ato de ‘resistência cultural’. Em um contexto onde o carnaval de rua tem sido cada vez mais moldado por grandes patrocínios e pela lógica de espetáculo, a manutenção desses desfiles tradicionais representa uma defesa da essência popular e comunitária da festa. É uma luta contra a homogeneização e a perda de identidade, garantindo que o carnaval continue sendo um reflexo das comunidades que o criam e o celebram, e não apenas um produto comercial. Essa resistência se manifesta na perseverança dos blocos em manter suas características originais, seus sambas, suas baterias e a participação ativa de seus membros ao longo dos anos.

A ideia de ‘devolver o espaço público à população’ é central para a filosofia desses blocos. Em muitas metrópoles, o espaço público é frequentemente privatizado ou regulamentado de forma a restringir as manifestações espontâneas. O carnaval da avenida Chile, contudo, reverte essa lógica, transformando uma via de tráfego em uma ágora festiva, onde todos são convidados a participar, sem barreiras financeiras ou sociais. É um convite à democratização da cidade, permitindo que os cidadãos se reapropriem de seus espaços urbanos através da cultura e da alegria, fortalecendo os laços comunitários e o senso de pertencimento. Essa iniciativa serve como um importante contraponto à crescente elitização de certos eventos culturais.

Legado e Continuidade: O Coração Intergeracional do Carnaval

Um exemplo vívido dessa rica tradição é o Turma do Gato Futebol e Samba, originário de Pilares, fundado em 1950 e considerado um dos blocos mais antigos em atividade no carnaval carioca. A história do bloco é um testemunho da paixão e da dedicação que movem essas agremiações. Verônica Santos, vice-presidente do bloco, personifica essa continuidade, representando a quarta geração de sua família ligada diretamente à agremiação. Sua vivência, desde o nascimento, imersa na cultura do samba e do bloco, ilustra como essas tradições são passadas de pais para filhos, de avós para netos, construindo uma tapeçaria de memórias e identidades que se perpetua através do tempo.

Para Verônica, o desfile na avenida Chile é mais do que uma festa; é um símbolo de vida e renovação. Ela enfatiza a importância de ‘ver as crianças de volta à rua, brincando carnaval’, um indicativo claro de que a tradição está sendo absorvida e recriada pelas novas gerações. Essa participação infantil é crucial para a longevidade dos blocos, garantindo que a herança cultural não se perca. A metáfora carinhosa de que o gato do bloco ‘não tem sete vidas, tem 76’ (uma referência aos seus 76 anos de existência) sublinha a resiliência e a paixão inabalável que movem essas comunidades, fazendo do carnaval um ciclo contínuo de celebração, memória e futuro.

A Essência dos Desfiles: Ritmo, Comunidade e Alegria Contagiante

Os desfiles dos blocos de embalo, como o Turma do Gato, são a pura expressão do carnaval popular. Com suas baterias vibrantes, formadas por ritmistas que se dedicam com paixão, e seus sambas-enredo muitas vezes produzidos pela própria comunidade, cada bloco carrega sua identidade sonora e lírica. Elementos clássicos como a porta-bandeira, que exibe o estandarte do bloco com graça e orgulho, e as alas infantis, que garantem a renovação da folia, são pilares dessas apresentações. Não se trata de competir por pontos ou avaliações, mas de celebrar a vida, a música e a união, em um espírito de alegria contagiante que envolve a todos que assistem ou participam.

A ocupação da avenida Chile é, portanto, uma reafirmação do sentido mais intrínseco e popular da festa. Verônica Santos reitera que ‘ali é o carnaval do povão, aberto para todo mundo’, uma festa sem distinções, onde todos são bem-vindos para brincar e festejar. Essa inclusão é o verdadeiro valor do carnaval de rua, que valoriza a cultura e a participação coletiva, lembrando a todos que, em sua essência, ‘o carnaval é do povo’. É um convite irrecusável para que cariocas e visitantes mergulhem na alma mais autêntica e vibrante do carnaval do Rio de Janeiro.

A Programação Detalhada: Dias e Horários para Celebrar

Para quem deseja vivenciar essa experiência única e imersiva na cultura carnavalesca carioca, a programação na avenida Chile foi cuidadosamente elaborada para oferecer três dias de pura folia. Os desfiles são uma oportunidade imperdível de testemunhar a vitalidade e a riqueza dos blocos de embalo, afoxés e blocos afros, que trazem para o Centro da cidade a essência de suas comunidades, principalmente da Zona Norte. Prepare-se para ser contagiado pelo ritmo e pela alegria desses grupos que, com seus tambores e cantos, transformam a avenida em um palco de celebração popular.

No domingo (15), a festa tem início às 16h com o Vai Quem Quer do Catumbi, seguido pelo Pagodão do Beco de Pilares (16h30), Unidos de Benfica (17h), Pagodão de Madureira (17h30), Engata no Centro (18h), Turma do Gato (18h30), Boêmios de Irajá (19h) e encerrando com Acadêmicos da Botija (19h30).

A segunda-feira (16) mantém o ritmo aquecido, começando também às 16h com o Vinil Social. Na sequência, desfilam Gigante dos Mares (16h30), Xodó da Piedade (17h), Ninho dos Cobras do Arsenal (17h30), Cervejeiros (18h), Boêmios de São Cristóvão (18h30), Banda da Folia (19h) e Confraria da Bebidinha (19h30).

Para o encerramento na terça-feira (17), a folia começa um pouco mais cedo, às 15h30, com o Alegria de Quintino. Em seguida, os foliões poderão apreciar Imperadores do Samba (16h), Chorou Cuíca (16h30) e o cortejo final com Foliões do Rio, a partir das 17h, marcando o grandioso encerramento dessa celebração da cultura popular carioca.

O carnaval na avenida Chile é um convite irrecusável para vivenciar a autêntica alma do Rio, um espetáculo de cultura, resistência e alegria que ecoa em cada batucada. Não perca a chance de fazer parte dessa história. Para ficar por dentro de outros eventos culturais, notícias do Rio de Janeiro e análises aprofundadas sobre o que acontece na cidade e no Brasil, continue navegando pelo SP Notícias e explore nosso vasto conteúdo. Sua próxima descoberta pode estar a apenas um clique de distância!

Fonte: https://oglobo.globo.com

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