Bento XVI e a Música: quando a fé escuta a beleza

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Poucos pontífices compreenderam a música com a profundidade intelectual de Bento XVI. Para Joseph Ratzinger, a música não era ornamento da fé, mas parte constitutiva de sua expressão mais elevada. Onde a palavra já não alcança, a música, sobretudo a música sacra torna-se linguagem do mistério.

Teólogo de formação e músico por vocação íntima, Bento XVI via na tradição musical da Igreja um verdadeiro locus theologicus, lugar teológico. Lugar onde a teologia se faz audível. Em diversos textos e discursos, insistiu que a música litúrgica autêntica nasce da escuta de Deus e conduz o homem para fora de si mesmo, elevando-o à contemplação. Por isso, jamais a reduziu a mero recurso emocional ou estético.

Particularmente próximo do canto gregoriano e da polifonia clássica, Bento XVI reconhecia nessas formas musicais uma síntese rara entre razão, ordem e transcendência. O gregoriano, para ele, não pertencera a um passado, mas expressa uma oração que brota da Palavra e retorna a ela. Já a polifonia especialmente em mestres como Palestrina, manifesta o equilíbrio entre a liberdade criativa humana e a submissão amorosa à estrutura da fé.

Não por acaso, seu pontificado foi marcado por um constante chamado à reforma do espírito da música litúrgica, mais do que por reformas externas. Bento XVI alertava contra a banalização sonora das celebrações, lembrando que quando a música deixa de ser oração, a liturgia perde sua densidade espiritual. Para ele: “a verdadeira música sacra não busca aplausos, mas silêncio interior; não exalta o ego, mas educa a alma”.

Além da liturgia, Bento XVI refletiu sobre a música em sentido mais amplo. Via em compositores como Mozart um testemunho quase metafísico da harmonia do cosmos. Em célebre afirmação, disse que ouvir Mozart era como: “um reflexo da ordem criadora de Deus”. Essa visão revela um pensamento no qual estética, metafísica e fé não se opõem, mas se iluminam mutuamente.

Sua relação com a música também tinha um caráter profundamente pessoal. Pianista amador, Ratzinger viveu a música como experiência doméstica, íntima, silenciosa e longe dos holofotes. Talvez por isso tenha compreendido tão bem que a música mais elevada não é a que se impõe, mas a que permanece.

Três anos após sua morte, o legado musical de Bento XVI permanece como convite e desafio: recuperar a nobreza da música na, não como luxo elitista, mas como serviço à verdade e à beleza. Em um tempo marcado pelo ruído e pela pressa, sua voz continua a recordar que a fé, quando é autêntica, sabe escutar e quando escuta verdadeiramente, canta.

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