

A fotografia das contas públicas brasileiras em janeiro revela um quadro eloquente: a arrecadação federal voltou a bater recorde histórico, inaugurando 2026 com números robustos que reforçam a estratégia do governo de financiar o arcabouço fiscal por meio de uma combinação de atividade econômica resiliente e aumento de carga tributária sobre segmentos específicos. Segundo dados divulgados pela Receita Federal, a arrecadação de impostos, contribuições e demais receitas administradas pela União somou R$ 325,8 bilhões no primeiro mês do ano, em valores corrigidos pela inflação, o maior patamar já registrado não apenas para meses de janeiro, mas para qualquer mês desde o início da série histórica, em 1995.
Na comparação com janeiro de 2025, quando o recolhimento havia sido de R$ 314,5 bilhões em termos reais, o crescimento foi de 3,56%, já descontado o IPCA. Trata‑se de uma trajetória de alta que, segundo técnicos da Receita, vem se consolidando desde 2021, após a queda brusca provocada pela pandemia em 2020, e que se apoiou em dois pilares distintos: de um lado, o avanço gradual do PIB, com mercado de trabalho mais aquecido e massa salarial em expansão; de outro, uma agenda deliberada de recomposição e ampliação de bases tributárias, que incluiu medidas como reoneração de combustíveis, taxação de apostas esportivas, mudanças na tributação de fundos exclusivos e offshores, revisão de incentivos fiscais e aumento de alíquotas sobre certas modalidades de renda e operações financeiras.
Entre os destaques de janeiro, desponta o desempenho do Imposto de Renda Retido na Fonte sobre rendimentos de capital. A arrecadação dessa rubrica atingiu R$ 14,68 bilhões, com alta real de 32,56% em relação ao mesmo mês do ano anterior, impulsionada tanto pelo bom desempenho de aplicações em renda fixa, beneficiadas por juros ainda elevados, quanto pela elevação da alíquota incidente sobre Juros sobre Capital Próprio (JCP), que passou de 15% para 17,5% em janeiro. A combinação de maior volume de ganhos financeiros com tributação mais pesada sobre a distribuição de lucros via JCP fez dessa categoria uma das principais molas propulsoras do recorde arrecadatório.
Outro vetor decisivo foi o Imposto sobre Operações Financeiras. A arrecadação com IOF somou R$ 8 bilhões em janeiro, crescimento real de 49,05% sobre 2025, resultado direto da elevação de alíquotas sobre uma gama de operações de crédito, câmbio e seguros definida em mudanças legislativas recentes. Em valores correntes, o IOF passou de R$ 5,37 bilhões para pouco mais de R$ 8 bilhões no intervalo de um ano, o que representa um adicional de cerca de R$ 2,6 bilhões apenas no primeiro mês de 2026.
A lista de fontes extraordinárias de receita não para aí. Pela primeira vez, apareceu com peso mensurável na planilha da Receita Federal a tributação de apostas online e de atividades de jogos de azar. Segundo o Fisco, a taxação das chamadas “bets”, aprovada no fim de 2025, gerou em janeiro uma arrecadação da ordem de R$ 1,5 bilhão, valor que tende a se repetir – ou crescer – ao longo do ano, à medida que a regulamentação do setor se consolida. Embora ainda modesto em relação ao total, esse montante é simbólico por representar a incorporação de um segmento que, até recentemente, operava com baixa tributação e pouca transparência.
A arrecadação previdenciária também contribuiu para o recorde. As receitas vinculadas ao INSS somaram R$ 63,45 bilhões em janeiro, com alta real de 5,48% na comparação anual, movimento associado ao aumento da massa salarial, à recuperação do emprego formal, ao melhor desempenho do Simples Nacional e à alta de mais de 17% no volume de compensações tributárias registradas no período. Em paralelo, PIS e Cofins, tributos ligados ao faturamento e ao consumo, recolheram R$ 56 bilhões, crescimento real de 4,35%, amparado por um avanço de 2,84% no volume de vendas do comércio varejista e de 3,45% no volume de serviços entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, de acordo com as pesquisas conjunturais do IBGE.
Do ponto de vista estrutural, o desempenho de janeiro é a continuidade de um ciclo já visível em 2025, quando a arrecadação federal fechou o ano em R$ 2,89 trilhões, o maior valor anual desde que a série histórica começou a ser compilada. Segundo levantamento da imprensa econômica, as receitas federais aumentaram cerca de 43% em termos nominais desde o início do atual governo e a Lei Orçamentária Anual de 2026 prevê que a União arrecadará aproximadamente R$ 1,2 trilhão apenas com impostos, sem contar contribuições e outras fontes não tributárias.
Esse salto arrecadatório está intimamente ligado ao esforço do Executivo para cumprir o novo arcabouço fiscal. Pelo desenho aprovado em 2023, a meta para 2026 é de resultado primário zero, com intervalo de tolerância de 0,25 ponto percentual do PIB para mais ou para menos. Na prática, isso significa que o governo pode ser considerado adimplente se encerrar o ano com déficit de até R$ 68,6 bilhões ou superávit de igual valor. O texto, porém, autoriza retirar do cálculo oficial da meta até R$ 57,8 bilhões em despesas extraordinárias, como o pagamento de precatórios, o que permite, na contabilidade formal, apresentar um resultado equilibrado, mesmo que as contas fechem, de fato, com déficit próximo de R$ 23,3 bilhões. Nesse contexto, cada bilhão adicional arrecadado em janeiro tem peso relevante na engenharia fiscal do ano.
Se, de um lado, a Receita Federal comemora o recorde e o governo exibe os números como evidência de uma estratégia que combina atividade econômica “aquecida” e “justiça tributária” – nas palavras recorrentes em discursos oficiais –, de outro, o debate sobre a qualidade da carga tributária se intensifica. Críticos apontam que boa parte do incremento recai sobre bases de fácil arrecadação, como consumo, folha de pagamentos, operações financeiras e algumas modalidades de renda do capital, o que tende a agravar a sensação de peso tributário sobre a classe média e o setor produtivo. A retomada da tributação de combustíveis, o chamado “imposto das blusinhas” sobre encomendas internacionais, o fim gradual de benefícios para o setor de eventos (Perse) e a reoneração da folha em segmentos antes desonerados são frequentemente citados como exemplos de uma agenda que, embora eficiente do ponto de vista fiscal, pode ter efeitos colaterais sobre preços e competitividade.
Ao mesmo tempo, a equipe econômica sustenta que a ampliação da base arrecadatória em setores de maior renda e patrimônio, como fundos exclusivos, estruturas offshore e distribuição de JCP, corrige distorções históricas de um sistema que tributava de forma relativamente branda certos tipos de capital, em comparação com a taxação incidente sobre salários e consumo. O resultado de janeiro, com o forte desempenho do IR sobre rendimentos de capital e do IOF, é apresentado como evidência de que há espaço para reforçar o caixa com foco em segmentos de maior capacidade contributiva, ainda que, na prática, o repasse de custos financeiros e tributários ao consumidor final acabe diluindo essa intenção redistributiva.
O recorde de arrecadação em janeiro de 2026, enfim, é um retrato em alta resolução das escolhas recentes de política econômica. Ele traduz, em números, um Estado que volta a expandir sua presença fiscal após anos de compressão, ancorado em uma economia que cresce modestamente, mas cresce, e em um sistema tributário que, apesar de estar em processo de reforma, ainda depende fortemente de instrumentos clássicos de aumento de carga para fechar as contas. Se esse caminho será suficiente para sustentar o equilíbrio fiscal sem sufocar a atividade, a resposta virá não apenas nas próximas divulgações da Receita, mas também na sensibilidade dos agentes econômicos e, sobretudo, na percepção de quem sente, no preço dos bens e serviços, o custo de cada recorde que se inscreve nas estatísticas oficiais.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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