Apagão no ABC Paulista deixa 190 mil casas sem luz

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A noite de quinta-feira, 23 de outubro de 2025, foi marcada por um apagão que mergulhou importantes áreas do ABC Paulista na escuridão por quase duas horas, afetando profundamente a rotina de milhares de famílias e o funcionamento de serviços urbanos essenciais. Por volta das 19h43, as luzes começaram a se apagar em São Bernardo do Campo e Diadema, duas das cidades mais populosas e industrialmente relevantes da Grande São Paulo. O blecaute, segundo informações técnicas divulgadas posteriormente, teve origem em uma falha na subestação da transmissora Isa Energia Brasil, localizada em Santo André, responsável por alimentar as linhas de alta tensão que abastecem a rede da Enel Distribuição São Paulo. Em questão de minutos, aproximadamente 190 mil residências e comércios ficaram sem energia elétrica, o equivalente a 40% das unidades consumidoras de São Bernardo e quase um terço das de Diadema.

A falha foi súbita e silenciosa. Pouco antes das 20h, moradores de bairros como Nova Petrópolis, Demarchi, Santa Terezinha, Vila Euclides e Planalto relataram a perda total de energia, enquanto semáforos apagados causavam confusão nas principais vias de circulação. A Avenida Lucas Nogueira Garcez, uma das artérias mais movimentadas da cidade, tornou-se palco de congestionamentos e pequenos acidentes devido à ausência de sinalização luminosa. No bairro do Rudge Ramos, comerciantes precisaram fechar as portas às pressas para evitar prejuízos com equipamentos elétricos desligados e sistemas de segurança comprometidos. Em Diadema, o impacto foi sentido nas imediações do centro e em regiões de grande densidade populacional, com relatos de interrupção simultânea de telefonia móvel e conexão à internet.

Às 20h27, o balanço da Enel apontava cerca de 141 mil imóveis ainda no escuro em São Bernardo, enquanto técnicos da empresa realizavam manobras remotas para isolar o problema. As operações visavam redistribuir a carga elétrica por circuitos alternativos, processo conhecido no setor como “reconfiguração da rede”, medida emergencial que permite aliviar setores sobrecarregados e restabelecer gradualmente o fornecimento. Durante o período de instabilidade, a Defesa Civil do município entrou em estado de alerta e atuou em conjunto com a Companhia de Engenharia de Tráfego para dirigir o trânsito em cruzamentos críticos. Semáforos inoperantes, principalmente na região central e ao longo da Estrada dos Alvarengas, criaram gargalos que demoraram mais de uma hora para se dissipar completamente.

Por volta das 21h19, a Isa Energia Brasil confirmou que o fornecimento havia sido totalmente restabelecido nas áreas afetadas, embora as causas exatas do desligamento continuassem em investigação. Inicialmente, a transmissora informou que houve o desligamento automático de um equipamento de proteção de alta tensão na subestação de Santo André, o que acionou o protocolo de desarme do sistema. Esse tipo de procedimento, apesar de projetado para evitar danos estruturais mais sérios, desencadeou uma corrente de interrupções na rede interligada do ABC. As empresas envolvidas afirmaram que equipes de manutenção foram mobilizadas ainda à noite para realizar inspeções físicas no equipamento afetado, com o objetivo de determinar se a falha teve origem operacional, elétrica ou em sobrecarga de componentes.

O episódio reacendeu um debate sensível sobre a vulnerabilidade do sistema elétrico paulista diante de oscilações na rede de transmissão. Embora as interrupções prolongadas tenham se tornado mais raras nos últimos anos, São Bernardo e Diadema já haviam enfrentado incidentes semelhantes em setembro deste mesmo ano, quando um desligamento parcial na mesma subestação atingiu mais de 600 mil consumidores na região metropolitana. Naquele evento, as manobras para restabelecimento levaram menos de meia hora; desta vez, o processo se prolongou até o início da noite, ampliando os transtornos e reacendendo cobranças por investimentos estruturais que garantam maior estabilidade. Segundo dados divulgados pelo setor elétrico, aproximadamente 15% das interrupções registradas na região Sudeste resultam de falhas técnicas em subestações, o que expõe a importância de manutenção preventiva e modernização contínua de sistemas automatizados de proteção.

Durante o apagão, hospitais públicos e privados ativaram planos de contingência com geradores de emergência. O Hospital Municipal Universitário de São Bernardo manteve os setores críticos operando normalmente, mas o pronto-socorro registrou aumento de atendimentos relacionados a pequenos acidentes domésticos e de trânsito. Em edifícios residenciais, o corte de energia provocou o travamento de elevadores e deixou moradores retidos por minutos até o acionamento de protocolos de segurança. Restaurantes e supermercados precisaram improvisar soluções para conservar alimentos e evitar perdas. As comunicações também foram afetadas: provedores de internet informaram breves instabilidades na transmissão dos serviços, especialmente nas regiões mais afastadas do centro.

Para os moradores, o apagão veio acompanhado de uma sensação de vulnerabilidade e desconfiança em relação à infraestrutura elétrica da região. Muitos cidadãos relataram que as quedas de energia, mesmo que breves, têm sido mais frequentes nos últimos meses, associando-as ao desgaste de equipamentos e à falta de investimentos em reestruturação tecnológica. Em São Bernardo, as áreas industriais próximas ao bairro Batistini ficaram inoperantes durante o período do blecaute, o que resultou em atrasos em linhas de montagem e suspensão temporária de processos em fábricas automotivas que funcionam em regime ininterrupto. Pequenos empreendedores, que dependem fortemente de refrigeração e iluminação contínua, afirmaram ter sofrido prejuízos imediatos com a paralisação.

O episódio foi observado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico, que acompanhou a oscilação registrada no Sistema Interligado Nacional e confirmou que o evento foi regional, sem risco de propagação para outras áreas metropolitanas. Ainda que as causas técnicas não tenham sido totalmente esclarecidas, especialistas apontam padrões recorrentes em desligamentos automáticos de subestações sob alta carga, especialmente em dias de temperatura elevada e demanda energética acima da média. Há ainda a hipótese de que oscilações transitórias em linhas interconectadas entre o ABC e a capital paulista possam ter contribuído para o acionamento do mecanismo protetivo da Isa Energia Brasil.

O incidente reforçou a necessidade de aprimorar protocolos de resposta rápida entre transmissoras e distribuidoras de energia, um desafio crescente em regiões urbanas densamente povoadas como o ABC. São Bernardo do Campo, com cerca de 840 mil habitantes, concentra uma das maiores malhas horizontais de consumidores residenciais e industriais do estado, exigindo um fluxo elétrico equilibrado e, ao mesmo tempo, flexível. Especialistas alertam que a complexidade dessas redes urbanas faz com que qualquer interrupção na transmissão em alta tensão produza, em segundos, um efeito cascata sobre a distribuição local. Por essa razão, a automação e o monitoramento digital em tempo real são práticas cada vez mais defendidas por engenheiros elétricos e urbanistas preocupados com resiliência energética e segurança pública.

Mesmo após o restabelecimento total da energia, o impacto real do apagão se estendeu pela madrugada. Sistemas de transporte público sobre trilhos e o abastecimento de água não sofreram interrupções significativas, mas houve relatos de variações de tensão em residências e empresas que obrigaram a desconexão temporária de equipamentos sensíveis. A prefeitura de São Bernardo, que ainda não havia se manifestado oficialmente até o fim da noite, estuda a possibilidade de solicitar à Enel e à Isa Energia relatórios detalhados sobre a ocorrência e planos de mitigação para evitar reincidência. Técnicos municipais da Defesa Civil devem integrar um comitê de acompanhamento em parceria com as concessionárias.

O apagão do ABC Paulista não foi apenas um incidente técnico, mas um lembrete simbólico da interdependência entre infraestrutura, planejamento urbano e segurança no cotidiano metropolitano. Em um território de alta densidade industrial e populacional, cada segundo sem energia representa não apenas desconforto, mas um reflexo das fragilidades acumuladas de sistemas que sustentam as engrenagens da vida moderna. O breve mergulho no escuro de São Bernardo e Diadema ressoou como um sinal de alerta sobre a urgência de repensar as estratégias de manutenção, integração tecnológica e coordenação pública diante dos desafios de uma metrópole que pulsa luz e movimento diários.

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