
A Epifania não é apenas a celebração de um acontecimento distante no tempo. Ela é, antes de tudo, a afirmação de que o divino se deixa reconhecer no coração da realidade humana. Poucos artistas compreenderam essa verdade com tanta intensidade quanto Michelangelo Merisi da Caravaggio.
Embora não exista, em sua obra, um quadro intitulado simplesmente Epifania, Caravaggio aborda esse mistério de forma visceral em suas representações da Adoração dos Magos. Nelas, a revelação de Deus não acontece por meio de esplendores celestiais ou arquiteturas idealizadas, mas no chão áspero da história, onde a luz toca corpos cansados, rostos marcados e gestos de humilde reverência.
Os Magos de Caravaggio não são figuras idealizadas. São homens reais, quase anônimos, trazendo consigo o peso da estrada, da busca e da espera. A Epifania, aqui, não é um espetáculo, mas um encontro. Certa vez eu escutara do então bispo Dom Paulo Moretto:
“Deus se revela não àqueles que dominam o sagrado, mas aos que sabem ajoelhar-se diante do mistério”.
A luz elemento central da poética caravaggista não desce suavemente do céu. Ela irrompe! Recorta! Escolhe! Ilumina o essencial e deixa o resto na sombra. Não para ocultar-se, mas para ensinar que a fé não elimina o escuro: convive com ele. Na pintura, assim como na vida, a revelação não se dá pela negação da fragilidade, mas pela sua transfiguração! Quanto mistério e beleza…
O Menino, centro silencioso da cena, não impõe sua presença por gestos grandiosos. Ele simplesmente está aí. E é nesse estar que tudo se revela e acontece. Maria não exibe solenidade excessiva; guarda tudo no coração, oferece, e sustenta. O divino se manifesta sem romper a ordem do humano, como se dissesse que Deus não vem para afastar o homem de sua condição, mas para habitá-la plenamente.
Caravaggio nos lembra que a estrela que guiou os Magos não precisa permanecer visível. Ela cumpre a sua missão e desaparece. A verdadeira Epifania acontece quando o olhar reconhece, quando o coração entende que a luz procurada fora sempre esteve diante de nós discreta, encarnada, possível. Impossível não recordar-nos da máxima de Agostinho:
“Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova!
Tarde demais eu te amei!
Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora”…
Celebrar a Epifania, à luz de Caravaggio, é um recordar-se a fé e um reaprender. Vivo e almejo isso. É aceitar que Deus se revela não no triunfo, mas na presença. Não na fuga da sombra, mas na luz que a atravessa.
Feliz 2026 com a luz que não conhece sombra.