Há uma frase que circula com crescente urgência entre os especialistas em saúde mental, os ativistas pela neurodiversidade e as pessoas que vivem cotidianamente os desafios do Transtorno do Espectro Autista no Brasil: “o autismo não tem cara”. Aparentemente simples, a sentença carrega o peso de uma realidade social complexa, marcada por estereótipos que persistem mesmo diante do avanço científico, por julgamentos que se perpetuam mesmo depois que o diagnóstico foi realizado por profissionais competentes, e por uma cultura de desconfiança que faz das próprias vítimas do preconceito os réus de uma espécie de tribunal informal, constante e implacável. É essa realidade que o ativista social Heitor Werneck tem se dedicado a denunciar, com a autoridade de quem narra não apenas uma causa, mas a sua própria experiência de vida.
Werneck é autista nível 2, tem Síndrome de Savant e recebeu seu diagnóstico na fase adulta, depois de décadas de incompreensão sobre si mesmo. Produtor cultural, estilista, precursor do fetichismo no Brasil e idealizador do Projeto Luxúria, a primeira festa liberal do país, ele é também consultor em produções da HBO, da Netflix e da Globo, além de realizar ações sociais voltadas à comunidade LGBTQIAP+, em parceria com ONGs, empresas e órgãos governamentais. Sua trajetória pessoal e profissional, marcada por realizações que contrariam qualquer estereótipo do que seria “parecer autista”, é ela própria uma evidência viva da tese que defende com articulação e veemência: o espectro autista é radicalmente diverso, e a expectativa social de que um autista deva apresentar um conjunto fixo e identificável de características externas é, em si mesma, uma forma de preconceito.
O dado quantitativo que contextualiza essa discussão é inédito na história do Brasil. O Censo Demográfico 2022, cujos resultados sobre neurodiversidade foram publicados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em maio de 2025, revelou pela primeira vez uma estimativa oficial do número de brasileiros com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista: 2,4 milhões de pessoas, o que corresponde a 1,2% da população do país. Entre as crianças de 5 a 9 anos, a prevalência é de 2,6%, equivalente a uma em cada 38 crianças nessa faixa etária. A prevalência entre homens é de 1,5%, contra 0,9% entre mulheres, uma diferença que os especialistas associam tanto a questões biológicas quanto ao histórico de subdiagnóstico feminino, já que meninas autistas tendem a desenvolver estratégias de mascaramento social mais eficazes, o que dificulta a identificação pelos instrumentos diagnósticos tradicionais.agenciadenoticias.ibge+2
É justamente sobre esse universo de 2,4 milhões de pessoas, e sobre o número ainda maior de não diagnosticados que convivem com suas diferenças neurológicas sem compreendê-las, que recai a pressão social descrita por Werneck. O primeiro vetor dessa pressão é a desconfiança. Em ambientes de trabalho, nas redes sociais e nos espaços de convivência cotidiana, pessoas diagnosticadas com TEA relatam ser questionadas sobre a legitimidade de sua condição por indivíduos sem qualquer formação técnica em saúde, que se arvoram no papel de árbitros informais da validez do laudo alheio. O argumento mais comum é a aparência: “você não parece autista”, numa frase que Werneck analisa com precisão cirúrgica ao apontar que ela revela, em sua própria estrutura, a ignorância do falante sobre o que o autismo efetivamente é.
“Questionar a legitimidade do diagnóstico de alguém sem qualquer conhecimento técnico é uma forma clara de psicofobia”, afirma o ativista, utilizando um conceito que ganha cada vez mais espaço no vocabulário das ciências sociais e do direito: a psicofobia, entendida como o conjunto de atitudes, práticas e crenças que discriminam, depreciam ou invalidam pessoas em razão de transtornos mentais ou condições neurológicas. A psicofobia não se manifesta apenas em ofensas explícitas; ela opera, sobretudo, na forma sutil e socialmente tolerada da descrença, da ironia e do questionamento da experiência do outro como se ela precisasse ser comprovada a cada interação. Para as pessoas no espectro, essa dinâmica é particularmente exaustiva, pois acrescenta ao custo já elevado do mascaramento social a necessidade constante de justificar a própria existência dentro do diagnóstico.
O segundo vetor de preconceito identificado por Werneck opera no sentido oposto, mas com efeitos igualmente danosos: é o diagnóstico informal, realizado por pessoas sem formação, que atribuem o autismo a indivíduos com base em impressões superficiais como “você é muito estranho para não ser autista” ou “você é inteligente demais, deve ter algo diferente”. Esse comportamento, que à primeira vista poderia parecer uma tentativa bem-intencionada de reconhecer a neurodiversidade, é identificado por especialistas como uma manifestação de capacitismo, conceito que designa o conjunto de práticas discriminatórias que julgam, limitam ou infantilizam pessoas com deficiência a partir de padrões de comportamento e desempenho construídos a partir da perspectiva da norma neurotípica. A Lei Brasileira de Inclusão, Lei nº 13.146 de 6 de julho de 2015, tipifica o capacitismo como crime, com pena de reclusão de um a três anos e multa para quem o praticar, induzir ou incitar.
O caso de Werneck é também uma ilustração singular da complexidade do espectro. Ele é autista e, simultaneamente, portador da Síndrome de Savant, uma condição rara presente em aproximadamente 10% das pessoas com autismo, caracterizada pelo desenvolvimento de habilidades extraordinárias em domínios específicos como cálculo matemático, memória enciclopédica, habilidade musical ou criação artística, coexistindo com as limitações funcionais típicas do TEA. Na sua vida, o Savant se manifesta como uma capacidade intelectual amplificada que potencializa sua atuação como produtor cultural; mas esse mesmo perfil, longe de eliminar os desafios do espectro, os mascara socialmente, tornando mais difícil para os outros compreenderem que, por trás da articulação e da competência profissional visíveis, há um ser humano que frequentemente enfrenta crises que o levam ao nível 3 de suporte e que lida com hipersensibilidade sensorial e dificuldades de interação social que não desaparecem porque a câmera está ligada.
“Quando alguém diz que você está fingindo ou que não parece autista, isso invalida a experiência daquela pessoa. Muitas vezes ela passou décadas tentando entender por que se sentia diferente”, diz Werneck. A frase aponta para uma realidade clínica amplamente documentada: o crescimento dos diagnósticos tardios em adultos, particularmente entre mulheres e entre pessoas de alta escolaridade que desenvolveram estratégias de compensação sofisticadas ao longo da vida, criando uma fachada de adaptação social que obscureceu por décadas as especificidades neurológicas subjacentes. Para essas pessoas, o diagnóstico é frequentemente vivido como uma experiência de alívio e de ressignificação de uma história de vida marcada pela sensação de inadequação inexplicada. Ter esse diagnóstico posteriormente questionado por leigos representa não apenas uma agressão isolada, mas a ameaça de desfazer um processo doloroso e longo de autocompreensão e de construção de identidade.
O caminho apontado pelo ativista para a transformação desse quadro é inequívoco em sua formulação: informação qualificada, escuta das próprias pessoas autistas e respeito incondicional ao diagnóstico clínico realizado por profissionais habilitados. Num país que acaba de descobrir, pela primeira vez em sua história, que tem 2,4 milhões de cidadãos no espectro autista, a urgência de construir uma cultura social genuinamente inclusiva é não apenas uma questão de direitos humanos, mas uma exigência do próprio princípio democrático de que nenhuma pessoa deve ser invisibilizada por aquilo que é.
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Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
SP Notícias — Intellectus ex Veritate