A política externa dos Estados Unidos tem sido objeto de intensa análise e debate global, especialmente durante a administração do ex-presidente Donald Trump. Em uma entrevista esclarecedora ao programa CNN Novo Dia, o professor de Geopolítica da Escola Superior de Guerra, Ronaldo Carmona, ofereceu uma perspectiva aprofundada sobre as recentes ações militares americanas na Venezuela e no Irã. Segundo o especialista, essas operações não são incidentes isolados, mas sim um reflexo de uma característica marcante da gestão Trump: a crescente propensão ao uso explícito da força militar para alcançar objetivos estratégicos de política externa, diferentemente de gestões anteriores que priorizavam outras formas de coerção.
A Mudança de Paradigma: Da Coerção Econômica à Militar
Historicamente, a política externa americana tem empregado uma gama variada de instrumentos para exercer sua influência global. Tradicionalmente, a pressão econômica, através de sanções, tarifas e a utilização do dólar como ferramenta geopolítica, tem sido uma tática preferencial. Carmona ressalta que essa abordagem foi predominante no início do governo Trump, que impôs tarifas comerciais significativas a parceiros e rivais e intensificou sanções contra países como o Irã e a Venezuela, buscando alterar seus comportamentos sem necessariamente recorrer à intervenção direta.
No entanto, o professor aponta para uma escalada notável. “A novidade é que o uso da força, o uso do poder militar para atingir objetivos estratégicos, é uma prática deste governo”, explicou Carmona. Esta transição de uma dependência primária da coerção econômica para uma maior abertura ao poder militar representa uma mudança substancial. Exemplos incluem o aumento da presença militar no Caribe, direcionado à Venezuela, e o assassinato do general iraniano Qassem Soleimani no Iraque, que demonstrou a disposição da Casa Branca em empregar ações cinéticas de alto risco para remover ameaças percebidas ou alcançar objetivos específicos.
Documentos Estratégicos: O Roteiro da Geopolítica Americana
Para entender a lógica por trás dessas ações, Carmona destaca a importância dos documentos estratégicos divulgados pelo governo americano. Em dezembro de anos anteriores, a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos e, posteriormente, a estratégia de defesa do país, delinearam as prioridades e a filosofia da administração Trump para a segurança global. Esses documentos são cruciais, pois servem como guias para todas as agências governamentais, desde o Departamento de Defesa até o Departamento de Estado, e indicam onde os EUA pretendem focar seus recursos e esforços.
A Estratégia de Segurança Nacional de Trump, em particular, sinalizou uma mudança de foco do combate ao terrorismo global para uma era de “competição entre grandes potências”, identificando a China e a Rússia como os principais adversários. Essa reorientação implicava em uma realocação de recursos e atenção geopolítica, influenciando diretamente as decisões sobre a presença militar e os engajamentos em diferentes regiões do mundo.
Desengajamento Militar Estratégico e Reequilíbrio de Forças
Um dos conceitos centrais articulados nesses documentos é o de um “desengajamento militar estratégico”. Carmona esclarece que essa abordagem implica um recuo planejado da presença militar americana em certas regiões, notadamente na Europa e no Oriente Médio. Não se trata de uma retirada completa da influência, mas sim de uma otimização de recursos para concentrá-los em frentes consideradas mais críticas para os interesses nacionais dos Estados Unidos.
Focos Prioritários: Américas e Pacífico
Os documentos estratégicos indicam duas frentes principais para a concentração de esforços: o “domínio hemisférico pleno das Américas” e a “contenção da China no Pacífico”. O primeiro objetivo reflete um ressurgimento da doutrina Monroe, buscando garantir a hegemonia americana em seu próprio “quintal”, combatendo a influência de potências rivais como Rússia e China na América Latina e reforçando a segurança regional. Isso se manifesta em operações militares e de combate ao narcotráfico no Caribe e na América do Sul, como as direcionadas à Venezuela.
O segundo objetivo, a contenção da China no Pacífico, é impulsionado pelo reconhecimento do rápido crescimento econômico e militar chinês. Esta frente exige uma robusta presença naval e aérea, além do fortalecimento de alianças na região, como com o Japão, a Coreia do Sul e a Austrália, para contrabalancear a crescente assertividade de Pequim no Mar do Sul da China e em outras áreas estratégicas.
A Lógica por Trás da Operação no Irã
Nesse contexto de desengajamento estratégico, a operação americana contra o Irã no Oriente Médio ganha uma nova leitura. “Se a proposta da estratégia de segurança nacional e de defesa é um desengajamento no Oriente Médio, me parece que essa operação de troca de regime do Irã faz sentido”, analisou o professor Carmona. A lógica por trás dessa manobra seria eliminar o que os Estados Unidos e seus aliados consideram o principal fator de desestabilização na região.
O Irã, com seu programa nuclear, apoio a grupos proxies (como o Hezbollah e milícias no Iraque e Síria) e retórica anti-Israel e anti-EUA, é visto por Washington e Tel Aviv como uma ameaça central à segurança e aos interesses regionais. A remoção ou neutralização do regime iraniano, através de pressão máxima ou mesmo ações diretas, permitiria um maior protagonismo de Israel na organização do Oriente Médio. Isso alinha-se aos interesses israelenses e americanos de criar uma frente regional mais estável e alinhada aos seus objetivos, talvez até facilitando processos de normalização com outros países árabes, como visto posteriormente nos Acordos de Abraham.
A estratégia visa, portanto, viabilizar o “distensionamento americano” em uma região onde se propõe um desengajamento de tropas. Ao invés de manter uma grande presença militar, os Estados Unidos buscam manter sua influência através de aliados regionais fortes e capazes, como Israel e as nações do Golfo, que poderiam assumir um papel mais proeminente na segurança e estabilidade, sempre com o respaldo e a orientação de Washington. Essa abordagem é uma tentativa de reduzir o custo humano e financeiro de intervenções diretas, enquanto ainda molda a dinâmica geopolítica em favor dos interesses americanos.
Conclusão e Implicações Futuras
A análise do professor Ronaldo Carmona oferece uma janela valiosa para compreender a complexidade da política externa americana sob a administração Trump. A transição do uso primário da coerção econômica para uma maior abertura ao poder militar, aliada a um plano de desengajamento estratégico no Oriente Médio e na Europa para focar nas Américas e na contenção da China, redefine o papel dos Estados Unidos no cenário global. As ações contra o Irã e a Venezuela, longe de serem isoladas, são componentes de uma estratégia maior para reconfigurar alianças e influências, buscando otimizar recursos e realinhar prioridades geopolíticas.
Essas dinâmicas, embora específicas de uma gestão, deixam legados duradouros e continuam a moldar as relações internacionais. Para aprofundar seu entendimento sobre os desdobramentos da geopolítica global e como as grandes potências redefinem seus espaços de atuação, continue navegando pelo SP Notícias. Nosso portal oferece análises detalhadas, entrevistas exclusivas e as últimas notícias para você ficar sempre bem informado sobre os temas mais relevantes do cenário nacional e internacional.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br