Analistas conjecturam aumento das tarifas de energia em 2026

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Analistas de mercado, consultorias especializadas e entidades de defesa do consumidor convergem, neste início de 2026, em um diagnóstico incômodo: a conta de luz deve sofrer um aumento significativo ao longo do ano, superando com folga a inflação esperada e pressionando ainda mais o orçamento das famílias e dos pequenos negócios. Se 2025 já havia sido duro – com alta acumulada de 16,4% nas tarifas residenciais entre janeiro e setembro, segundo o IBGE –, as projeções para 2026 indicam que o alívio será, no máximo, relativo.

Estudos recentes da TR Soluções, empresa especializada em modelagem tarifária, apontam para um reajuste médio da ordem de 5,4% a 7,8% nas contas residenciais, a depender do cenário e da metodologia adotada, número que, em qualquer hipótese, tende a superar o IPCA projetado para o ano, em torno de 4%. Em um recorte conservador, o instituto projeta alta de 5,4% ao considerar a média ponderada das 51 distribuidoras do país, sem contar impostos nem eventuais bandeiras tarifárias; em cenários mais abrangentes, que incorporam variações regionais e pressões adicionais, a Agência iNFRA registra estimativas próximas de 7% em média, com algumas consultorias falando em patamar entre 6% e 7%.terra.

Os números se tornam mais contundentes quando comparados à inflação esperada. A consultoria Thymos Energia calcula que, na média nacional, as tarifas poderão subir 7,64% em 2026, quase o dobro do IPCA projetado pelo mercado financeiro, de 3,99%, o que reforça a percepção de que a energia elétrica seguirá como um dos itens mais sensíveis na cesta de consumo. Em algumas áreas de concessão, o impacto pode ser ainda mais intenso: a Thymos estima reajustes da ordem de 13,12% para consumidores atendidos pela Neoenergia Pernambuco, 12,50% para a CPFL Paulista e 10,66% para a Enel Ceará, enquanto distribuidoras como Neoenergia Brasília e Amazonas Energia aparecem, no extremo oposto, com perspectiva de variações negativas pontuais.

A aparente discrepância entre as diferentes projeções esconde um elemento comum: todas apontam na mesma direção, a de uma alta real da conta de luz, acima da inflação, ainda que com intensidades distintas conforme a região, a distribuidora e o perfil de consumo. Parte dessas diferenças se explica pela própria estrutura regulatória. A TR Soluções, por exemplo, detalha que os reajustes podem ir de uma redução de 22% em certas áreas até aumentos superiores a 30% em outras, resultado da combinação entre contratos de concessão, composição da base de ativos, perfil de perdas e custos específicos de compra e transmissão de energia em cada distribuidora.

As causas do movimento de alta formam um mosaico complexo, que vai muito além da flutuação no nível dos reservatórios. Um dos fatores mais citados é o aumento dos custos de transmissão de energia. À medida que o sistema elétrico se expande para incorporar novas fontes e atender áreas mais remotas, cresce a necessidade de investimentos em linhas de transmissão e subestações, cujo custo é repassado, por meio da Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição (TUSD), a todos os consumidores. A TR Soluções estima que a TUSD deve subir cerca de R$ 10 por megawatt‑hora em 2026, em boa parte devido à mudança no tratamento da energia das usinas nucleares Angra 1 e 2, que passa a ter seus custos rateados de maneira mais ampla entre a base de clientes.

Outro vetor relevante é o aumento dos encargos setoriais, em especial os vinculados à Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), fundo que financia uma série de subsídios e políticas públicas, desde a tarifa social de baixa renda até incentivos à geração em sistemas isolados e à universalização do acesso em regiões remotas. O orçamento aprovado para a CDE em 2026 chega a R$ 52,7 bilhões, dos quais cerca de R$ 47,8 bilhões serão custeados diretamente pelos consumidores por meio da tarifa, de acordo com cálculo apresentado pela Gazeta do Povo, o que ajuda a explicar por que a conta de luz tem sido, ano após ano, pressionada por obrigações que extrapolam o simples custo de geração e distribuição.

Esse quadro é agravado por alterações regulatórias recentes. A Medida Provisória 1.300/2025, segundo análise da Associação Nacional dos Consumidores de Energia (Anace), tende a elevar os custos gerais do sistema ao ampliar o alcance da tarifa social e ao redistribuir encargos relacionados à reserva de capacidade e à energia de Angra entre consumidores livres e cativos. A entidade projeta um impacto médio real de 5% a 12% nas despesas com energia em 2026, a depender do perfil de consumo e da área de concessão, num cenário que considera também a antecipação de usinas de reserva, o que aumenta o encargo de potência em alguns reais por megawatt‑hora.

Do lado da meteorologia, o início de 2026 trouxe, ao menos, uma boa notícia: o ano começou com bandeira tarifária verde, ou seja, sem cobrança de taxa extra pelo sistema de bandeiras, que serve para refletir, em tempo quase real, as condições de custo da geração. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) divulgou um calendário para o anúncio mensal das bandeiras, permitindo que consumidores e agentes acompanhem, ao final de cada mês, a sinalização para o período seguinte. No entanto, analistas alertam que esse alívio é condicionado à manutenção de patamares confortáveis nos reservatórios e à ausência de eventos climáticos extremos; simulações da CNN Brasil indicam que, em cenários de maior uso de termelétricas, as bandeiras podem adicionar de 3,9% a 4,7% à conta ao longo do ano, empurrando o reajuste total para perto de 10% em alguns casos.

Para o consumidor residencial, o resultado dessa combinação de fatores é uma conta mais cara e mais imprevisível. Relatórios especializados lembram que, entre 2021 e 2025, a energia elétrica foi um dos itens que mais pressionaram o custo de vida, respondendo por boa parte da sensação de perda de poder de compra, especialmente nas faixas de renda mais baixa, em que a conta de luz representa parcela significativa do orçamento. Em 2025, a tarifa residencial acumulou alta de mais de 16% em nove meses, e o ciclo de reajustes de 2026 tende a ser, embora menos explosivo, ainda acima da média de inflação, consolidando um patamar de preços elevado.

Diante desse cenário, cresce o interesse por alternativas que permitam mitigar o impacto. Setores ligados à eficiência energética e à geração distribuída, como a energia solar fotovoltaica em telhados e pequenos empreendimentos, reportam aumento na procura de famílias e empresas por soluções que reduzam a dependência da tarifa convencional, ainda que os investimentos iniciais sejam significativos. Em paralelo, entidades de defesa do consumidor e associações empresariais reforçam críticas ao que consideram um desequilíbrio na forma de financiamento de subsídios e encargos, defendendo reformas estruturais que distribuam de maneira mais transparente e equitativa os custos das políticas setoriais.

Seja qual for o caminho a ser adotado no plano regulatório, o consenso entre analistas é claro: 2026 não será um ano de alívio pleno na conta de luz. Mesmo com bandeiras verdes em parte do tempo e eventuais reduções pontuais em algumas áreas de concessão, a tendência dominante é de reajustes acima da inflação, alimentados por uma combinação de investimentos em infraestrutura, encargos crescentes e escolhas de política pública que, em última instância, convergem na fatura que chega, todos os meses, à caixa de correio ou ao aplicativo do consumidor.

Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
HostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

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