

Assis amanheceu, neste fim de fevereiro, com uma comoção rara mesmo para uma cidade acostumada ao fluxo constante de peregrinos. A abertura, pela primeira vez em oito séculos, da exposição pública dos restos mortais de São Francisco de Assis transformou a basílica construída em sua memória em epicentro de um movimento espiritual que ultrapassa fronteiras, línguas e pertenças eclesiais. Desde as primeiras horas da manhã, filas silenciosas se formaram ao redor do complexo franciscano, enquanto sinos, cantos discretos e uma espécie de reverência espontânea davam o tom de um dia descrito por muitos como irrepetível.
A mostra, autorizada pela Santa Sé por ocasião das celebrações dos 800 anos da morte do santo, teve início oficialmente no dia 22 de fevereiro de 2026 e se estenderá até 22 de março, na igreja inferior da Basílica de São Francisco, na Úmbria. O corpo, sepultado desde 1230 sob o altar‑mor da basílica inferior e mantido oculto por séculos para evitar profanações e o risco de roubo das relíquias, foi trasladado de seu túmulo na cripta e depositado aos pés do altar papal, em uma urna de acrílico protegida, sobre a qual se lê, em latim, a inscrição “Corpus Sancti Francisci”. A decisão de expor, de modo prolongado e visível, o esqueleto do padroeiro da Itália é descrita pelos frades como um gesto de grande densidade espiritual, e não como espetáculo, inserido em um amplo Ano Jubilar Franciscano.noticias.
O impacto entre os fiéis é imediato. De acordo com números divulgados pela própria comunidade franciscana e por veículos de imprensa, cerca de 350 mil pessoas haviam se inscrito previamente, por meio de um sistema gratuito de reservas online, para garantir o acesso ao espaço, e a expectativa é de que, ao longo do mês, até 400 mil peregrinos passem pela basílica, com picos de 15 mil visitantes nos dias de semana e até 19 mil aos sábados e domingos. As imagens das primeiras horas de visitação mostram rostos marejados, mãos estendidas em oração silenciosa, terços entrelaçados a dedos que acariciam, à distância, o contorno da urna, enquanto a fila avança sob cânticos discretos. Uma peregrina de 65 anos, vinda de Verona, sintetizou, em poucas palavras, o sentimento compartilhado por muitos: “Em um momento como esse, temos a verdade diante de nossos olhos”.
A emoção dos fiéis encontra eco nas explicações dos religiosos responsáveis. Frei Giulio Cesáreo, diretor de comunicação do convento, insiste que a exposição não se destina a reforçar uma curiosidade mórbida, mas a recolocar em primeiro plano uma prática antiga da Igreja: a veneração das relíquias como expressão de fé e de proximidade com o testemunho dos santos. “Desde a época das catacumbas, os cristãos veneram os ossos dos mártires e nunca os consideraram algo macabro”, recorda, sublinhando que aqueles ossos, tão visivelmente danificados pelo tempo, testemunham uma vida radicalmente entregue. A ideia, explicam os frades, é que o contato com a fragilidade concreta do corpo de Francisco ajude o peregrino a vislumbrar, mais do que a morte em si, a coerência de uma existência que, tomada pelo Evangelho, continua a gerar frutos oito séculos depois.
A história do corpo de São Francisco ajuda a dimensionar a singularidade do momento. Morto em 1226, o poverello foi sepultado sob o altar da basílica inferior em lugar de difícil acesso, numa época em que a disputa por relíquias era intensa e muitas cidades buscavam atrair peregrinos por meio da presença de corpos santos. O túmulo permaneceu oculto até a noite de 12 para 13 de dezembro de 1818, quando, após escavações sigilosas, os frades descobriram o sarcófago, que foi objeto de exame oficial no ano seguinte, confirmando a autenticidade dos restos mortais. Em 1820, por ordem do Papa Pio VII, os ossos foram colocados em um sarcófago de bronze, que passou a repousar na cripta da basílica, atraindo milhões de peregrinos ao longo dos séculos, mas sempre fora da vista direta do público.
A autorização para a atual exposição foi concedida pela Santa Sé por meio do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, em carta assinada pelo cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado, e por Dom Vittorio Viola, com orientações precisas para que a veneração se dê em “genuíno espírito cristão”. A carta destaca que o centenário não celebra a morte, mas a vida que floresce da entrega total, e convida a que a contemplação das relíquias leve à caridade, à paz e à reconciliação, marcas da espiritualidade franciscana.
Para acolher a multidão esperada, o complexo de Assis passou por adaptações discretas, mas significativas. Rotas acessíveis foram criadas para visitantes com deficiência, um sistema de reservas online foi implementado para organizar o fluxo, e um robusto esquema de segurança, com câmeras e vigilância permanente, foi montado em torno da urna acrílica. A basílica abre suas portas às 7h, no horário local, e as filas se estendem pela praça, onde peregrinos de diversas nacionalidades rezam, cantam ou simplesmente aguardam em silêncio, num clima que mistura romaria tradicional e logística contemporânea.
Dentro da igreja inferior, o ambiente é de sobriedade. A vitrine com a inscrição “Corpus Sancti Francisci” situa os fiéis, lembrando de quem são os ossos ali expostos. A poucos metros dali, altares, frescos e capelas que já faziam parte do circuito devocional ganham nova densidade, agora que a presença do corpo do santo se torna visível. Muitos peregrinos aproveitam a ocasião para se confessar, participar da missa, ou simplesmente permanecer por alguns minutos em silêncio, numa espécie de diálogo íntimo com aquele que, há oitocentos anos, escolheu viver entre leprosos, abraçar a pobreza e cantar a fraternidade de todas as criaturas, do irmão sol à irmã água.
A exposição também recoloca em pauta a atualidade da figura de Francisco em um mundo marcado por guerras, crise ecológica e desigualdade. Em depoimentos colhidos pela imprensa, não são poucos os fiéis que associam a peregrinação a Assis a um desejo de paz interior e global. Para muitos, contemplar os restos mortais de um homem que renunciou a privilégios para se fazer irmão dos últimos é um convite a reavaliar prioridades pessoais, a relativizar acúmulos e a reencontrar, na simplicidade, uma forma de resistência ao consumismo e à indiferença.
Não apenas católicos se sentem tocados. Frei Giulio Cesáreo sublinha que o testemunho de Francisco, condensado naquele esqueleto tão gasto, tem algo a dizer a crentes e não crentes, porque fala de uma humanidade levada ao limite da solidariedade e da coerência. O fato de que centenas de milhares de pessoas, em pleno século XXI, se disponham a viajar, enfrentar filas e entrar num templo medieval para ver, por alguns segundos, ossos antigos, talvez diga menos de uma curiosidade arqueológica e mais de uma carência contemporânea de referências éticas encarnadas.
Quando as portas da basílica se fecharem, em 22 de março, o corpo de São Francisco retornará à cripta, e a vida cotidiana de Assis retomará seu fluxo habitual de peregrinos, cursos de espiritualidade, retiros e liturgias. Mas para aqueles que, nestes dias, atravessam a penumbra da igreja inferior e se detêm, por um breve instante, diante da inscrição em latim e dos ossos frágeis do poverello, a experiência parece inscrever‑se em outro tempo. Entre lágrimas discretas, dedos que traçam o sinal da cruz e sussurros de gratidão, muitos saem com a impressão de que viram, ali, não apenas restos mortais, mas a materialidade silenciosa de uma vida que, oito séculos depois, continua a interpelar o mundo.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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