PUBLICIDADE

quaresma:-historia-e-introspeccao

quaresma:-historia-e-introspeccao

A Quaresma retorna a cada ano como um lento alargamento do tempo interior, em que a Igreja parece suspender o ritmo ordinário da vida litúrgica para convidar o fiel a um exame mais sério da própria existência. Mais do que uma simples contagem de dias até a Páscoa, esse período se oferece como caminho de purificação e de recomposição do olhar, em que a memória da história da salvação e a experiência concreta de jejum, oração e caridade se entrelaçam, conferindo densidade espiritual ao calendário cristão.noticias.

Historicamente, a Quaresma não surgiu pronta nem com o formato atual de quarenta dias. As comunidades cristãs dos primeiros séculos conheciam, sobretudo, jejum breve e intenso às vésperas da Páscoa, ligado à celebração dos batismos na Vigília Pascal, quando catecúmenos, após rigoroso preparo, eram mergulhados nas águas que simbolizavam morte e ressurreição com Cristo. Foi apenas no século IV, em torno do Concílio de Niceia, em 325, que se consolidou a ideia de um período mais longo de preparação, até chegar à configuração de quarenta dias, cifra que traduz, na linguagem bíblica, um tempo de prova, expectativa e amadurecimento. A partir da Alta Idade Média, sob o pontificado de Gregório Magno, difundiu‑se o costume de iniciar esse itinerário na Quarta‑feira de Cinzas, estendendo‑o até o Domingo de Ramos, moldando a forma que, com pequenas variações, perdura até hoje.formacao.

O número quarenta, longe de ser apenas um artifício de calendário, é carregado de ressonâncias bíblicas. Ele remete aos quarenta anos da caminhada de Israel pelo deserto, entre a escravidão do Egito e a liberdade na terra prometida, itinerário feito de purificações, murmurações, quedas e recomeços, sob a paciência de Deus que educa seu povo através da provação. Lembra, também, os quarenta dias do dilúvio, em que as águas apagam a antiga corrupção para ceder lugar a uma nova aliança, sinalizada pelo arco‑íris. No Novo Testamento, resplende sobretudo a figura de Cristo que, antes de iniciar a vida pública, retira‑se ao deserto, durante quarenta dias, entregue ao jejum e à oração, combatendo as tentações do poder fácil, do milagre espetacular e da autossuficiência, para afirmar, diante do Tentador, que sua missão se cumprirá na obediência ao Pai e na humildade do serviço.

Nessa perspectiva, a Quaresma é menos um exercício de voluntarismo religioso e mais uma participação, em chave litúrgica e existencial, nesse tempo de deserto vivido por Cristo e prefigurado na história de Israel. A Igreja não convida simplesmente a “cumprir práticas”, mas a deixar‑se conduzir por um processo de conversão, no qual o fiel se vê chamado a confrontar seus ídolos, a relativizar a tirania do imediato e a reencontrar o essencial à luz da Páscoa que se prepara. A sobriedade das celebrações, a supressão do “Glória” e do “Aleluia”, a cor roxa dos paramentos, tudo conspira para sugerir que o tempo litúrgico se torna pedagogo da interioridade, conduzindo o cristão a uma espécie de recolhimento vigilante.

A espiritualidade quaresmal, na tradição católica, articula‑se em torno de três grandes eixos, reiterados pelo Magistério e pelo Catecismo: a oração, o jejum e a caridade. A oração, neste tempo, é chamada a crescer em qualidade e intensidade: não se trata apenas de multiplicar fórmulas, mas de reservar “algo a mais” de si, um espaço protegido para a escuta da Palavra, para o exame da própria vida à luz do Evangelho e para a súplica humilde. O jejum, por sua vez, não se limita à abstinência pontual de carne às sextas‑feiras, mas assume o contorno mais amplo de uma pedagogia da liberdade interior: renunciar a alimentos, a confortos e até a dispersões digitais para experimentar concretamente que “nem só de pão vive o homem”, e que o coração humano, quando não se deixa disciplinar, torna‑se escravo do apetite e do consumo.

Já a caridade, frequentemente associada à esmola, ultrapassa a dimensão assistencial para tornar‑se gesto de justiça e de reconciliação. O Catecismo recorda que a prática da esmola e das obras de misericórdia, sobretudo nesses quarenta dias, coopera com a “purificação radical operada pelo batismo” e manifesta o esforço concreto de reparar feridas nas relações com o próximo. A tradição espiritual retoma a palavra da Primeira Carta de Pedro, segundo a qual a caridade “cobre uma multidão de pecados”, e vê nesse tempo privilegiado uma oportunidade de aproximar‑se dos pobres, de reatar laços rompidos, de perdoar e pedir perdão, configurando a conversão não como mero remorso íntimo, mas como transformação das relações.

A Igreja insiste em que esses três pilares não são compartimentos estanques, mas dimensões mutuamente implicadas: a oração sem jejum torna‑se abstrata; o jejum sem caridade degenera em ascetismo estéril; a caridade sem oração corre o risco de se reduzir a filantropia sem transcendência. Na Quaresma, portanto, a espiritualidade autêntica se reconhece justamente quando essas três vertentes se alimentam reciprocamente, conduzindo o fiel a uma experiência mais orgânica de conversão.

Também o caráter penitencial do tempo quaresmal deve ser compreendido à luz da Páscoa. A penitência não é autopunição, mas resposta a um amor que precede, é exercício de verdade que abre espaço para a graça. Por isso, este período é particularmente propício à redescoberta do sacramento da reconciliação, às práticas de retiro espiritual, às vias‑sacras, às meditações prolongadas sobre a Paixão. A pedagogia litúrgica vai, assim, entrelaçando memória histórica, símbolos sacramentais e exercícios concretos de renúncia e de serviço, para que a celebração da Páscoa não seja mero rito social, mas verdadeiro renascimento de dentro para fora.

Em tempos marcados pela aceleração e pela hiperexposição, a Quaresma se apresenta, paradoxalmente, como um contra‑tempo cultural. Ela convida a uma espécie de desaceleração interior, a um recolhimento que não é fuga do mundo, mas busca de um olhar mais lúcido sobre ele. Enquanto o calendário civil se orienta por feriados, consumo e agendas econômicas, o calendário litúrgico insere no coração do tempo comum um apelo à interioridade, à solidariedade e à esperança pascal, lembrando ao crente que a última palavra sobre a história não pertence nem ao mercado, nem à violência, mas ao Ressuscitado.

Por isso, a Quaresma não é apenas um vestígio de cristandade ou um costume devocional entre outros, mas permanece, para milhões de fiéis, um verdadeiro laboratório de conversão e de liberdade. Nesses quarenta dias, a Igreja oferece um itinerário antigo e, ao mesmo tempo, sempre novo, no qual o cristão é convidado a atravessar, com serenidade e coragem, os desertos da própria vida, levando consigo a certeza de que, além deles, resplende a luz da Páscoa.

Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefeHostingPRESS – Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

Mais recentes

PUBLICIDADE