

Robert Duvall morreu na noite de domingo, 15 de fevereiro de 2026, aos 95 anos, em sua casa em Middleburg, no estado da Virgínia, segundo comunicado divulgado por sua esposa, Luciana Duvall. A causa da morte não foi revelada, e a família informou que ele partiu de forma tranquila, em ambiente doméstico, cercado de afeto.
Há mortes que encerram uma vida e há mortes que, ao contrário, parecem apenas deslocar uma presença para outro plano, onde ela continua a atuar. Duvall foi desse segundo tipo. Sua figura, ao mesmo tempo austera e cordial, atravessou mais de seis décadas de cinema e televisão, oferecendo ao público um repertório de homens comuns feridos por ambição, honra, culpa, ternura e humor seco, como se cada personagem fosse uma variação possível do próprio temperamento humano. A notícia foi confirmada por meio de declarações atribuídas à esposa e repercutida pela imprensa internacional e brasileira, que sublinhou o caráter sereno do adeus.
No comunicado divulgado por sua assessoria, também se registrou o desejo de que não houvesse cerimônia formal, convidando quem quisesse homenageá lo a fazê lo à maneira do próprio ator: assistindo a um grande filme, contando uma boa história à mesa com amigos, ou percorrendo estradas do interior para contemplar a paisagem. A frase tem o sabor de um roteiro simples, quase doméstico, e talvez por isso carregue tanta verdade: Duvall sempre pareceu desconfiar do excesso e preferir o essencial, inclusive quando a câmera lhe oferecia o prestígio de uma aura. Essa recusa do espalhafato era, paradoxalmente, uma das formas mais discretas de grandeza.
O mundo o reconheceu em papéis que já não pertencem apenas à história do cinema, mas a uma espécie de arquivo emocional coletivo. Entre eles, permanece luminoso o advogado Tom Hagen, o conselheiro frio e leal da família Corleone, nos dois primeiros filmes de “O Poderoso Chefão”, parceria que o ligou de modo decisivo ao universo de Francis Ford Coppola. Coppola o convocou ainda para obras igualmente fundamentais, como “The Conversation” e “Apocalypse Now”, onde Duvall compôs o tenente coronel Bill Kilgore e arrancou da guerra, em pleno delírio, uma presença tão carismática quanto ameaçadora, que o público jamais esqueceu.
A trajetória de prêmios e indicações, sempre citada como medida de prestígio, foi apenas um dos sinais do que ele representou. Duvall recebeu sete indicações ao Oscar ao longo da carreira e venceu a estatueta de melhor ator por “Tender Mercies”, filme de 1983 que lhe permitiu explorar, com uma contenção quase musical, as contradições de um cantor country em ruínas. Entre as nomeações, destacam se as de “The Apostle”, que ele também escreveu e dirigiu, “A Civil Action” e “The Judge”, esta última quando já tinha 84 anos, feito que o colocou entre os mais velhos indicados na categoria de coadjuvante. A longevidade artística, aqui, não foi uma vitória contra o tempo, mas uma vitória sobre a tentação de repetir fórmulas: ele envelheceu em cena sem abandonar o risco, como se cada novo papel tivesse de justificar, por si, o direito de existir.
A imprensa destacou, ao noticiar a morte, que a confirmação partiu de Luciana Duvall e que a despedida ocorreu no ambiente familiar, com poucas informações além do essencial. Há, nesse silêncio, um traço de elegância rara em tempos de superexposição, como se a intimidade não fosse matéria para espetáculo. O ator, que tantas vezes encarnou a autoridade, o poder e a dureza, parece ter encontrado o último gesto de coerência precisamente na simplicidade do desfecho. O que fica, para o público, é a memória de uma filmografia em que a força não dependia de volume, mas de precisão.
Duvall pertenceu a uma geração que atravessou a modernização da linguagem cinematográfica norte americana, vivendo por dentro a transição do star system clássico para o realismo nervoso da chamada Nova Hollywood, sem jamais se reduzir a uma escola estética. Seus personagens tinham a densidade dos homens que não cabem em slogans: o advogado que sacrifica a alma pela lealdade, o militar que faz da brutalidade um espetáculo, o pregador que se debate com fé e vaidade, o profissional que negocia moral e conveniência. Nessa constelação, o rosto de Duvall funcionava como um território de nuances, capaz de sustentar uma cena com o mínimo de gestos, como quem confia no poder do subtexto.
A confirmação de que ele morreu “pacificamente” em casa, em Middleburg, foi repetida por veículos como a CNN, que também enfatizou a extensão de sua carreira e os papéis emblemáticos que o tornaram um dos grandes intérpretes americanos do século XX e do início do XXI. No Brasil, a notícia ganhou destaque imediato e ressaltou tanto a ligação com “O Poderoso Chefão” quanto o fato de ter sido indicado sete vezes ao prêmio da Academia, além de rememorar seu Oscar e a influência que exerceu sobre sucessivas gerações de atores. Ainda que estatísticas sejam insuficientes para medir a grandeza de um artista, elas ajudam a compor o retrato de alguém que soube transformar consistência em assinatura.
A morte de Duvall, em pleno fevereiro, chega como uma dessas notícias que suspendem a pressa e obrigam o leitor a recapitular, em silêncio, cenas antigas. E, no entanto, a experiência de revê lo confirma que seu legado não se encerra no museu do clássico. Duvall continua moderno porque não atuava para “parecer” moderno, mas para dizer a verdade possível de cada cena, mesmo quando essa verdade era incômoda. Se o cinema é uma arte da presença, poucos foram tão presentes, sem artifício, quanto ele.
Fica, por fim, o detalhe mais humano, registrado no próprio comunicado: a família sugeriu que se honrasse sua memória vivendo um pequeno ritual de alegria cotidiana, como ver um grande filme ou contar uma boa história entre amigos. É uma despedida que não pede solenidade, mas continuidade, como se o melhor tributo a um ator fosse manter aceso o hábito de olhar para o mundo com curiosidade e atenção. Ao recolher seus personagens, o tempo não os apaga. Apenas os devolve àquilo que sempre foram, uma forma de nos lembrar que, por trás de cada papel, havia um homem que conhecia o valor das emoções discretas e das verdades ditas sem alarde.
Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe
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