
Outrora um vibrante epicentro cultural e histórico da capital fluminense, a Cinelândia, no coração do Rio de Janeiro, enfrenta hoje um cenário de esvaziamento e insegurança sem precedentes. A Praça Floriano, que abriga ícones como o Theatro Municipal e a Biblioteca Nacional, testemunha agora uma realidade alarmante: a ascensão de uma onda de arrastões que impôs um verdadeiro “toque de recolher” informal, alterando a rotina de moradores, turistas e comerciantes. Este fenômeno não apenas afeta a segurança física, mas também erode o tecido econômico e cultural de uma das regiões mais emblemáticas da cidade.
A gravidade da situação é percebida no dia a dia, onde a beleza arquitetônica e a riqueza histórica do local são ofuscadas pela constante vigilância. O que antes era um convite ao lazer e à apreciação, transformou-se em um ambiente de cautela, onde cada movimento rápido e cada bicicleta se tornam potenciais ameaças, forçando uma redefinição dos protocolos de convivência e segurança para todos que transitam pela área.
A Batalha Diária da Guia Clara Ventura e a Nova Rota do Turismo
A experiência da guia de turismo Clara Ventura ilustra vividamente a transformação da Cinelândia. Há nove anos atuando na região, Clara costumava encantar grupos de turistas brasileiros e estrangeiros com narrativas sobre a história e a arquitetura que emolduram a Praça Floriano. No entanto, sua rotina mudou drasticamente. As paradas para fotos e as explanações detalhadas agora são intercaladas por alertas de segurança rigorosos, quase militares em sua precisão.
Seu olhar, antes focado nos detalhes dos edifícios históricos, agora esquadrinha os arredores, buscando movimentos suspeitos, especialmente de ciclistas. A instrução é clara e urgente: celulares devem ser guardados em doleiras, e qualquer acessório, por mais insignificante que pareça, precisa ser ocultado. Este protocolo, que antes era uma precaução, tornou-se uma regra inquebrável, refletindo o aumento exponencial dos casos de roubos, com criminosos focando especificamente em itens de valor, como cordões e pulseiras douradas.
Clara relata que, em apenas doze dias, sua equipe presenciou três roubos, impactando grupos de turistas espanhóis e ingleses. “A gente não avisa, a gente pede para o pessoal tirar o cordão. Tivemos três roubos em 12 dias, com grupos de espanhóis e ingleses. Levaram o celular de uma turista e, no outro caso, acho que foi um cordão”, conta. Sua prioridade não é mais apenas a experiência cultural, mas a integridade física e material de seus clientes. Ela age como uma sentinela, observando cada ângulo enquanto os turistas tentam registrar as paisagens.
A guia admite que seus alertas constantes podem gerar tensão nos visitantes, mas defende sua abordagem com firmeza. “Enquanto todo mundo tira foto, eu estou olhando. Se vejo uma bicicleta, oriento: ‘Todo mundo guarda o celular agora’. Prefiro deixar você nervoso do que deixar acontecer alguma coisa durante o meu tour. Por enquanto, sou a única guia que não sofreu nenhum assalto e quero continuar assim. Ainda que eu deixe você um pouco mais nervoso, prefiro você seguro enquanto está comigo”, afirma Clara, expondo o dilema de quem busca conciliar a atração turística com a dura realidade da insegurança.
Ameaça Crescente e o Perfil dos Criminosos
Os arrastões na Cinelândia não são incidentes isolados, mas parte de um padrão de criminalidade organizado. Vídeos que circulam nas redes sociais expõem a brutalidade dos ataques, onde grupos de criminosos, frequentemente em bicicletas, agem em bando, abordando e muitas vezes agredindo suas vítimas para subtrair pertences. Essa metodologia intimidadora contribui para a sensação de vulnerabilidade generalizada.
Um ponto crucial levantado pelos comerciantes e trabalhadores locais é o perfil majoritário dos agressores. Segundo eles, cerca de 80% dos envolvidos nesses arrastões são menores de idade. Oberdan Rosa, gerente do Amarelinho, um dos bares mais tradicionais da região, destaca: “Oitenta por cento são menores de idade que fazem os arrastões. Às vezes, a polícia está do lado, mas prende e depois tem que soltar porque é menor de idade. O problema é social.”
Essa realidade impõe um desafio complexo às forças de segurança. A legislação brasileira, que trata menores infratores sob o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), muitas vezes limita a capacidade de retenção e punição, resultando em um ciclo vicioso de prisões e solturas. Este cenário reforça a percepção de impunidade e incentiva a reincidência, transformando o problema de segurança pública em uma questão social que exige abordagens multifacetadas, que vão além da mera repressão policial.
O Declínio do Comércio Tradicional e o Esvaziamento Noturno
A onda de arrastões não apenas afeta transeuntes e turistas, mas também estrangula o comércio centenário da Cinelândia. Estabelecimentos icônicos, que por décadas foram pontos de encontro e referências da boemia carioca, são forçados a se adaptar a uma nova e sombria realidade. O Amarelinho, bar e choperia que há 105 anos resiste no coração do Rio, é um exemplo contundente dessa transformação. Onde antes se servia a “saideira” até as 3h da manhã, hoje as portas se fecham bem mais cedo, acompanhando o esvaziamento precoce das calçadas.
Oberdan Rosa, gerente do Amarelinho, lamenta a drástica mudança. “Antigamente, íamos até as 3h. Agora, em consequência desses arrastões, o máximo que a gente vai é até 1h.” Essa redução de horário, imposta pela insegurança, tem um impacto direto e profundo no faturamento. O Amarelinho, um símbolo de resistência cultural e gastronômica, viu suas vendas caírem em impressionantes 50%, colocando em risco a viabilidade de um negócio com mais de um século de história.
A adaptação, no entanto, vai além do horário de funcionamento. Para os funcionários do Amarelinho e de vizinhos, como o Super Bar, o fim do expediente transformou-se em uma operação de segurança. A orientação é clara: nunca cruzar a praça sozinho. Garçons, cozinheiros e auxiliares aguardam uns pelos outros para formar o que chamam de “blocos”. “Quando a gente encerra o expediente, tem que andar em bloco, com dez funcionários ou mais. A partir daí, eles não mexem. Com mais de seis pessoas andando juntas, não fazem arrastões”, explica Oberdan, revelando a extensão do medo que permeia a vida de quem trabalha na região.
O Super Bar enfrenta uma situação semelhante, com seu gerente, Fábio Alexandre, descrevendo a Cinelândia como uma região “totalmente abandonada”. O estabelecimento também é forçado a fechar mais cedo, impactando diretamente seu faturamento, que recuou 30%. Ele detalha a violência: “São mais de 200 jovens, todos menores de idade. Metem a mão na roupa, roubam tudo. No sábado, fechamos a casa às 23h porque começam os arrastões.” A perda de eventos tradicionais, como o carnaval, que não ocorre no Super Bar há dois anos e não acontecerá este ano, evidencia a asfixia cultural e econômica imposta pela criminalidade.
Impacto na Cultura e Lazer: A Feirinha da Praça Floriano
A efervescência econômica e cultural da Cinelândia sempre foi complementada pela tradicional feirinha da Praça Floriano, que operava de terça a sexta-feira, das 9h às 18h. Este espaço não é apenas um ponto de comércio, mas um local de encontro para artesãos, comerciantes locais e clientes em busca de produtos únicos. Contudo, a onda de insegurança também atingiu este setor, tradicionalmente vital para a economia informal e cultural da região.
Comerciantes como Danielle Mello, vendedora de semijoias, sentem o peso da diminuição do público e do receio dos consumidores. A queda nas vendas é um reflexo direto do menor fluxo de pessoas que, antes, passeavam livremente pela praça. A insegurança, ao afastar o público, compromete a subsistência de dezenas de famílias que dependem da feirinha para seu sustento, desvirtuando a vocação de um espaço que deveria ser de convívio e prosperidade.
Desafios Ampliados da Segurança Pública no Rio
A situação da Cinelândia não é um caso isolado, mas um sintoma de desafios mais amplos que afetam a segurança pública do Rio de Janeiro. A capital fluminense lida com complexidades urbanas que exigem uma resposta robusta e coordenada das autoridades. A presença policial, embora crucial, muitas vezes se depara com as limitações legais e operacionais, especialmente no que tange ao enfrentamento de criminosos menores de idade e à dinâmica de arrastões em áreas movimentadas.
Esforços para reforçar a segurança estão em andamento, como a criação da Força Municipal, uma tropa de elite da prefeitura que já adquiriu armamentos. Contudo, a ausência de licença para seu uso impede a plena operacionalização, exemplificando as barreiras burocráticas e sistêmicas que atrasam respostas efetivas ao crime. Tais entraves contribuem para a vulnerabilidade de áreas estratégicas como a Cinelândia, que dependem de uma ação rápida e integrada para a restauração da ordem.
A perda de um espaço tão significativo quanto a Cinelândia para a criminalidade representa um prejuízo incalculável para a imagem do Rio de Janeiro, para o turismo e para o próprio sentimento de pertencimento dos cariocas. A revitalização do centro da cidade passa, necessariamente, pela reconstrução da segurança e pela garantia de que seus espaços públicos voltem a ser áreas de lazer, cultura e desenvolvimento econômico, livres do medo e da ameaça constante.
Perspectivas e a Urgência por Soluções Integradas
A reversão do cenário atual na Cinelândia exige mais do que apenas policiamento ostensivo; demanda uma estratégia integrada que contemple ações sociais, educacionais e econômicas. É fundamental abordar as raízes da criminalidade, especialmente o envolvimento de menores, através de programas de inclusão e oportunidades que ofereçam alternativas à vida no crime. A cooperação entre as esferas municipal e estadual, aliada ao engajamento da comunidade e do setor privado, é crucial para a formulação e execução de planos eficazes.
A recuperação da Cinelândia não é apenas uma questão de segurança, mas um imperativo para a preservação da identidade cultural do Rio de Janeiro e para a retomada do desenvolvimento econômico de uma região vital. A capacidade da cidade de proteger seus cidadãos e visitantes em locais de grande simbolismo determinará, em grande parte, sua resiliência e seu futuro como um destino vibrante e seguro.
A crise na Cinelândia é um chamado de atenção urgente para a necessidade de políticas públicas mais eficazes e de uma ação coordenada que possa resgatar um dos patrimônios mais valiosos do Rio de Janeiro. A cada dia que passa, o “toque de recolher” informal se consolida, ameaçando apagar o brilho de um local que é parte intrínseca da história e da alma carioca. É imperativo que as autoridades e a sociedade civil se unam para reverter este quadro, garantindo que o coração do Rio volte a pulsar com a energia e a segurança que sempre o caracterizaram.
O esvaziamento da Cinelândia é um reflexo alarmante da deterioração da segurança pública em pontos cruciais do Rio de Janeiro. O SP Notícias continuará acompanhando de perto essa situação, trazendo informações aprofundadas e análises sobre os desdobramentos e as iniciativas para restaurar a paz e a vitalidade de nossa cidade. Para se manter sempre informado sobre este e outros temas urgentes que afetam o cotidiano carioca, continue navegando em nosso portal e acesse as notícias mais relevantes da capital fluminense.
Fonte: https://oglobo.globo.com