
A nova montagem de “Il servitore di due padroni”, de Carlo Goldoni, retorna ao palco como um experimento de “tradução cultural” em sentido forte: não apenas verte o texto, mas desloca seus motores cômicos para um Brasil urbano, popular e moralmente ambíguo, onde a festa de noivado, interminável e saturada, vira laboratório de máscaras sociais. A encenação, dirigida a quatro mãos por Neyde Veneziano e Giovani Tozi (responsáveis, respectivamente, por tradução e adaptação), reúne 10 artistas em cena e estreia em 16 de janeiro de 2026, no Teatro Itália.
Este artigo adota uma dicção mais ensaística e analítica, como costuma ser solicitada em trabalhos de fôlego acadêmico.
Um clássico em trânsito
O ano de 2006 selou um encontro decisivo entre dois artistas: Neyde Veneziano abria testes para seu novo “Arlequim e Seus Dois Patrões”, e Giovani Tozi, então bailarino e estudante de teatro, buscava seu primeiro trabalho no teatro profissional. A audição funcionou, a estreia aconteceu sob a condução de uma diretora central para o teatro popular e, em especial, para a tradição da commedia dell’arte; vinte anos depois desse primeiro cruzamento, Tozi e Veneziano retornam ao título que os aproximou.
A nova montagem de “Il servitore di due padroni” preserva o enredo central e os arquétipos fundamentais, Pantaleão, Doutor, Arlequim, mas os instala numa atmosfera contemporânea, brasileira e urbana, com o espetáculo situado em 2025. Esse deslocamento não é mero “verniz” de atualização: ele reorienta os vetores de desejo, dinheiro e status que, em Goldoni, já organizavam a mecânica do riso, mas agora reaparecem sob signos nacionais imediatamente reconhecíveis.
Há, ainda, um dado histórico que ilumina o gesto: “Arlequim, Servidor de Dois Amos”, de Carlo Goldoni, estreou em 1745, em Milão, e se tornou marco de revolução estética no teatro europeu por converter a commedia dell’arte improvisada em comédia escrita, estruturada em texto dramático, sem perder o humor popular e a vitalidade dos tipos tradicionais. Reencenar esse título hoje implica dialogar com a própria ideia de “estrutura” cômica, isto é, com as engrenagens que fazem uma sociedade rir de si mesma, e com o que, em cada época, é considerado aceitável (ou irresistível) como caricatura.
Máscaras, instinto e jogo do bicho
Segundo Giovani Tozi, o ponto de partida da adaptação está no conceito de máscara da commedia dell’arte: elas não representariam animais “ao pé da letra”, mas carregariam traços animalizados que indicam instinto, energia e função social; a partir dessa lógica, surgiu a associação com algo profundamente brasileiro, popular e simbólico: o jogo do bicho. A consequência dramatúrgica é elegante: ao aproximar tipos clássicos de uma gramática social brasileira, com sua economia informal, seus pactos subterrâneos e sua estética de poder, o espetáculo tenta reativar a potência original da commedia: fazer do riso uma forma de diagnóstico.
A ambientação em uma festa de noivado organizada por um bicheiro poderoso funciona como chave cenográfica e sociológica. A festa é, por natureza, o lugar da máscara: todos performam pertencimento, alegria e cordialidade, enquanto interesses reais, herança, território, alianças, negociam-se em linguagem cifrada. Quando esse “lugar da máscara” é controlado por um poder paralelo (a figura do bicheiro), a comédia ganha um subtexto de risco; e é precisamente esse risco que acelera o ritmo e tensiona a gargalhada, tornando-a nervosa, cúmplice, por vezes quase defensiva.
Nessa versão, Pantaleão é um bicheiro que deseja casar a filha para estabilizar (e lucrar) a divisão de territórios vizinhos; o Doutor segue advogando, mas agora presta serviço para bicheiros que aumentam sua fortuna. A história inteira se passa dentro de uma festa de noivado que nunca termina, ambiente em que todos parecem “inimigos do fim”, e o próprio dispositivo da duração (a festa que se recusa a acabar) vira comentário sobre uma sociabilidade exausta, que insiste em beber, falar e negociar para adiar o colapso.
A montagem explicita suas afinidades por contraste: mistura o absurdo de Buñuel em “O Anjo Exterminador” com a lógica caótica e sedutora de “Vale o Escrito”. Ao invocar Buñuel, a festa se torna “prisão voluntária”, onde a etiqueta e o delírio substituem a saída; ao lembrar “Vale o Escrito”, o jogo do bicho aparece não como folclore, mas como sistema de relações, uma dramaturgia paralela de poder, carisma e violência. Dessa fricção nasce uma comédia de linguagem de 2025, que respeita a tradição da commedia dell’arte e, ao mesmo tempo, a reinventa dentro de uma realidade social brasileira vibrante, contraditória, perigosa e irresistivelmente cômica.
Direção a quatro mãos
A encenação é assinada por Neyde Veneziano e Giovani Tozi, que dividem a direção, com tradução de Veneziano e adaptação de Tozi, e estreia em 16 de janeiro de 2026, no Teatro Itália. Neyde qualifica a adaptação de Tozi como “genial” e “maravilhosa” e conta que acolheu a sugestão para dirigirem juntos: com texto extenso, elenco de 10 atores e várias cenas, dois encenadores resolveriam a questão de aproveitar melhor o pouco tempo disponível de ensaios até a estreia.
A própria divisão de tarefas, como relatada, revela um entendimento prático do que significa “atualizar” um clássico sem amputar sua biomecânica. Neyde procura ambientar o elenco no cenário e dá atenção à composição física das personagens, especialmente na transposição para a atualidade; Tozi cuida de aquecimentos e leituras e focaliza intenções e modos de expressão. Em termos de linguagem cênica, essa partilha sugere que o espetáculo pretende equilibrar dois eixos: o corpo (a máscara como desenho físico, ritmo, vetor) e a palavra (o texto como partitura de intenção, inflexão e conflito).
Personagens, elenco e música ao vivo
A dramaturgia ganha contornos brasileiros de 2025 também pela reconfiguração de personagens. O Arlequim de Goldoni transforma-se em Tico Sorriso, vivido por Felipe Hintze: carnavalesco de uma escola de samba de quarta divisão, ele é também um PJ que acumula empregos para pagar as contas no fim do mês, dado que injeta na farsa um retrato contemporâneo de precarização e de “malabarismo” laboral, afinado com o próprio arquétipo do servo que corre para sustentar múltiplas demandas.
Esmeraldina (Mila Ribeiro) torna-se assessora e social media de Clarice Lombardi (Camilla Camargo), decidida a assumir os negócios da família assim que se casar com Silvio Salvatti (Marcus Veríssimo). Silvio aparece como playboy à sombra do pai, o Doutor Salvatti (Jonathas Joba), advogado influente que, sempre que bebe, passa a falar em latim; como ninguém para de beber na festa, suas conversas com Pantaleão Lombardi (Marcelo Lazzaratto) tornam-se cada vez mais confusas, e essa confusão, ao que tudo indica, vira motor de cena: o latim como verniz de autoridade que degringola em ruído quando atravessado por álcool, vaidade e cálculo.
O embaralhamento se radicaliza quando Beatriz Rasponi (Larissa Ferrara) surge vestida como o próprio irmão, Frederico Rasponi, para recuperar o dinheiro que ele havia deixado escondido com Pantaleão. Como esse irmão tinha um casamento arranjado com Clarice, Frederico precisa sustentar a farsa e simular um interesse amoroso que nunca existiu, mecanismo clássico de comédia de enganos, agora recolocado no interior de uma festa que já é, em si, um palco permanente.
Luca Aretusi (Gabriel Santana), marido de Beatriz, é o principal suspeito do assassinato do cunhado e surge em busca da esposa desaparecida; para ajudá-lo, ou complicar ainda mais, entra Briguela (Gabriel Ferrara), dono do Hotel Goldoni Palace, encarregado de receber todos e manter a festa funcionando. E, como signo teatralmente precioso, a celebração interminável é embalada por música original, ao vivo, de Nando Pradho, que dita o ritmo de uma comemoração que se recusa a acabar, como se a trilha fosse, ela mesma, a “máquina do tempo” que mantém o público preso dentro do mesmo presente.
Serviço e ficha técnica
FICHA TÉCNICA
Texto: Carlo Goldoni.
Tradução: Neyde Veneziano.
Adaptação: Giovani Tozi.
Direção: Neyde Veneziano e Giovani Tozi.
Elenco: Camilla Camargo, Felipe Hintze, Gabriel Ferrara, Gabriel Santana, Larissa Ferrara, Jonathas Joba, Marcelo Lazzaratto, Marcus Veríssimo, Mila Ribeiro e Nando Pradho.
Cenógrafo e diretor de arte gráfica: Giovani Tozi.
Design de luz: Cesar Pivetti.
Figurinista: Gi Marcondes.
Trilha Sonora Original: Nando Pradho.
Assessoria de Imprensa: Arteplural – M Fernanda Teixeira e Maurício Barreira. Fotografia: Priscila Prade. Video: Luz Audiovisual. Redes socais: André Massa. Design gráfico: Gigi Prade.
Direção de Produção: Giovani Tozi.
Produção Executiva: Thomas Marcondes.
Assistente de Produção: Pedro Sousa.
Assessoria de Imprensa: – Arteplural – M Fernanda Teixeira e Maurício Barreira
Administração Financeira: Carlos Gustavo Poggio. Realização: Corpos Sensores Produtores Culturais.
TEATRO ITÁLIA
Estreia 16 de janeiro de 2026.
Temporada de sexta a domingo até 1 de março de 2026. Sessões – Sextas e sábados 20h, domingo 18h. Ingressos 80,00 (inteira) e 40,00 (meia). Classificação 12 anos.
Link de vendas: https://bileto.sympla.com.br/event/114186/d/354232/s/2389020