Mesmo nas melhores universidades, aluno não consegue mais ler, diz autor do livro ‘Geração Ansiosa’

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Autor do best-seller mundial A Geração Ansiosa, o pesquisador americano Jonathan Haidt alerta que não só as crianças e adolescentes de hoje sofrem fortemente o impacto das novas tecnologias. “É bem possível que toda a humanidade esteja ficando mais estúpida desde 2015, que é o período exato em que nossas máquinas passaram a ficar mais inteligentes”, diz o psicólogo, que esteve no Brasil esta semana.

O Estadão participou de um encontro reservado de Haidt com secretários, deputados e representantes da sociedade civil ligados à educação, em São Paulo. “Mesmo nas melhores universidades dos Estados Unidos, os alunos não conseguem mais ler.”

Diante de uma plateia influente, ele repetiu várias vezes que “é preciso agir agora” para regular as plataformas de redes sociais, impedir que menores de 16 anos possam acessá-las e retomar a infância que vem sendo perdida nos últimos anos. Em seu livro – lançado em 2024 e que foi um dos grandes impulsionadores da lei que proíbe celulares nas escolas no Brasil e no mundo – ele mostra como a epidemia de transtornos mentais entre crianças e jovens está relacionada ao surgimento dos smartphones na década de 2010.

Durante o encontro, ele traçou um cenário sombrio, com consequências também na capacidade de aprender e de se concentrar. E incluiu a inteligência artificial nas suas críticas veementes. “Ela vai ficar cada vez mais poderosa. As crianças que são pequenas hoje vão passar a ter a maior parte das suas interações com IA, e não com pessoas”, afirmou. “Hoje elas já têm muitas interações com pessoas mediadas por produtos tecnológicos e os resultados são terríveis, desastrosos, catastróficos.”

Haidt se diz numa “missão pelo mundo” para falar de suas pesquisas e pedir mudanças. “Em dois anos, a IA transformará a vida dos nossos filhos, temos de agir já.”

Ele, que é também professor da Universidade de Nova York, conta que já precisa fazer adaptações nas aulas porque seus alunos não conseguem mais ler textos e livros indicados nos cursos. “Eu abro um livro, leio uma frase, fico entediado e vou para o TikTok, porque o TikTok está sempre lá e é instantâneo, você não precisa fazer login, você pode ver vídeos e é sempre mais interessante do que o professor”, conta, referindo-se a conversas que tem com seus alunos.

Segundo Haidt, os universitários usam inclusive plataformas que transformam textos PDF em vídeos curtos para que consigam acompanhar o conteúdo com palavras e frases que piscam na tela.

O autor de Geração Ansiosa, Jonathan Haidt, e a deputada Marina Helou (Rede), em encontro em São Paulo.
O autor de Geração Ansiosa, Jonathan Haidt, e a deputada Marina Helou (Rede), em encontro em São Paulo.

Diante de secretários de educação, entre eles o do Estado de São Paulo, Renato Feder, o pesquisador foi taxativo ao dizer que tecnologia na sala de aula não melhora a aprendizagem. Feder tem aumentado as aulas com recursos tecnológicos na rede estadual e chegou a desistir de comprar livros didáticos impressos, mas recuou depois de repercussão negativa.

“Quanto mais tecnologia educacional você usar, menos as crianças vão conseguir fazer, por causa da distração. Não coloque um computador na mesa dos estudantes”, recomendou Haidt, citando um estudo da Unesco sobre o assunto.

Para ele, a solução é muito mais simples e barata. “Invista dinheiro em melhores playgrounds em todas as escolas do Brasil e deixe esses espaços abertos para brincadeira livre, sem supervisão, sem apitos.” Durante o encontro, ele elogiou o Brasil por se tornar “uma referência” no banimento de celulares nas escolas, mas diz que é preciso avançar numa legislação que também proíba as redes sociais para menores de 16 anos.

Durante a conversa, deputados federais, como o ex-ministro da Educação Mendonça Filho (União Brasil) e Pedro Leite (Republicanos), pediram sugestões de como convencer Congresso e sociedade sobre a urgência da pauta. “É preciso falar sobre degradação. Quando as ideias das crianças sobre o desenvolvimento sexual aos 10, 12 anos vêm da pornografia e elas pensam que as relações entre homens e mulheres envolvem sufocamento e violência, isso é muito degradante para o espírito humano, para a possibilidade de amar. Esse é o tipo de degradação que vem por meio das redes sociais”, respondeu.

O evento foi organizado pela deputada estadual Marina Helou (Rede), autora da lei paulista sobre a proibição de celulares nas escolas, e pela Fundação Lemann.

Haidt, que também já escreveu sobre os impactos da superproteção dos pais na geração atual, defendeu a volta da infância independente, com mais tempo de recreio nas escolas e crianças brincando na rua. Falou ainda da importância dos jovens “se frustrarem, terem conversas difíceis, aprenderem a paquerar cara a cara”. E se esforçou para que ninguém esqueça um de seus mantras: “protegemos demais nossos filhos no mundo real e os desprotegemos online”.

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